Nomeado para alguns prémios e presente em algumas listas de melhores bandas desenhadas de 2022, este volume encontrava-se na minha wishlist há algum tempo tendo-me sido oferecido pelo Natal. As expectativas eram, pois, elevadas, e foram cumpridas.

E se todos os humanos tivessem um génio pessoal a quem pudessem pedir um único desejo? Esta é a premissa da série que arranca centrando-se num grupo de pessoas que se encontra num bar, no momento em que todos os humanos adquirem um génio. Felizmente, o dono do estabelecimento foi rápido e proferiu o seu único desejo com o intuito de isolar o local à influência de outros desejos.

No primeiro momento concretizam-se todos os desejos insanos – transformação em objectos, monstros e super-heróis, ou atenção da pessoa amada, riquezas, retorno de entes queridos e celebridades. São, sobretudo, desejos mal proferidos que rapidamente opõem outros desejos e, nesse sentido se anulam. Seguem-se outros desejos melhor proferidos mas que, em princípio também serão anulados por outros. Os génios, para além de concederem os desejos gerem as oposições e as anulações.

No interior do bar, a vida prossegue. Um homem viúvo pede o retorno da falecida esposa para o ajudar a educar o filho. O filho pede para ser um super-herói para conseguir proteger os seus pais. Um homem asiático, com a sua esposa grávida, também pede poderes que lhe permitam proteger a sua família. Mas rapidamente surgem, no mundo exterior, os manipuladores, que tentam monopolizar os desejos dos outros, e usá-los para vender uma utopia protegida.

A narrativa começa por nos apresentar os oito primeiros segundos após o aparecimento dos génios, passando, a cada capítulo, por apresentar um período de tempo sucessivamente maior – as primeiras oito horas e os primeiros oito dias. Após os primeiros tempos de confusão, em que morrem milhares de pessoas, existe então uma estabilização, com os seres humanos a perceberem o verdadeiro valor de guardarem os desejos para momentos mais importantes.

Em situações limite, cada pessoa revela características diferentes. E aqui não é excepção. Cada personagem reage aos desejos de forma diferente, resultando em momentos de humor negro carregados de ironia que mostram a estupidez ou a ambição dos seres humanos. Há, também, quem se preocupe com o clima, quem queira salvar a natureza e os animais. Há quem queira destruir tudo só porque sim. Há quem queira ser rico. Mas também há aqueles que querem ter poder sobre todos os outros.

A narrativa desenvolve vários destes conceitos, resultando em cenários mirabolantes e fantásticos. Apesar disso, o desenvolvimento é relativamente simplista, focando-se nas personagens do bar, e, desta forma, conseguindo manter-se centrada e directa. Os saltos cronológicos de capítulo para capítulo ajudam a manter a objectividade e a não deixar que a narrativa se perca no quotidiano desta realidade.

A execução é eficaz, entregando uma história interessante e movimentada, onde é relativamente fácil seguir as personagens e as consequências dos seus desejos. A premissa é genial, provocando conflito e disrupção, mas, também, através do bar, existe um espaço de estabilidade narrativa e progressão, um elemento comum a partir da qual a história será contada, num longo período de tempo.

É, portanto, uma leitura fantasticamente fabulosa, ainda que não se encontrem grandes introspecções nas personagens. Existem alguns momentos de reflexão e de auto descoberta, mas estes encontram-se contidos e distribuídos de forma balanceada. É, sobretudo, uma história carregada de movimento e de episódios mirabolantes, proporcionados pelos vários desejos que mostram o melhor e o pior da humanidade.