The Handmaid’s Tale – Margaret Atwood

HDT

Aqui está um livro cuja leitura ando a adiar há muitos anos. Talvez por conta das curtas descrições que fui lendo, talvez por conta da elevada expectativa. Este livro aparece sempre referenciado como uma leitura obrigatória, intemporal e imprescindível, tanto em listas de leituras distópicas como em listas mais generalistas. Finalmente, li. Apesar de não conseguir colocá-lo no top de favoritos, apresenta uma história brutal, exacerbada pela forma simples e até domesticada como é contada.

Esqueçam os nomes. Pelo menos para as parideiras. Estas mulheres limpas de personalidade, objectivos ou conhecimento têm como único objectivo engravidarem dos maridos das outras – são meros ventres reprodutivos, substituíveis, que nunca poderão exercer o papel de mãe. Até porque o seu valor se resume aos óvulos que transportam, e à sua capacidade reprodutiva. Capacidade que as mantém longe dos campos de trabalho forçados. Por enquanto.

Mas nem sempre foi assim. A história é contada sob a forma de diário pela personagem principal, uma mulher que relembra uma realidade anterior, onde vivia pacificamente com o marido e a filha. Antes da queda brutal da fertilidade e da tomada de poder de um grupo extremista que impôs limitações existenciais a todos os seres humanos. Não são só as mulheres que estão limitadas, ainda que sejam a origem de todo o pecado e, em última análise, as eternas culpadas.

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Ilustração de Anna and Elena Balbusso, publicada na edição The Folio Society http://www.foliosociety.com/book/HDT

Esqueçam as pessoas multi-facetadas que cumprem vários papéis, enquanto esposas e mães, enquanto trabalhadoras e mais tarde enquanto tias reformadas e avós. Cada mulher tem um único papel bem definido e limitado. Existem as esposas, responsáveis pela gestão do lar e das possíveis crianças, as empregadas que se dedicam às tarefas domésticas, as parideiras e as tias educadoras – forma benévola de tratar as que comandam os campos de re-educação e com poder suficiente para castigar as restantes.

Em qualquer uma destas facetas as mulheres são mantidas na ignorância e estupidez – a leitura ou a escrita é-lhes proibida, as saídas e confraternizações são controladas por detalhes rituais, e toda a sua existência é limitada ao papel que cumprem – papéis incapacitantes e, em última análise ridículos, que parecem ter saído de uma mente retrógada e medieva. Não é só a percepção intelectual que é limitada, também a sua indivualidade. As roupas são estandardizadas ao mínimo detalhe e desenhadas para que os rostos não se vejam numa tentativa de apagar qualquer resto de qualquer percepção particular.

 

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Ilustração de Anna and Elena Balbusso, publicada na edição The Folio Society http://www.foliosociety.com/book/HDT

Mas nesta sociedade extremamente ritualista, não são só as mulheres que se encontram limitadas. Apenas os homens que se encontrem em elevados cargos podem ter contacto com mulheres (ainda que bastante controlado) pois há que ter bastante dinheiro para se conseguir sustentar tanta mulher inútil. Desta forma também os homens se vêem limitados nos seus papéis, enquanto soldados e empregados, sem que possam contactar com mulheres.

Em todo a história existem dois conceitos que se propagam inconscientemente: Esqueçam e Limitem-se. Esqueçam a realidade que conheciam até então, esqueçam a liberdade e subjuguem-se às novas regras e rituais detalhados. Limitem-se aos vossos papéis e tarefas, limitem-se enquanto seres humanos pensantes e capazes, abstenham-se de dialogar porque até as palavras que irão proferir terão de ser as correctamente previstas para todas as situações.

Mas, como em qualquer sociedade, o ser humano arranja sempre forma de dar corpo às suas vontades. E aqui reside a esperança.

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