Achava que já tinha falado deste pequeno livro como lançamento esperado, mas pelos vistos ficou apenas pela intenção. A premissa é peculiar, referindo a linguagem como forma de entendimento e de espionagem e o diminuto tamanho (menos de 200 páginas) fez com que fosse rapidamente encomendado e lido. Apesar de ser a minha primeira leitura da autora, já tinha olhado para o The Water Outlaws, até porque foi nomeado para os prémios Locus, Nebula e Ignyte (entre outros).

Na realidade aqui representada as viagens interestelares de várias civilizações alienígenas dependem da obtenção de um produto que só é minerável pelos Star Eaters. Povo peculiar, com uma linguagem extremamente difícil e hábitos peculiares, estão em extinção, sobretudo porque a reprodução está em intenso declínio. Por esse motivo, outras civilizações dedicam-se a estudá-los, não só para os entender, mas sobretudo para perceber como obter o produto que permite a existência e expansão das suas civilizações.

A acção centra-se num jovem rapaz, um linguista que não é considerado especialmente dotado. Tal como tantos outros, estuda profundamente a civilização dos Star Eaters e aspira a ser um dos que conseguem sincronizar a sua mente com um corpo dos Star Eaters, de forma a entendê-los melhor. Contra as perspectivas dos seus mestres este jovem consegue o domínio absoluto do idioma. Mas no novo corpo percebe que aquilo que foi aprendendo sobre a civilização não corresponde à realidade que encontra. As incoerências levam-no a questionar a missão de espionagem, sendo instruído a calar-se e a submeter-se a um papel dúbio, que ultrapassa a espionagem supostamente consentida (como é ensinada nas escolas) e pode assumir-se como roubo.

A narrativa explora desde cedo o confronto da ética com o dever. Por um lado, a personagem principal possui um código moral onde a dissimulação é complicada, não percebendo porque o conhecimento não deve ser aprofundado e explorado, até usado para melhor o entendimento da espécie alienígena em causa. Por outro, o jovem recebe instruções claras para desconsiderar as incoerências, restringir-se ao seu papel e agir de forma ilícita – instruções que, se não forem seguidas, podem ser percebidas como traição.

Outro aspecto interessante na narrativa é a linguagem como forma de entendimento máximo de outra espécie inteligente, uma forma de ligação mental que se expressa com uma ligação corporal e a migração de corpo. Neste seguimento, explora-se também o processo de tradução e compreensão, mostrando como pode ser um processo imperfeito, interpretado de acordo com as experiências do próprio tradutor ou do investigador linguístico. Na vertente oposta, explora-se a identidade associada ao corpo, com a personagem a perceber a realidade de forma diferente, e a evoluir a sua individualidade de acordo.

Do ponto de vista cultural, existe uma narrativa que justifica a exploração dos Star Eaters – um pouco como a escravatura entre seres humanos era justificada. Neste caso, publicita-se que a mineração é o objectivo máximo de cada indivíduo, a forma de se sentirem concretizados. Esta mesma narrativa indica que, agindo em colectividade e com suposta pouca individualidade, os Star Eaters teriam aceite serem ocupados por outras mentes, como forma de partilhar o conhecimento de mineração que possuem. Esta versão choca com alguns dos factos que o jovem testemunha, e pode colocar em causa toda uma perspectiva histórica que convém à expansão da sua espécie.

The Language of Liars destaca-se sobretudo por dois aspectos – por um lado pelas espécies alienígenas criadas, bastante peculiares, por outro pela forma como explora a linguagem para criar uma afinidade de tal ordem que permite o teletransporte para outro corpo. A linguagem, e, claro, a tradução, é explorada como a construção de novas analogias, novas relações de ideias, e, claro, a introdução de novas perspectivas.

O mundo é interessante e poderia ser usado para explorar outras histórias, no entanto, este volume propõe-se a explorar um conceito e consegue fazê-lo dentro de um espaço adequado e de forma objectiva, sem se perder, mas conseguindo surpreender com um final agridoce que o torna uma excelente leitura de ficção científca.