Little Bird – PoelGeest, Bertram e Hollingsworth

Estranho, fascinante, fantástico, esotérico, obscuro e tecnológico. Todas estas palavras se podem aplicar a Little Bird, uma banda desenhada que não é muito convencional em estilo visual, e que tem alguns detalhes diferentes em termos narrativos. O resultado destaca-se pela diferença e recorda, em sensação, a série Monstress.

A premissa narrativa não é nova. Aliás, Little Bird pega numa ideia clássica e desenvolve a narrativa de uma forma que já vi em diversos livros ou séries. Mas o que se diferencia é a forma como tece a abordagem, como apresenta as personagens e como cruza fantasia e ficção científica para criar uma sensação mítica e transcendente.

Elaborando. Na realidade construída em Little Bird, os Estados Unidos da América são dominados por uma extrema religiosidade que condiciona o quotidiano, a tecnologia e os relacionamentos. Esta premissa já a vimos em várias narrativas, destacando-se, claro, a comparação com um êxito recente, The Handmaid’s Tale. A forma como a religiosidade afecta os Estados Unidos é, no entanto, bastante diferente nesta narrativa, com uma linhagem de imperadores de hábitos arrepiantes.

A história abre com um ataque a uma vila de indígenas no Canadá, perpetuada pelo Império Americano, também denominado de Novo Vaticano. Toda a vila é limpa, com excepção de uma pequena rapariga a quem é dada a missão de libertar um famoso guerreiro que os ajudará no caminho da libertação. Qual escolhida numa narrativa fantástica, esta jovem torna-se a personagem principal da narrativa.

Após este episódio inicial somos levados ao Império Americano. Para além da referência religiosa óbvia na designação de Novo Vaticano, existem vários outros elementos que nos apresentam uma extrema religiosa, mas levada ao extremo num sentido doentio: na primeira imagem do Imperador, este banha-se com sangue. Este Império Americano tem como objectivo eliminar os não crentes.

Neste sentido, Little Bird parece-nos levar a um cruzamento entre uma narrativa de ficção científica e de fantasia. Por um lado, temos uma distopia religiosa com elementos bastante avançados de biotecnologia, por outro, temos uma heroína que age como a escolhida. E mesmo os elementos de biotecnologia são tratados quase que como magia ou algo sobrenatural, ainda que se elucide da origem científica dos poderes de determinadas personagens.

A componente esotérica é fornecida pela forma como a narrativa é apresentada. Com saltos narrativos, com trechos inicialmente incompreensíveis, com diálogos estranhos e episódios que parecem retirados de um sonho – um labirinto a ser explorado pelo leitor. Por um lado temos elementos bastante adultos e compostos, por outro, temos trechos quase naive em termos de interacção entre personagens que conferem a componente surreal e sonhadora.

Esta estranheza narrativa é acompanhada pelo desenho. Os corpos e as feições das personagens apresentam proporções ligeiramente exageradas, e com grande diversidade de texturas. Em contraste, o fundo apresenta menos detalhe fazendo realçar as personagens, principalmente no Novo Vaticano, em que as cores são mais artificiais e as pessoas parecem não se encaixar no ambiente. Nota-se, também, que as cores usadas para retratar o Novo Vaticano e o Canadá são bastante diferentes – no primeiro usa-se um visual mais estéril, enquanto no segundo existem referências constantes à natureza, com o uso das cores associadas às florestas. Esta diferença cromática pode ser observada, também, nas personagens que têm origem nos dois mundos.

A estranheza narrativa e visual distinguem esta banda desenhada. Por um lado, usa elementos clichés da ficção científica e fantasia que podemos ver em várias outras histórias de banda desenhada. Por outro, usa uma disposição original destes elementos que lhe conferem um tom único. Ainda assim, não funcionou totalmente comigo e acabo a leitura com um sentimento dúbio.

Por um lado, a estranheza dos diálogos e dos desenhos são um elemento inovador e fascinante. Por outro, nem sempre permitem uma leitura fluída, o que, dependendo do estado de espírito, pode ser um travão à progressão. Ultrapassando este elemento, no último terço do livro a narrativa precipita-se com excessivas reviravoltas e comportamentos clichés que tornam a história demasiado instável e, por vezes, confusa. Little Bird é uma boa leitura, mas falta-lhe uma coerência global para se tornar extraordinária. E talvez a tenha lido com as expectativas demasiado elevadas. É, pois, uma boa leitura, mas que, para mim, não atingiu o patamar da excelência.

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