Daytripper – Fábio Moon e Gabriel Bá

How to talk to girls at parties é, para mim, das piores coisinhas que o Neil Gaiman já escreveu. Visualmente agradável, parece retratar as mulheres como alienígenas incompreensíveis e temperamentais. Tendo como desenhadores a dupla Fábio Moon e Gabril Bá, fez-me adiar a leitura de Daytripper mesmo sabendo que a narrativa pouco deveria ter a ver. O que encontrei? Uma das melhores leituras de banda desenhada dos últimos tempos.

A personagem principal é um escritor. Ou um aspirador a escritor que olha para os grandes êxitos do pai. Por agora escreve obituários num jornal, deixando os meses passar enquanto procura um percurso de vida. No dia em que o pai é homenageado entra num bar para assentar as ideias e é envolvido num assalto, morrendo sem concretizar os seus planos de vida.

Ou não. A história vai avançando, simulando os vários finais possíveis e os respectivos obituários, demonstrando as várias fases da vida de Brás de Oliva Domingos. De etapa em etapa, enquanto estudante em viajem com um grande amigo que o há-de acompanhar na maior parte da sua vida, com a primeira esposa, ou o apaixonar à primeira vista que o leva a conhecer a que será a mãe dos filhos, percebemos que a vida é uma série de possíveis encontros com a morte.

Brás de Oliva Domingos desempenha o seu papel de forma relevante, escrevendo obituários concisos que são bem recebidos pelos familiares, principalmente numa altura de grande tragédia em que dezenas de pessoas falecem no aeroporto. Felizmente este não será o seu único momento de destaque e consegue ser o escritor de sucesso que tanto deseja.

A vida é composta por uma série de acasos em que se falha, sucessivamente, o encontro com a morte, seja por distracção, por acidente ou de forma forçada. Em Daytripper a dupla explora a dualidade da vida e da morte, mostrando um percurso que facilmente poderia ter sido interrompido.

Não esperem grande sentido nos vários finais possíveis – coincidências, acasos, escassos momentos no local errado. O final pode coincidir com o momento em que se descobre o que se pretende da vida, ou quando se está totalmente perdido nos acontecimentos importantes, ou, ainda, nas alturas mais aborrecidas.

Sem mostrar um padrão ou um motivo de importância extrema que faça sentido como uma peça num puzzle, Daytripper explora a vida como uma sucessão de pequenas fugas a eventos terminais, demonstrando que muitos nunca chegam a aperceber-se de uma pequena percentagem das verdadeiras possibilidades com que se depararam.

Daytripper foi publicado na colecção Novela Gráfica que foi publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

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