Corto Maltese – Longínquas ilhas do Vento

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Conhecido pelas viagens melancólicas e pelas mais exóticas aventuras, finalmente decidi-me a pegar, pela primeira vez, num livro de Corto Maltese. O que encontrei foi confronto de culturas, um quase eterno problema de memória, uma queda para a aventura e para os confrontos mirabolantes.

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O livro reúne três histórias – Cabeças de cogumelo, Um negócio de “bananas” e Vodu para o senhor presidente, e começa com um bom texto introdutório que inclui notas históricas e culturais, bem como fotos a propósito. Algumas das referências das histórias como as cabeças miniaturas que as tribos sul americanas comercializam são reais, bem como as drogas que usavam para rituais. Todos estes elementos distanciam estas tribos da lógica ocidental conferindo-lhes uma moralidade própria e contribuem para criar o ambiente próprio e necessário para a primeira história.

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Depois de uma primeira história que mistura misticismo selvagem num sonho fantástico onde a memória é volátil e transformante, segue-se uma aventura movimentada e mirabolante onde se sucedem rapidamente episódios de tiro e morte. Recordando as histórias de agentes secretos como o 007 onde as femme fatale inebriam e confundem os homens, Um negócio de “bananas” apresenta uma revolução política numa república das bananas, carregada de corrupção e traição.

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A terceira história é um misto das duas anteriores, em temática e desenvolvimento. Em Vodu para o senhor presidente Corto Maltese vê-se nas Caraíbas. As ilhas tresandam a vodu e a feitiçaria, e uma mulher ocidental encontra-se em julgamento, acusada de utilizar o trabalho dos mortos para seu próprio proveito. Situação estranha que se entrelaça com uma farsa política e uma revolução em que Corto Maltese tem sobretudo um papel acessório. Não falta a misteriosa femme fatalle, distante mas conhecedora de segredos de Corto que o próprio desconhece, não falta a reviravolta mirabolante e esmagadora, nem a estranheza cultural, aqui utilizada de forma bastante diferente.

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Em Corto Maltese o desconhecido não está apenas nos locais onde se encontra, mas também na história e nele próprio. Agindo sobretudo como ferramenta, mais do que perpetuador, demonstra, também, quando necessário, a inteligência para se esgueirar a situações desnecessárias que seriam típicas aventuras de adolescente. Envolto pelos encantos femininos e levando à desgraça algumas das mulheres com as quais se envolve, a figura de Corto Maltese permanece um mistério distante ao longo das três aventuras, uma figura que pouco revela de si próprio, sempre em movimento. O resultado é a nostalgia da descoberta e da viagem onde as amarras se desvanecem e o mundo inteiro é possível.

Corto Maltese foi publicado pela Asa.

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