Depois de leituras mais densas como The Golem and the Djinni (um livro excelente, mas não simples), procuro, por vezes outras mais leves. Assim peguei neste livro (sem saber que seria o primeiro de uma série) por conta das referências a semelhanças com Terry Pratchett. Posso adiantar que o livro pode ser lido isoladamente, sendo uma história auto-contida e que, ainda que o humor seja parecido, existem menos referências de duplo sentido ao nosso mundo. Mas a densidade de notas, sub-notas e comentários (com a sua piada) fazem com que a leitura seja menos fluída do que esperava.
A narrativa começa por nos apresentar um casal disfuncional, Mr. Nagg e Mrs. Nagg. Ele, desastrado, pouco inteligente, sempre metido em sarilhos nos quais pode desaparecer por alguns dias. Ela, mais despachada, um pouco rabugenta, mas sempre capaz de o safar dos sarilhos, de o encontrar, e de o fazer retornar a casa. É, nitidamente, um casamento mais de hábito do que de amor ou carinho, uma inevitabilidade que ambos carregam.
Como habitual, o Mr. Nagg não pensa correctamente, e resolve trazer para casa um dos volumes da enciclopédia de Magia detida pelo mago local. Seria uma prenda. Mas claro que a esposa não valoriza esta oferta, pensando, correctamente, que o Mago poderá vir à procura do livro e castigá-los. Decide-se assim a devolvê-lo. Mas antes irá experimentar um dos feitiços, seguindo os passos para uma magia que porá seres a falar. Depois de várias tentativas num burro que se mantém mudo, despeja o resto do produto no manjericão, planta que trouxe para o casamento e com a qual fala regularmente. Mas afinal o Mago já faleceu, encontrando a criatura que o ajudava e que se oferece para acompanhar Isabella, o burro que encantou estava a fazer-se de mudo, e tal como o burro, também o manjericão ganhou voz. A partir daqui Isabella vai desenvolver feitiços variados.
Em simultâneo, parece que o feitiço para conter os goblins (colocado pelo Mago) esmorece rapidamente, fazendo com que estas criaturas comecem a invadir a vila, com o objectivo de oferecerem a sua fruta. De consequências letais, a fruta tem um aspecto fabuloso que atraem os mais incautos.
A história começa por apresentar uma narrativa simples e directa, intercalada pelos comentários, notas de rodapé e os ocasionais artigos mágicos, ganhando complexidade com a sua evolução. O relacionamento do casal começa por ser apresentado como algo banal, uma relação cómica que parece transparecer o que se vê em tantos casais, mas que esconde raízes de egoísmo profundas e segredos negros que irão transformar a conclusão em algo mais catártico.
Isabella Nagg apresenta, como personagem, uma das evoluções mais interessantes de sempre. Começa como uma personagem acomodada à rotina, num limbo de indiferença perante os sucessivos problemas que o marido lhe traz, gerindo o quotidiano e responsabilizando-se pelas consequências das acções do outro, falando rotineiramente com um pote de manjericão. O livro de magia traz-lhe novas oportunidades, começando pela capacidade de se expressar e experimentar, mostrando-se mais competente do que o esperado.
Esta história centra-se assim numa personagem improvável, uma mulher de alguma idade que está presa a um romance passado e a um casamento tóxico. Não é o único elemento improvável. Apesar dos disparates, o marido constitui o elemento que leva a esposa a confrontar-se com a magia, iniciando-se uma aventura onde criaturas como um burro e um pote de manjericão têm um protagonismo mais relevante do que seria expectável.
Tal como as personagens, também o estilo da história vai evoluir. A narrativa começa por apresentar inúmeros detalhes cómicos, por vezes, excessivos, numa forma que recorda, efectivamente Terry Pratchett. No entanto, julgo que não funcionam tão bem, porque são menos críticos da nossa sociedade e mais focados em trocadilhos daquele mundo fantástico. Com a progressão da história, estas notas vão-se tornando mais consistentes, e usando as características das personagens e do mundo, cruzando observações e apresentando detalhes que ajudam a construir um mundo fantástico.
Este mundo é relativamente simples, usando referências e lugares comuns a outros mundos de fantasia, mas intercalando com detalhes novos (como as frutas dos goblins) o que lhe confere uma aura de fantasia aconchegante e reconhecível, ao mesmo tempo que permite desenvolver o sentido de exploração de novidades.
Para além do casal e as tropelias mágicas que se sucedem, em pano de fundo encontramos uma personagem que é focada no empreendorismo, saltitando entre iniciativas que exploram os que a rodeiam, e deixando para trás um rasto de devedores, falências e baixas físicas. É uma personagem muito focada nos seus próprios interesses, achando-se sempre injustiçada, e que assumirá o papel do pseudo-vilão.
Isabella Nagg and the Pot of Basil revela-se uma leitura agradável e, até surpreendente, que começa menos fluída do que o esperado, mas que depois se torna confortável com um determinado tom. Sente-se a oscilação entre uma forma mais pausada no início, e o rápido desenvolvimento final, sobrecarregado de revelações e reviravoltas (mas que, também se lê muito mais rapidamente, o que poderá ajudar nesta percepção). A história começa com uma comicidade inocente e banal, onde os contornos sombrios que se revelam são efectivamente insuspeitos. Como resultado, deverei pegar nos próximos livros (ainda que este volume possa ser lido isoladamente) até porque me surpreendeu bastante a forma como a personagem principal evolui e se afirma.
uma acelração final que muda um pouco o tom, o ritmo , oscilando entre o aconchego da personagem disparatada e momentos de acção que se revelam mais negros
