A arte de caçar destinos – Alberto S. Santos

A arte de caçar reúne alguns contos sobrenaturais em cenário português da autoria de Alberto S. Santos. Com temática e exposição diferente, de tom díspar entre histórias, trata-se de um conjunto por vezes confuso e pouco coeso ainda que possua alguns bons contos, de estrutura mais clássica, aos quais não falta uma mensagem moral.

O livro começa com Correr o Fado, o pior conto do conjunto, para mim, tanto pela escrita demasiado floreada para o contexto rural que apresenta, como pela percepção que expõe sobre as mulheres. Talvez esta percepção seja justificada pela época em que se situa, sendo um dos poucos contos que se mostra, quase todo, em primeira pessoa, mas as pequenas notas que possui tornam a leitura incómoda.

Já aprendi que faz parte do espírito das mulheres esconderem as suas verdadeiras intenções atrás de atos, por vezes, violentos. Mas um homem não pode levar a peito tais reacções, antes encará-las como um dos passos para se alcançar o limbo das delícias que só elas nos sabem dar.(…)

Brígida interessava-me mesmo para fins mais sérios, aqueles que acontecem quando nos lembramos vezes de mais de uma mulher. E não apenas porque, como homens que somos, temos certas e determinadas necessidades que só os másculos varões sabem explicar e as mulheres nunca entendem.

O conto roda em torno de uma aldeia em que os habitantes estão assustados por acharem que há quem corra o fado todas as noites. Já O Génio do Candil é um conto sem estas observações, de estrutura mais clássica em que um jovem, órfão de pai e mãe, deixado à porta da igreja, vê os dias calmos terminarem quando o seu protector, o padre, falece e o sucessor, instigado por sentimentos pouco nobres, o expulsa. Albergado por um homem pobre, descobre um dia um candil com um papel em árabe, papel que o fará viajar e conhecer a mulher que ama. De propósito moral mas bem construído, gostei desta pequena história que cria empatia para com a personagem principal.

Em O Dono do Mastro um homem vê-se caído em desgraça por não respeitar as tradições, tentando, numa primeira volta, culpar outros pelo seu infortúnio. Por sua vez, Maria Carriça centra-se numa jovem, também órfã de pai e mãe que tenta a sorte com o dote dado por selecção e sorteio em honra do Santo local. Uma história corrente na época de quem, sem nada, se agarrava às poucas esperanças para construir uma vida mais decente.

Em A Sombra da Deusa uma caçada termina em desgraça, fruto de uma antiga maldição, gerada pelo conspurcar das deusas locais, cujo poder parecer permanecer após longos séculos. Já em A Filha da Viúva uma jovem cai em desgraça por se apaixonar por um jovem abastado. Filha de uma viúva que todos julgam bruxa, é tomada, também por bruxa perante a Inquisição.

Finalmente, Onde o rio acaba é uma história diferente destas, decorrendo num tempo mais actual e apresentando destinos adiados que finalmente se concretizando contra todas as probabilidades, com vidas passadas a influenciar a actual existência.

Com bases históricas que justificam grande parte dos contos, A arte de caçar destinos contém alguns contos engraçados que se focam na mitologia local, com um alto teor sobrenatural. Em vários se apresentam as raízes pagãs de muitas tradições cristãs, sejam cerimónias ou procissões, mostrando que os hábitos locais permanecem os mesmos durante séculos, transformados à luz de novas crenças.

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