Secret Life – Theo Ellsworth e Jeff Vandermeer

Jeff Vandermeer é daqueles autores que sigo há alguns anos, muito anos da adaptação do seu livro a cinema. Conheci-o como um autor de New Weird, que criava várias obras na cidade de Ambergris com homens cogumelo e fungos por todo o lado. Depois da trilogia Aniquilação, li dois dos livros da fabulosa trilogia Borne. As obras de Jeff Vandermeer conseguem ser sempre originais, com elementos e abordagens extraordinárias, ainda que contenham, quase sempre, uma escrita densa que pode afastar alguns leitores.

Este Secret Life traz-nos a adaptação, para banda desenhada, da história de Jeff Vandermeer com o mesmo nome e recorda-me, nalguns elementos, The Situation.

A história

Como seria de esperar de um livro de Jeff Vandermeer, a história não é linear, oscilando entre diferentes focos e perspectivas em torno de uma companhia que ocupa vários pisos de um mesmo prédio. Cada piso parece uma facção, contendo uma dimensão própria de funcionários. A história ora se centra numa determinada função, ora numa determinada personagem.

Crítica

Jeff Vandermeer deixou, há muitos anos, a vida de escritório para se tornar escritor. No seu livro, The Situation, usa esta vivência como uma catarse dessa vida , colocando personagens fantásticas como trabalhadores de escritório, com um claro paralelismo com algumas figuras típicas que costumam popular o mundo corporativo.

Este Secret Life segue um pouco esta linha, mas usa pessoas com aparência humana que são transformadas, lentamente, em figuras surreais devido à vivência no escritório. Algumas são evidentes referências ao mundo corporativo – uma caneta roubada que era valorizada por um empregado, um manager que trabalhava longas horas e se descobre viver no escritório, uma pessoa que espera longas horas para fazer uma rápida tarefa banal.

Pouco a pouco, cada uma destas pessoas ultrapassa o limite da normalidade de um escritório normal, criando-se situações surreais que serão típicas do estilo New Weird do autor. Aqui ainda se encontram contidas, com fortes raízes na realidade e, como tal, com um maior paralelismo com o que conhecemos – um paralelismo que é ainda mais interessante para quem trabalha num escritório e conhece a realidade corporativa.

Em termos visuais é uma banda desenhada um pouco experimental, mas que combina bem com o tom estranho (e por vezes, também experimental) de Jeff Vandermeer. Não existe um único padrão para a forma como as páginas se apresentam, sendo que as texturas vão sendo compostas por diferentes padrões detalhadamente desenhados. O resultado é curioso, e por vezes, muito bom, para quem gosta deste tipo de desafios visuais.

Conclusão

Secret Life é uma boa leitura que poderá ser apreciada sobretudo por quem conhece o trabalho de escritório, ou por quem conhece o estilo de Jeff Vandermeer. Para quem não conhece a narrativa do autor poderá ter momentos de alienação, sendo que tais momentos são proporcionados propositadamente.

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