Eis outro livro de T. Kingfisher, este publicado há uns sete anitos. A premissa parece remeter-nos outra vez para um mundo de contornos medievais e detalhes fantásticos, mas com algo diferente. Conhecendo outras obras da autora, o que poderia ser a descrição de um romance fantástico sofrível, pode ser algo interessante – até porque esta história terá ligação à de Barba Azul.

A história

Rhea é a filha do moleiro. Gosta de andar descalça e de comer as suas sandes no meio da natureza, e ajuda a família supervisionando os mecanismos que podem, a qualquer momento, engolir um rato ou uma criatura estranha que, se não for retirada, faz sangrar o pão – algo que pode ser desagradável quando se está a tentar fazer um lanche.

Quando um nobre, amigo do lorde da região mostra o interesse em casar com Rhea, esta estranha. Além de pobre e pouco importante, Rhea não é propriamente feia, mas também não se destaca em beleza. Para além de não ver nada de atraente neste nobre, as suas atitudes parecem-lhe estranhas. Mas não se diz que não a um nobre, e a família lá a convence que não tem outro remédio senão aceitar o convite para visitar uma casa no meio da floresta. Quando lá chega, percebe que não é a primeira esposa… nem a segunda… nem tão pouco a terceira.

Crítica

Eis um livro que se distancia da ideia romântica de casar um nobre, mostrando que o interesse romântico com desequilíbrio de estatuto pode ter outros interesses por detrás. Neste caso, o tal nobre é também um mágico que pretende usar algo de cada uma das suas esposas, ligando-as a ele com a desculpa de um casamento. Trata-se, na prática, de um predador que usa o seu estatuto social para fazer o que quer sem consequências.

Esta desromantização é feita de forma inteligente, sem discursos, mostrando a fragilidade de famílias mais pobres ou carenciadas, que se vêem entre a espada e a parede, quando o nobre se interessa pela filha. Como dizer não a um nobre e sobreviver? Neste caso, o moinho nem pertence ao moleiro e é uma concessão. Adicionalmente, a história refere ainda a diferença de idades e a forma como a rapariga encara tal união (nojo, claro).

A narrativa é simples. A história centra-se em Rhea, mostrando exclusivamente o seu ponto de vista. Mas ao contrário de outras histórias, ela não vai conseguir ultrapassar as tarefas que o mágico lhe dá sozinha, havendo quem a ajude. É uma personagem decidida e até pouco obediente, mas que sabe o seu lugar e tenta navegar a situação sem excessiva confrontação.

A sociedade em que se encontra obedece a uma norma medieval, sendo que os nobres tudo possuem e os restantes existem por sua benevolência. Mas para subverter o conceito, existe alguma magia e criaturas mágicas – na sua maioria tratam-se de pequenos poderes ou pequenos detalhes que, pouco a pouco, fazem a diferença. Excepto no caso do nobre mágico que detém grandes poderes, obtidos por trapaças e más acções, existindo, também, alguns detalhes curiosos nas outras esposas.

Este balanço é interessante e o resultado é muito bom, ainda que não seja o melhor livro da autora – talvez por ser bastante anterior, possui um humor mais contido do que noutras obras, o que faz com que a história seja um pouco mais tensa ao longo de toda a sua extensão. A construção de personagens é, também, muito boa, conseguindo caracterizar bem quer Rhea, quer as outras esposas. A autora usa também o síndrome de Estocolmo para explicar algumas reacções (sem usar o nome do síndrome, claro).

Conclusão

Eis outro livro extraordinário de T. Kingfisher (ou Ursula Venom). A autora pega em premissas fantásticas conhecidas para as questionar sobre uma nova luz. Mas sem criticar ou sem impor um discurso feminista, ainda que tal se depreenda quando se referem diferenças de poder, de estatuto social ou de idade, mostrando como predadores usam a sua posição para se impor a pessoas mais frágeis.