Sarah Beth Durst tem tido bastante sucesso dentro do género da fantasia aconchegante, tanto com a trilogia iniciada com The Spellshop, como com o mais recente The Faraway Inn (lançado em Portugal pela Singular). Tendo vontade de ler algo mais ligeiro, peguei neste The Spellshop – as expectativas concretizaram-se, fornecendo uma leitura leve, agradável, com as supostas reviravoltas e contratempos, mas que se resolvem de forma mais amigável e constructiva (até demasiado).
A história começa com a queda do Império. Ou, pelo menos, uma revolta. Kiela, bibliotecária na capital, encontra-se, claro, na biblioteca, reclusa, achando que os incêndios e a confusão decerto não chegarão ao edifício. Acompanhada por Caz, uma planta inteligente que faz de seu assistente, Kiela terá de fugir quando a biblioteca é incendiada – o único lugar que conhece, para além da cidade, será a ilha onde passou a infância, e onde os pais terão deixado uma casa.
Levando alguns livros, a dupla pretende passar despercebida (até por receio dos agentes do Império que poderão ainda estar activos – o porte de livros pode ser considerado ilícito) mas também arranjar forma de subsistir, arranjando comida e dinheiro. Já na ilha, Kiela percebe que a vila de que recordava se encontra degradada – com a sede de centralizar o poder na capital, o Império terá deixado de enviar mágicos para ajudar nas colheitas e no balanço da magia, significando que, para além de problemas na agricultura, a ilha enfrente, constantemente, duras tempestades. Mas, numa localização onde todos se conhecem, a sua permanência tem mais visibilidade do que deseja. Principalmente por um vizinho que, grato aos pais, terá cuidado da casa que deixaram, e a tenta ajudar a instalar-se.
Com o desenrolar da história vamos percebendo um sistema mágico simples, mas eficaz. Kiela resolve usar os livros que salvou (carregados de feitiços) de forma útil, ainda que a sua posse e uso sejam proibidos pelo Império. Entre os relatos dos habitantes das ilhas, e o que encontram nos livros, percebe-se que o sistema precisa de balanço. Não podendo, antes, experimentar feitiços, a dupla explora os vários textos, experimentando, sob condições controladas (e por vezes com resultados caricatos).



A narrativa explora o controlo do conhecimento como fonte de poder, mas também a importância da preservação do mesmo, mostrando como Kiela e Caz se focam nos livros e na descoberta de feitiços para os mágicos, mas também como se preocupam em manter os livros, catalogando-os e isolando-os. Existem, claro, várias críticas à forma como o poder é exercido pelo Império, mas também à forma como a magia é ensinada e desenvolvida, existindo duras penalizações para quem não seguir as regras.
De forma global, a narrativa concede bastante importância ao conceito de equilíbrio, e, consequentemente de entre ajuda e comunidade. Por um lado a magia deve ser equilibrada para não se acumular e gerar tempestades, por outra as várias espécies da ilha coabitam num balanço sensível que tem consequências para a população, numa terceira vertente, porque os habitantes da ilha dependem uns dos outros para sobreviver e prosperar. Este sentido de comunidade alastra-se também às espécies mágicas que existem na ilha, algumas delas inteligentes.
A história vai apresentar, claro, várias interacções positivas, com o fácil estabelecimento de relações com algumas personagens. Kiera está perdida e tem poucas noções de como sobreviver mas é ajudada por algumas pessoas chave da comunidade. Existem, claro, os que vão causar algum atrito, com interacções mais negativas, mas que são travadas pelas restantes pessoas. Existem, também, algumas personagens com o papel de vilão, mas que irão ter a sua oportunidade para se tornar menos odiáveis e, até redimíveis. Neste sentido, diria, até que os conflitos se resolvem de forma demasiado positiva.
Em pano de fundo, a história apresenta algumas personagens para explorar traumas, expectativas familiares furadas e relacionamentos peculiares. Algumas personagens têm dificuldades em interagir e conversar, resultando em interacções embaraçosas, por vezes estranhas ou simplesmente peculiares, o que facilita a criação de empatia para com as personagens.
Não sendo uma história inovadora na criação de um mundo distinto, ou de um sistema de magia fascinante, The Spellshop é um livro que correspondeu às expectativas para um livro de fantasia aconchegante, destacando-se pela uso quotidiano e prático dos feitiços, pela apresentação de personagens desengonçadas com que se simpatiza, e pela centralização na preservação dos livros e do conhecimento que transportam.
