Bruxas – Stacy Schiff

O que dizer de um período da história em que a comunidade parece ter sido acossada por uma praga de bruxas? Em Bruxas Stacy Schiff apresenta um extenso trabalho de investigação, reunindo diários e os poucos documentos que não foram eliminados, e colmatando as falhas que aparecem.

O pastor principal da vila descobriu que era parente de nada menos do que vinte bruxas. Fantasmas fugiram do túmulo para entrar e sair do tribunal, enervando mais gente do que as próprias bruxas.

Em 1692 uma rapariga começou a contorcer-se e a gritar. A ela juntaram-se outras, com os mesmos sintomas, que se diziam embruxadas, apontando dedos acusatórios. Se as vozes de mulheres são de menor importância nesta época, as de jovens raparigas ainda mais. Mas com estes sintomas e acusações ganham atenção, sobretudo masculina, enquanto arranjam motivo para se dedicarem ao ócio.

As mulheres são as vilãs nos contos de fadas – o que é que estamos a dizer quando colocamos entre as pernas o próprio símbolo dos afazeres domésticos comezinhos e levantamos voo, desafiando os limites da comunidade e a lei da gravidade? -, mas esses contos são igualmente o território da juventude. Salem encontra-se, a todos os níveis, ligada à adolescência, essa idade imoderada em que, vulneráveis e invencíveis, saltitamos alegremente ao longo da fronteira entre o racional e o irracional, em que aumenta o interesse tanto pelo espiritual como pelo sobrenatural.

Claro que a autora não parte directamente para estas conclusões. As próprias embruxadas, anos mais tarde, hão-de confessar o tédio ou a revolta para com os patrões, que as levou a estes sintomas. Até porque a mente das populações era, naquela altura, fortemente influenciável. Era mais fácil atribuir a uma bruxa um azar do que ao acaso – ganhava-se propósito e uma causa concreta para as desgraças.

A bruxaria resolvia as pontas soltas, explicava o arbitrário, o fantasmagórico e o inamistoso. Como Samuel Parris estava a descobrir, deflectia o julgamento divino e dissolvia a responsabilidade pessoal. O diabo não só oferecia um feriado à razão, como se exprimia com clareza: não obstante toda a sua perversidade, os motivos faziam sentido. Ninguém perguntava o que se tinha feito para merecer o seu desfavor, preferível à censura, ou à indiferença celeste. E quando se procuravam maquinações diabólicas, estas tornavam-se rapidamente visíveis. Entre responsabilizações flagrantes, a bruxaria resolvia impasses lógicos. Ratificava ressentimentos, neutralizava desfeitas, aliviava ansiedades. Oferecia uma explicação hermética quando, literalmente, o diabo começava a andar à solta.

 

Um grupo de mulheres jovens e desprovidas de direitos desencadeou a crise, revelando forças que ninguém conseguia conter e que ainda hoje nos perturbam. O que poderá, ou não, ter algo a ver com o motivo pelo qual transformámos uma história de mulheres em perigo numa outra sobre mulheres perigosas.

O mesmo se podia dizer para sonhos e imaginações nocturnas. Era comum a ideia de que uma mulher se materializava no leito do vizinho, atormentando-o, ou, sob a forma de um animal invadia espaços alheios para fazer diabruras e rapidamente se escapar. As primeiras acusadas de bruxaria eram mulheres que estavam à margem da sociedade, seja pela sua condição de extrema pobreza, seja por se encontrarem caídas em desgraça, viúvas a quem fora negada a herança.

É interessante que as mulheres espectrais frequentemente importunassem os homens nas suas camas em 1692, quando no mundo visível o oposto acontecia com alguma frequência.

Se, inicialmente, se começou por acusar mulheres que estavam à margem da sociedade, rapidamente as culpas passaram a contemplar mulheres que teriam, no seu passado, algum detalhe suspeito, uma falha do ponto de vista moral como uma gravidez fora do casamento, uma atitude pouco conformada e pacífica, ou alguma inteligência e sagacidade. Mas nem aqui ficou definido o limite, chegando-se a acusar, de bruxaria, mulheres que não tinham qualquer falha perante a família ou comunidade.

Numa sociedade pequena onde todos espiavam todos e assim acreditavam que se poderiam manter mais coesos e puros, qualquer comportamento inocente poderia ser facilmente transformado em atitude desviante, um indício de bruxaria. Um mero gesto, um mero olhar aos quais se confere um propósito poderia servir como prova para uma acusação. Mesmo quando estes tivessem origem na imaginação do seu observador.

Acusação após acusação, interrogatório após interrogatório, os acusados eram forçados a nomear cúmplices. As mulheres, principalmente, pouco crentes na validade dos seus pensamentos e, até, das suas memórias, acabavam por confessar voos em vassouras, ritos nocturnos em pastos, missas satânicas e assinaturas em livros que indicariam a venda da sua alma ao serviço do diabo. Não deixa de ser irónico confrontar a forma como se validavam as queixas das embruxadas em relação ao forçar de confissões por parte de mulheres que não teriam mácula moral, ou de confissões por parte de homens estabelecidos na comunidade.

E, pela primeira vez na Nova Inglaterra, as vozes femininas reveleram-se tão autoritárias que o depoimento espectral de duas esposas falecidas havia de prevalecer em tribunal contra um pastor eloquente e educado em Harvard.

O sucesso económico, contra todas as probabilidades, de uns acaba por fazê-los vítimas viáveis de acusação. Os feitos hercúleos ao enfrentar índios e ao desempenhar tarefas diárias são assumidos como provas de bruxaria, acabando por se condenar um homem proeminente, sobrevivente a vários ataques, que teria tido um papel importante na igual sobrevivência da sua pequena comunidade.

O facto de ninguém saber exactamente como uma bruxa exercia o seu mister também ajudava: a curiosidade da Hale era compreensível. Em parte bíblica, em parte folclórica, vagamente sueca e mesmo vagamente índia, uma bruxa era alguém que em julho beliscava e estrangulava, mas em agosto já derrubava reinos.

A imprecisão na definição do que era uma bruxa, um feiticeiro ou um bruxedo facilitavam as acusações. Referiam-se fantasmas, acreditava-se no efeito que o olhar do acusado tinha nos episódios de histeria demonstrados pelas jovens – elementos que alimentava a ânsia de um expurgo pelos juízes que pareciam desenterrar uma epidemia. A cada nova acusação surgiam novos suspeitos que prontamente eram interrogados. Se não confessassem nos primeiros dias, a dura permanência na prisão decerto trataria de avivar a memória para culpas e para detalhes de episódios fantásticos.

Numa sociedade que tenta lutar contra todos os vícios anulando o máximo de feriados e de festas, mantendo o maior foco possível no trabalho, e fomentando o espiar de todos, parece surgir o maior surto de todos os tempos, ironia que não passou despercebida a outras comunidades.

Com menos exactidão, mas com grande satisfação, os inimigos dos Puritanos deliciavam-se com aquele frenesi. Eles estavam a «enforcar-se uns aos outros» exactamente pelo mesmo crime – haviam de referir dois comerciantes quacres (…) do qual gostavam de acusar a sua seita de alegados adoradores do diabo. (…) A caça às bruxas parecia encorajar as gentes a comportarem-se como as próprias criaturas – católicos, franceses, bruxos – que abominavam.

Fruto do tédio dos dias iguais, sem diversão ou descanso, fruto de uma imaginação fértil alimentada pelo extremo fervor religioso, a caça às bruxas pareceu lógica aos juízes que presidiram aos julgamentos. Com o tempo, alguns deles, perceberiam que o melhor que fariam era apagar estes episódios da história.

O facto de as raparigas viverem num género de lugar pequeno e confinando que sempre proporciona um bom pano de fundo para o teatro (e para um bom romance de detectives) também terá contribuído: era menos frequente as acusações de bruxaria terem origem em locais urbanos.

Resultando numa histeria em massa, uma urgência em extinguir o mal e justificar todos os azares que ocorriam na vila, os julgamentos tornar-se-iam famosos apesar de todas as tentativas em eliminar registos da sua ocorrência. Utilizados para relatos fantásticos e peças de horror, são frequentemente referidos na literatura ou no cinema, sem esquecer a música, desde o folk à ópera.

Stacy Schiff realiza um extenso trabalho de agregação de informação, interligando-a e realçando o absurdo da forma como os procedimentos foram realizados nos julgamentos. As mesmas provas serviam para acusar e para ilibar e afirmações de inocência acabavam por ser mais prejudiciais do que confissões de culpa.

As Bruxas foi publicado pela Marcador.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s