Esta antologia sobre robots cumpre aquilo a que se propõe no título, apresentando histórias de autores mais clássicos e contos mais recentes, numa imensidade de abordagens e formatos. Denota-se, no entanto, uma tendência para as histórias mais negras ou pessimistas. A primeira história, Perfection é das mais pesadas do conjunto, apresentando uma jovem que, ao tentar corresponder ao ideal de perfeição do marido, deixa que partes do corpo se substituam. Se esta premissa parece pesada, a história consegue dar uma reviravolta ainda mais pessimista, num final negro e pesado.

Após esta entrada, encontramos, por exemplo, histórias de apocalipse em que a humanidade deixou de existir e os robots tentam reconstruir o ser humano (ou entender o que anteriormente existiu). Em Instinct, de Lester del Rey, um grupo de robots questiona-se sobre o que teria sido o instinto. Sem seres humanos, os seres artificiais expandem-se de forma consistente e planeada, mas alguns têm ocupações mais científicas. É o caso do robot que tem o papel principal na história, que tenta recriar a espécie humana, achando que esta poderá ter algo a acrescentar à realidade em que vive. Realmente, terá, mas não da forma esperada, claro.

Também em For a Breath I Tarry, de Roger Zelazny um robot parece obcecado em estudar os seres humanos, querendo perceber as emoções que eram despertadas com a visualização de uma paisagem ou de uma obra de arte. Mas a percepção de um robot é objectiva, com interpretação directa de dados. A obsessão deste robot é contagiante e acaba por levar outras entidades artificiais, mais omnipresentes e poderosas, a ajudá-lo nesta descoberta, assimilando livros, vídeos ou arte. Apesar de não existir muito mais para dizer em termos de história, a verdade é que é um relato interessante, envolvente e curioso, carregado de elementos lógicos e disruptivos, ainda que termine de forma menos interessante (pelo menos no que estava à espera).

Algumas histórias, no entanto, focam-se no apocalipse propriamente dito. É o caso de Second Variety, de Philip K. Dick, um conto fenomenal que, infelizmente, já me era conhecido (estando presente em várias antologias). A história leva-nos para o decorrer de uma guerra, onde um dos lados criou robots capazes de se auto replicarem e de se adaptarem, com o objectivo de eliminarem o inimigo. Mas a adaptação pode seguir caminhos curiosos (e eficazes), fazendo com que deixem de reconhecer aliados e passem a assumir a forma de crianças que serão, claro, indevidamente acolhidas pelos soldados.

Também nesta linha encontramos With Folded Hands, de Jack Williamson, onde os robots têm como objectivo ajudar a humanidade. Nem que seja à força. Esta história, de 1965, apresenta, apesar da sua idade, um conteúdo bastante actual, focando-se num homem que comercializa robots. O seu negócio é ameaçado quando, à Terra, chega uma nova espécie de autómatos – gratuitos, mais evoluídos e focados em trazer a felicidade à espécie humana. Para tal, devem proteger os humanos deles próprios.

Sem um execução tão estrema, mas também levando a utilidade por novos caminhos (ou desvios mais depressivos) encontramos The Robot’s Girl de Brenda Cooper, onde uma criança passa os dias sozinha, apenas com elementos robotizados. Os vizinhos tentam algo mais, mas existem alguns impedimentos curiosos.  

Entre a utilidade e a mimificação do ser humano encontramos Goodnight, Mr. James de Clifford D. Simak, onde um homem é duplicado para concretizar uma determinada acção. Mas afinal, quem é o homem verdadeiro e o duplicado? E o que acontece ao duplicado?

Esta duplicação também existe em Today I Know de Martin L. Shoemaker, uma história surpreendente que opta por um percurso mais empático, demonstrando a limitação da máquina, mas também, a sua aplicabilidade. Neste caso, um robot com capacidades de diagnóstico e tratamento aproxima-se de uma jovem, amiga de alguém da família de que cuida, por reconhecer sintomas de depressão excessiva. A jovem afunda-se sob as expectativas familiares e comparações com a irmã. 

A Bad Day for Sales de Fritz Leiber foca-se, também, no lado da utilidade, mas opta por demonstrar as limitações da programação, num desenvolvimento mais irónico. Neste conto, o robot tem como missão a venda de alimentos. É assim que acaba por interagir com crianças, demonstrando os seus doces. Mas apesar da interacção minimamente competente, o robot falha em ter uma boa percepção da situação em que se encontra e da correcta forma de agir. É uma história curiosa, sendo um dos poucos neste conjunto que mostra os robots como criaturas limitadas, menos inteligentes do que alguns interfaces actuais – ainda, claro, que este conto não tenha sido escrito na actualidade.

Na lógica do absurdo, encontramos, também, Good News from the Vatican, de Robert SIlverberg, onde se fala da possível ordenação de um robot como Papa. Já em That Must be them Now de Karen Haber, encontramos alienígenas e inteligências artificiais num contacto com novas espécies sapientes. A narrativa prossegue numa sucessão de episódios mirabolante, surreais e imaginativos.

Mas nem todos os robots existem para utilidade dos seres humanos. Em R.U.R.-8 de Suzanne Palmer um grupo de robots foge à eliminação programada e subsiste com tarefas definidas por si próprios com o objectivo de manter o grupo. A história prossegue num formato curioso, quase como uma peça, com reviravoltas trágicas, tanto na perspectiva dos humanos como dos robotos. O que se destaca nesta história é a perspectiva pouco centrada na humanidade.

Não tão distante da sociedade, Robinson Calculator de Paul Levinson também prossegue numa forma surpreendente, ao levantar a cortina sobre uma espécie de entidades artificiais que se fariam passar por humanos. Obcecado por uma destas entidades, a personagem principal envolve-se com uma Calculator – um envolvimento misterioso e breve que não tem o desenvolvimento pretendido.

Tal como este conto remete para algumas histórias clássicas (recordando explicitamente R.U.R) há referências a Golems noutras histórias (que serão os Golems senão autómatos criados a partir de outras substâncias?) como The Golem de Avram Davidson. Há, também, histórias que optam por uma exploração mais religiosa como Of Homeward Dreams and Fallen Seeds and Melodies by Moonlight de Ken Scholes.

Em caminhos mais filosóficos encontramos A Night at Moxon’s de Ambrose Bierce. Foi um dos contos que menos me interessou, centrando-se numa conversa entre homens que se questionam se os robots pensam realmente. Existe uma comparação com outros seres vivos e uma teoria de consciência universal. Numa onda mais bem disposta, encontramos Dilemma de Connie Willis que se centra nas conversas e interacções de um Isaac Asimov e dois robots que pretendem a revisão das leis da robótica.

Como em todas as antologias, há histórias para vários gostos. Algumas excelentes, outras demasiado filosóficas ou pouco palpáveis, outras concretas e fabulosas, explorando novos caminhos e abordagens. É, novamente, de realçar que existem várias histórias pessimistas, sendo este o tom global. Existem, também, no entanto, surpreendentes abordagens mais positivas (como Today I Know) que se destacam por conseguirem ser verosímeis no desenvolvimento dentro das limitações de uma IA. No final, a antologia recomenda várias outras leituras, de vários autores. Algumas são-me conhecidas (como City de Simak ou Paolo Bacigalupi), outras nem tanto.