
Tendo adorado o Service Model e gostado bastante do Made Things, os livros de Adrian Tchaikovsky passaram a constar do meu radar. Mas não quero entrar já numa nova série (já estou a intercalar pelo menos The Chronicles of Osreth e The Steerswoman) pelo que tenho optado por adquirir os livros que são isolados, como este, que é a sua obra mais recente.
Green City Wars leva-nos a uma cidade futurista e ecológica, onde os seres humanos delegaram as tarefas mais mundanas a animais que alteraram geneticamente para serem conscientes (mediante a aplicação regular de um medicamento). Estes animais construíram uma espécie de sociedade de sub-mundo, onde todos se tentam manter conscientes. Para obter o tal medicamento têm de trabalhar ou traficar. Alguns trabalham em uniões de trabalhadores, em ocupações organizadas, outros fazem pequenos biscates. Parece, no entanto, existir uma regra fundamental – não despertar o interesse dos humanos para o seu modo de vida.
A história centra-se num guaxinim que se tornou independente, Skotch, e que vai fazendo pequenos trabalhos ou investigações. É no seguimento da sua anterior ocupação que lhe pedem para encontrar um rato específico – um rato inteligente que poderá revolucionar toda a existência destes animais sencientes. Skotch inicia então a investigação, mas esta revela-se bastante mais perigosa do que esperava, existindo mortes, perseguições e encontros perigosos com grupos armados.
Ao fornecer um mistério que deve ser resolvido, a narrativa passa a ter um motivo para ir apresentando as várias facetas da sociedade animal que se formou. Skotch vai ter de explorar as organizações menos legais que subsistem, algumas uma espécie de máfias, outras são grupos armados revolucionários, outros são meramente empreitadas económicas de interesses velados. Percebemos que existem os animais que foram criados para trabalhar e os que permanecem como animais de estimação, tendo lugares muito diferentes na hierarquia em relação aos humanos.



Adicionalmente, o produto que os mantém conscientes (e o controlo do seu fornecimento) torna-se numa forma de garantir que são produtivos num sentido que interessa aos seres humanos, ainda que estes pareçam ignorantes perante a sociedade paralela que se formou. Para além deste elemento de controlo, existe outro de desproporção social – alguns animais possuem uma curta esperança de vida, pelo que as suas mortes são menos valiosas e mais facilmente perdidas. Estes dois elementos irão alimentar o sentimento de injustiça e de revolta.
Ainda que vários animais tenham atingido a consciência através da manipulação genética (e, novamente, mantida pela tal substância), esta consciência não trouxe o mesmo tipo de resultado com todos os tipos de animais. Existem elementos genéticos fulcrais na genética das suas espécies que determinam que nem todos conseguem ser transformados em trabalhadores produtivos e construtivos, sendo que alguns são demasiado caóticos e se torna impossível requerer real trabalho deles.
Skotch irá procurar o rato desaparecido mas, sem o saber, vê-se no meio de uma conspiração que poderá transformar a sociedade animal. Trata-se de uma perspectiva perigosa que resulta numa sucessão de episódios de perseguição ou de contenção, onde não faltam os elementos cómicos (seja pela peculiar interacção, seja porque alguns animais são caricatos), o que resulta numa leitura fluída e envolvente, que mal nos deixa respirar até chegar ao final. Não sendo o melhor livro de Adrian Tchaikovsky (continuo a preferir o Service Model) é um livro aconselhável, com uma perspectiva interessante, e um ritmo alucinante.