Assim foi: Recordar os Esquecidos – 25 de Junho

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A sessão de Junho foi marcada por um ambiente leve e divertido tendo-se falado de livros menos  respeitados literariamente (poucos clássicos) mas que parecem enquadrar-se melhor no género que gosto.

pedro paramo

A conversa arrancou com a referência a Pedro Páramo de Juan Rulfo, um autor clássico sul americnao que deixa a estrutura mais conhecida e rígida do romance para se deixar levar pelo realismo mágico, tendo sido um dos autores que mais terá influenciado a escrita de outros autores sul americanos. Já regras que regem a realidade comum, mas que nalguns sítios se suspendem. É o que acontece em Pedro Páramo onde os mortos também falam:

– Não se preocupe com isso. Você deve vir cansado e o sono é muito bom com colchão para o cansaço. Amnahã já lhe arranjo a sua cama. Como sabe, não é fácil organizar as coisas de um momento para o outro. Para isso temos de estar prevenidos e a sua mãe só me avisou agora.

– A minha mãe – disse, – a minha mãe já morreu.

– Então era por isso que a sua vez estava tão fraca, como se tivesse tido de percorrer uma distância enorme para chegar até aqui. Agora percebo.

uma conspiração de estupidos

Seguiu-se Uma Conspiração de Estúpidos de John Kennedy Toole, recordação de Filipe Homem Fonseca, um livro que será muito decalcado do autor, sem ser autobiográfico. O autor terá tentado publicar este livro em diversas editoras. Não conseguindo matou-se, restando à mãe continuar a bater à porta de outras editoras. Quando finalmente foi publicado venceu o prémio Pulitzer. O livro apresenta uma sucessão de episódios rocambolescos pois a personagem é um motor aparente da desgraça – ao se encontrar numa sociedade que apresenta falhas, basta não agir dentro das expectativas, que as falhas se revelam e fazem desabar o mundo em seu redor. Será, assim, um livro simultaneamente divertido e deprimente.

gnaisse

A segunda escolha de Valério Romão foi Gnaisse de Luís Carmelo que possuirá várias visões sobre os mesmos acontecimentos que se complementam não de forma horizontal, mas como se fossem camadas, versões sobre o mesmo acontecimento que se vão alterando, à semelhança do que acontece quando se conta várias vezes uma história. Para além do prazer de reconstrução do puzzle, teremos neste livro, um belo final.

popcorn

Neste momento Filipe Homem Fonseca pega, não em um livro, mas em quatro: Babylon e o Elmo do Horror de Victor Pelevin, Popcorn de Bel Elton e Tesseract de Alex Garland. A referência conjunta deriva de todos lidarem com outros níveis de realidade.

No caso de Popcorn trata-se de uma paródia sobre a cultura televisiva e cinematográfica, tanto pela forma como as pessoas se tornam famosas só por aparecer, como pela ultraviolência que caracteriza a programação, sendo que através da violência se podem tornar famosos e criticar outros famosos. O autor tenta, através de Popcorn, vender um modelo de sociedade do qual é muito crítico.

tesseract

The Tesseract será importante sobretudo por causa da estrutura, que nos obriga a fazer uma reconstrução, a partir de várias histórias que se relacionam e que podem, ou não, seguir uma ordem cronológica. O ambiente será pesado e pega em temas como o turismo sexual.

memoria de elfante

Não sendo António Lobo Antunes um autor esquecido, Memória de Elefante será uma das suas obras menos lidas. Romance de estreia onde se nota já um estilo muito particular (ainda que se note que ainda não possui determinadas competências), possui acontecimentos que podem não ser autobiográficos mas onde se denota a personalidade do autor à superfície.

de moscovo a

Que dizer de uma história em que a personagem principal diz nunca ter visto o Kremlin apesar de viver em Moscovo? No mínimo mirabolante. Condensando algumas das características da literatura russa, é um livro profundamente doente em que o protagonista se revela constantemente bêbado. Não de forma festiva, mas como estilo de vida, de forma quase natural. Ao longo do livro descobrem-se gráficos sobre a bebida (quanto gastavam, que quantidade se consumia…), bem como estranhas receitas que envolvem ingredientes tão estranhos quanto verniz para as unhas.

(este entrou directamente para a lista de livros a adquirir num futuro próximo).

o físico prodigioso

Livre de quaisquer espartilhos de condições temporais ou de localização, o autor consegue brincar com a história usando duas vozes em paralelo, ou discorrendo sobre aquilo que lhe apetece aproveitando o conhecimento que tem sobre a literatura medieval para, sob uma loucura desbravada, fascinar o leitor.

com a arma

Alternando entre textos curtos e outros mais longos, Com a arma de Bogart (referência de Filipe Homem Fonseca) apresenta textos peculiares onde, por exemplo, os S são substituídos por cifrões, mas apenas nas falas de determinadas personagens.

o rapaz

O Rapaz que falava com o diabo (também referência de Filipe Homem Fonseca) apresenta duas linhas temporais, opondo a relação que um homem tem com o filho, com a que o mesmo homem teve com o pai enquanto criança. A primeira linha temporal (a do presente) apresenta consultas no psicólogo onde um homem expõe a repulsa que sente pelo filho – repulsa essa que será, em conjugação com o relacionamento com o pai, uma prova de amor.

o adversario

A última recordação (de Filipe Homem Fonsca) foi O Adversário – um livro tenebroso porque os factos que relata são verdadeiros. A história centra-se num homem que, durante 18 anos fingiu ser médico na OMS em Genebra. Todos os dias saía de casa para deambular por bosques e estações de serviço, enganando toda a família – pais, esposa, filhos e amante. Quando percebe que a farsa irá ser descoberta a qualquer momento mata toda a família.

4 pensamentos sobre “Assim foi: Recordar os Esquecidos – 25 de Junho

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