Utopias – Michael Lowy

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De nacionalidade brasileira e origem judaica, Michael Lowy é um sociologista e filósofo que se tem dedicado ao estudo das obras de vários livros sobre sociologia como os de Karl Marx ou Che Guevara.

Estas obras pretendiam o estabelecimento de uma nova ordem social e é neste contexto que Michael Lowy apresenta curtos textos sobre estas obras, enquadrando-as no contexto social e económico em que foram escritas, apontando diferenças e divergências entre autores ou simples comparações.

O tecido vivo e necrosado de toda a sociedade torna-se «amorfo, desarticulado e pobre em estrutura», ao mesmo tempo que os indivíduos são entregues àquilo que Buber denomina, numa imagem surpreendente, a «solidão massificada». Noutros termos: «a era do capitalismo avançado rompeu a estrutura da sociedade», porque «o capital não se interessa pelo encontro entre os indivíduos e o Estado moderno facilita-lhe a tarefa, despossuindo progressivamente vida dos grupos da sua autonomia».

Sobre Martin Buber

Acrescentando uma perspectiva histórica, amadurecida, tanto pelos anos que já decorreram entretanto, como pelas várias alterações políticas que foram decorrendo por todo o mundo, este pequeno livro reúne 8 dissertações diferentes, separadas em três títulos: O judaísmo libertário de cultura alemã, O romantismo das ciências sociais da Grão-Bretanha e o Marxismo Latino-Americano.

Sob o primeiro encontramos desde logo uma separação das ideias expressas da religião judaica e uma justificação para o título de uma compilação de dissertações sobre a sociedade e a sua relação com a política de trabalho e a política:

Foi o sociólogo Karl Mannheim quem fez a formação clássica – e ainda hoje a mais pertinente – da distinção entre ideologia e utopia como duas formas fundamentais do imaginário social. Podem-se considerar como ideológicos os sistemas de representação que se orientam para a estabilidade e a reprodução da ordem estabelecida, em oposição às representações, aspirações ou imagens de desejo.

Começando assim, o autor passa a justificar que, ainda que os autores sejam judeus, afastam-se das ideias medievais e do passado, como forma de aproximação das luzes, da ciência e do progresso, em que o interesse pelo «messianismo utópico (…) está na era messiânica do futuro e não na figura do Messias.». As tradições servem como fonte de inspiração mas não como perspectiva a aplicar de forma directa, no futuro.

(…) sugere que o ângulo de visão romãntico só desaparecerá juntamente com o seu antagonista, a sociedade capitalista.

Sobre um texto de Marx

Contendo uma visão romantizada do período anterior à Industrialização, vários livros sugerem um retornar um afastar das máquinas, desumanizantes, e um retomar a uma ordem social mais próxima da anterior, engrandecendo o trabalho manual em detrimento da automatização.

Na terceira componente, O Marxismo Latino-Americano, exploram-se ideias de formar uma ordem social semelhante à que existia nalgumas culturas ameríndias, como forma de contornar o capitalismo e implementar um comunismo mais ordeiro e equilibrado. Mas não só.

Em Che Guevara ultrapassa-se a visão obtusa do comunismo russo e coloca-se a hipótese de evoluir e transformar o conceito para uma melhor aplicabilidade, ainda que nem todos os aspectos desta tenham sido analisados e solucionados.

Por último, em Marxismo e Religião: ópio do povo, apresenta-se  uma dissertação interessante sobre a cegueira implementada com a religião, uma forma de manter as populações adormecidas e pacíficas:

Heine já a usava – de uma maneira positiva (embora irónica): «Bem-vinda seja uma religião que derrama no amargo cálice da sofredora espécie humana algumas doces, soníferas, gostas de ópio espiritual, algumas gostas de amor, esperança e crença».  Moses Hess, no seu ensaio publicado na Suiça em 1843, toma uma postura mais crítica (mas ainda ambígua): «A religião pode tornar suportável a infeliz consciência de servidão, de igual forma o ópio é de boa ajuda em angustiosas doenças».

Sobre a utilização do conceito A religião é o ópio do povo no marxismo.

Denso em referências, citações e teorias sociais, o que expresso aqui é apenas um apanhado muito genérico de algumas das ideias que aqui vemos exploradas e analisadas, algumas notoriamente de forma mais entusiasmada (como na última componente). Será sem dúvida um livro para retornar após a leitura de algumas das obras citadas que abre portas a algumas ideias interessantes sobre a sociedade e as múltiplas possibilidades de organização.

Utopias foi publicado pela Ler Devagar & Unipop.

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