City of Miracles – Robert Jackson Bennett

 

Bem vindos a uma das mais fabulosas trilogias de fantasia! A Cidade das Escadas transforma-se, neste livro, na Cidade dos Milagres! Entre divindades desaparecidas e restos de milagres, subsistem os filhos dos Deuses, esquecidos de quem são. Órfãos e abandonados que procuram, nas famílias humanas, uma nova história.

De volumes independentes, esta trilogia apresenta-nos um mundo em que duas civilizações distintas estiveram em guerra – uma baseada na magia e outra na tecnologia. Venceu a da tecnologia, mas com um preço elevado para o mundo em que se encontram.

A premissa é razoavelmente simples (sobretudo no primeiro volume) mas eficaz. Mas o que torna esta trilogia excepcional são as personagens e o enredo. Nenhuma personagem é totalmente boa ou má (sendo que as piores acções são justificadas) ainda que estejamos, claramente, a torcer pelo lado mais humano. Já o enredo fornece as necessárias reviravoltas que permitem um bom ritmo de episódios de acção.

As personagens

Neste volume a personagem principal é Sigrud. Ex-espião, com um treino militar extens, Sigrud é a personagem principal e é através dele que seguimos a maioria dos episódios. Apesar da passagem dos anos, mantém um aspecto relativamente jovem enquanto aguarda por melhores dias enquanto lenhador (tem a cabeça a prémio e a profissão permite-lhemanter-se escondido). Ao saber da morte de Shara – uma ex-colega de missões com a qual tinha um relacionamento especial – sai rapidamente do disfarce, determinado a eliminar todos os que estejam envolvidos.

Shara, para além de também ter recebido treino para espiões, já era, nos volumes anteriores, uma figura politicamente relevante. Aquando da morte era ministra. Tendo tido um papel importante na morte dos deuses, a par com Sigrud, teria agora um programa de proteção de crianças que é muito mais do que parece.

O Enredo

Os Deuses morreram. Mas não os seus filhos. Transformados em crianças, de memória apagada, são órfãos entre os humanos e procuram novas famílias com as quais possam crescer e criar memórias. Mas alguns, acabam por acordar desta ilusão e recordam-se de quem eram e dos poderes que têm. Tal como os deuses, cada criança tem um domínio próprio – mas bastante mais pequeno.

Entre estas crianças existe uma, Nokov, que teve uma vivência especialmente sofrível. Torturado, consegue fugir. A dor e o medo transformam-no numa espécie de adolescente revoltado que usa os seus poderes em crescimento para caçar as outras crianças divinas a fim de lhes captar os poderes. O seu reino é a noite e o seu plano é simples – fazer retornar o mundo à noite eterna para que não haja mais dor.

Nokov é a pessoa por detrás da morte de Shara e a criança divina que Sigrud irá tentar enfrentar. Nokov percebe que Sigrud é mais do que um comum moral, mas não tem o conhecimento necessário para o enfrentar em campo aberto.

A Cidade das Escadas

A cidade de Bulikov é o palco das principais batalhas. Depois de longas viagens no tempo e no espaço em que se cruzam montanhas de neve e se explodem algumas casas (apesar do treino de espião, Sigrud não é muito subtil) a grande luta decorre nesta cidade.

Bulikov já nos tinha sido apresentada no primeiro volume. Capital do Império controlado pelo divino e construída sobretudo por Deuses, mantém as longas escadarias depois dos edifícios terem desaparecido com a morte das divindades. Destacam-se, também, as muralhas que a rodeiam. É uma cidade marcada pelas memórias da Guerra que com ela levou civis e levou ao colapso deste Império. Triunfou a civilização que assentava na Tecnologia.

Neste volume, regressamos a esta cidade – agora recuperada e em expansão, uma cidade que não cabe nas suas muralhas e que ameaça expandir-se para além destas. Ainda assim, dado ter sido a capital dos deuses, mantém restos de milagres – passagens secretas e mistérios que poucos mortais ousam transgredir.

Resultado?

Estas quase 500 páginas de emoção e reviravoltas marcam o final de uma trilogia fabulosa – uma trilogia que permite leitura independente de cada um dos seus volumes. Pegando numa premissa interessante, um mundo que confronta duas civilizações (uma baseada na magia e outra na ciência) e em que a história é escrita pelos vencedores (claro), o autor desenvolve, de forma coerente, os fenómenos que ocorrem com o desaparecimento dos deuses, justificando, neste volume, alguns elementos que encontrámos nos volumes anteriores.

Trata-se de uma história com um final expectável, mas, por isso mesmo, satisfatório do ponto de vista narrativo, coeso com o que acompanhámos ao longo da trilogia. Existem heróis (falíveis) que nos fascinam e envolvem. Heróis que enlouquecem e se precipitam, revelando-se, sobretudo humanos. Heróis que se apaixonam e que, apesar de enfrentarem guerras e múltiplos inimigos, não assumem as suas paixões e receios.

Sim. Existem algumas falhas. Ou melhor, detalhes que poderiam ser limados de outra forma. Senti que, a meio, alguns episódios causam reviravoltas em excesso – algo que já tinha sentido com outros livros do autor. Mas este detalhe é facilmente ultrapassável quando chegamos, finalmente, ao auge da tensão narrativa – e ao contrário de alguns autores, este auge não se apressa, estendendo-se devidamente como necessário para fechar, de forma coesa todos os pontos.

Sim – este livro será facilmente uma das minhas sugestões de leitura deste ano.

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