Bruxas – Stacy Schiff

O que dizer de um período da história em que a comunidade parece ter sido acossada por uma praga de bruxas? Em Bruxas Stacy Schiff apresenta um extenso trabalho de investigação, reunindo diários e os poucos documentos que não foram eliminados, e colmatando as falhas que aparecem.

O pastor principal da vila descobriu que era parente de nada menos do que vinte bruxas. Fantasmas fugiram do túmulo para entrar e sair do tribunal, enervando mais gente do que as próprias bruxas.

Em 1692 uma rapariga começou a contorcer-se e a gritar. A ela juntaram-se outras, com os mesmos sintomas, que se diziam embruxadas, apontando dedos acusatórios. Se as vozes de mulheres são de menor importância nesta época, as de jovens raparigas ainda mais. Mas com estes sintomas e acusações ganham atenção, sobretudo masculina, enquanto arranjam motivo para se dedicarem ao ócio.

As mulheres são as vilãs nos contos de fadas – o que é que estamos a dizer quando colocamos entre as pernas o próprio símbolo dos afazeres domésticos comezinhos e levantamos voo, desafiando os limites da comunidade e a lei da gravidade? -, mas esses contos são igualmente o território da juventude. Salem encontra-se, a todos os níveis, ligada à adolescência, essa idade imoderada em que, vulneráveis e invencíveis, saltitamos alegremente ao longo da fronteira entre o racional e o irracional, em que aumenta o interesse tanto pelo espiritual como pelo sobrenatural.

Claro que a autora não parte directamente para estas conclusões. As próprias embruxadas, anos mais tarde, hão-de confessar o tédio ou a revolta para com os patrões, que as levou a estes sintomas. Até porque a mente das populações era, naquela altura, fortemente influenciável. Era mais fácil atribuir a uma bruxa um azar do que ao acaso – ganhava-se propósito e uma causa concreta para as desgraças.

A bruxaria resolvia as pontas soltas, explicava o arbitrário, o fantasmagórico e o inamistoso. Como Samuel Parris estava a descobrir, deflectia o julgamento divino e dissolvia a responsabilidade pessoal. O diabo não só oferecia um feriado à razão, como se exprimia com clareza: não obstante toda a sua perversidade, os motivos faziam sentido. Ninguém perguntava o que se tinha feito para merecer o seu desfavor, preferível à censura, ou à indiferença celeste. E quando se procuravam maquinações diabólicas, estas tornavam-se rapidamente visíveis. Entre responsabilizações flagrantes, a bruxaria resolvia impasses lógicos. Ratificava ressentimentos, neutralizava desfeitas, aliviava ansiedades. Oferecia uma explicação hermética quando, literalmente, o diabo começava a andar à solta.

 

Um grupo de mulheres jovens e desprovidas de direitos desencadeou a crise, revelando forças que ninguém conseguia conter e que ainda hoje nos perturbam. O que poderá, ou não, ter algo a ver com o motivo pelo qual transformámos uma história de mulheres em perigo numa outra sobre mulheres perigosas.

O mesmo se podia dizer para sonhos e imaginações nocturnas. Era comum a ideia de que uma mulher se materializava no leito do vizinho, atormentando-o, ou, sob a forma de um animal invadia espaços alheios para fazer diabruras e rapidamente se escapar. As primeiras acusadas de bruxaria eram mulheres que estavam à margem da sociedade, seja pela sua condição de extrema pobreza, seja por se encontrarem caídas em desgraça, viúvas a quem fora negada a herança.

É interessante que as mulheres espectrais frequentemente importunassem os homens nas suas camas em 1692, quando no mundo visível o oposto acontecia com alguma frequência.

Se, inicialmente, se começou por acusar mulheres que estavam à margem da sociedade, rapidamente as culpas passaram a contemplar mulheres que teriam, no seu passado, algum detalhe suspeito, uma falha do ponto de vista moral como uma gravidez fora do casamento, uma atitude pouco conformada e pacífica, ou alguma inteligência e sagacidade. Mas nem aqui ficou definido o limite, chegando-se a acusar, de bruxaria, mulheres que não tinham qualquer falha perante a família ou comunidade.

Numa sociedade pequena onde todos espiavam todos e assim acreditavam que se poderiam manter mais coesos e puros, qualquer comportamento inocente poderia ser facilmente transformado em atitude desviante, um indício de bruxaria. Um mero gesto, um mero olhar aos quais se confere um propósito poderia servir como prova para uma acusação. Mesmo quando estes tivessem origem na imaginação do seu observador.

Acusação após acusação, interrogatório após interrogatório, os acusados eram forçados a nomear cúmplices. As mulheres, principalmente, pouco crentes na validade dos seus pensamentos e, até, das suas memórias, acabavam por confessar voos em vassouras, ritos nocturnos em pastos, missas satânicas e assinaturas em livros que indicariam a venda da sua alma ao serviço do diabo. Não deixa de ser irónico confrontar a forma como se validavam as queixas das embruxadas em relação ao forçar de confissões por parte de mulheres que não teriam mácula moral, ou de confissões por parte de homens estabelecidos na comunidade.

E, pela primeira vez na Nova Inglaterra, as vozes femininas reveleram-se tão autoritárias que o depoimento espectral de duas esposas falecidas havia de prevalecer em tribunal contra um pastor eloquente e educado em Harvard.

O sucesso económico, contra todas as probabilidades, de uns acaba por fazê-los vítimas viáveis de acusação. Os feitos hercúleos ao enfrentar índios e ao desempenhar tarefas diárias são assumidos como provas de bruxaria, acabando por se condenar um homem proeminente, sobrevivente a vários ataques, que teria tido um papel importante na igual sobrevivência da sua pequena comunidade.

O facto de ninguém saber exactamente como uma bruxa exercia o seu mister também ajudava: a curiosidade da Hale era compreensível. Em parte bíblica, em parte folclórica, vagamente sueca e mesmo vagamente índia, uma bruxa era alguém que em julho beliscava e estrangulava, mas em agosto já derrubava reinos.

A imprecisão na definição do que era uma bruxa, um feiticeiro ou um bruxedo facilitavam as acusações. Referiam-se fantasmas, acreditava-se no efeito que o olhar do acusado tinha nos episódios de histeria demonstrados pelas jovens – elementos que alimentava a ânsia de um expurgo pelos juízes que pareciam desenterrar uma epidemia. A cada nova acusação surgiam novos suspeitos que prontamente eram interrogados. Se não confessassem nos primeiros dias, a dura permanência na prisão decerto trataria de avivar a memória para culpas e para detalhes de episódios fantásticos.

Numa sociedade que tenta lutar contra todos os vícios anulando o máximo de feriados e de festas, mantendo o maior foco possível no trabalho, e fomentando o espiar de todos, parece surgir o maior surto de todos os tempos, ironia que não passou despercebida a outras comunidades.

Com menos exactidão, mas com grande satisfação, os inimigos dos Puritanos deliciavam-se com aquele frenesi. Eles estavam a «enforcar-se uns aos outros» exactamente pelo mesmo crime – haviam de referir dois comerciantes quacres (…) do qual gostavam de acusar a sua seita de alegados adoradores do diabo. (…) A caça às bruxas parecia encorajar as gentes a comportarem-se como as próprias criaturas – católicos, franceses, bruxos – que abominavam.

Fruto do tédio dos dias iguais, sem diversão ou descanso, fruto de uma imaginação fértil alimentada pelo extremo fervor religioso, a caça às bruxas pareceu lógica aos juízes que presidiram aos julgamentos. Com o tempo, alguns deles, perceberiam que o melhor que fariam era apagar estes episódios da história.

O facto de as raparigas viverem num género de lugar pequeno e confinando que sempre proporciona um bom pano de fundo para o teatro (e para um bom romance de detectives) também terá contribuído: era menos frequente as acusações de bruxaria terem origem em locais urbanos.

Resultando numa histeria em massa, uma urgência em extinguir o mal e justificar todos os azares que ocorriam na vila, os julgamentos tornar-se-iam famosos apesar de todas as tentativas em eliminar registos da sua ocorrência. Utilizados para relatos fantásticos e peças de horror, são frequentemente referidos na literatura ou no cinema, sem esquecer a música, desde o folk à ópera.

Stacy Schiff realiza um extenso trabalho de agregação de informação, interligando-a e realçando o absurdo da forma como os procedimentos foram realizados nos julgamentos. As mesmas provas serviam para acusar e para ilibar e afirmações de inocência acabavam por ser mais prejudiciais do que confissões de culpa.

As Bruxas foi publicado pela Marcador.

Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

A Biblioteca à noite – Alberto Manguel

Livros sobre livros. E que tal livros sobre bibliotecas? Partindo da sua própria biblioteca que está albergada num local com uma fascinante história própria, Alberto Manguel discorre sobre várias bibliotecas, seja do ponto de vista de conteúdo, organização ou democratização.

Claro que não é possível falar de bibliotecas sem falar das desaparecidas e míticas, como a de Alexandria. Mas como esta, existem outras, reunidas em determinados locais para simplesmente serem extintas, de repente, por algum conservador de ideias que vê, nos livros, uma afronta e um perigo.

Utilizadas para manipulação política (o autor descreve casos em que a disponibilização ou maior destaque foi dado a determinadas publicações), como estrutura diferenciadora de classes (numa altura em que o acesso a livros poderia aprofundar diferenças culturais) ou como monumento de prestígio (que homens ricos deixavam não porque valorizassem a cultura, mas porque desejavam ter o seu nome realçado) as bibliotecas, com os respectivos livros, têm marcado culturas e gerações.

Organizadas de determinadas formas (alguns métodos convertem-se em autênticas dores de cabeça), mantendo, por vezes, a nomenclatura dos donos originais, as bibliotecas privadas reflectem os seus donos, pela diversidade e composição das obras, e representam fisicamente associações de ideias:

Os nossos livros decorrem de outros livros, que os mudam ou enriquecem, que lhes atribuem uma cronologia diferente da dos dicionários literários.

A Biblioteca à noite, publicado em Portugal pela Tinta da China é uma leitura fascinante para quem gosta de livros e bibliotecas – carregado de curiosidades e sem se conter em fazer observações políticas e históricas sobre o acesso à cultura. Cruzando diferenças culturais e históricas com a actualidade ocidental, realça o mistério da biblioteca à noite, obscura, carregando todas as possibilidades e todos os livros, os lidos e os não lidos.

Democracia – Alecos Papadatos, Abraham Kawa Annie di Donna

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Este Democracia foi lançado este ano durante a Amadora BD numa sessão que contou com dois dos autores, Alecos Papadatos e Abraham Kawa, bem como de Francisco Louçã, Pedro Moura e Pedro Vieira. Nesta sessão falou-se não só das ideias por detrás da história presente em Democracia, bem como do processo criativo e colaborativo dos vários autores.

Foi uma excelente sessão de lançamento, não só por apresentar o livro, mas pelo enquadramento crítico com a transposição da história para a actualidade, colocando-se questões bastante críticas tanto do ponto de vista literária como político.

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Colorido e movimentado, Democracia apresenta a cidade grega de Atenas como palco para uma rotação de poder corrupta que sustenta uma força mercenária como forma de manter a superioridade militar. Mas enquanto a memória da maioria é curta e manobrável em discursos de retórica, outros não se deixam enganar e vislumbram o que de errado está a ocorrer naquela cidade.

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Leandro, filho de um mercador, está mais interessado em desenhar e pintar do que seguir os passos do pai,  mas claro que, enquanto jovem, não tem grande poder de decisão para o seu futuro. Com o objectivo de o iniciar nas vertentes de maior responsabilidade do negócio, o pai envia-o numa pequena viagem a negócios – um momento marcante na vida do jovem, não só pela bela rapariga que conhece, Hero, que está prometida ao templo de Delfos, como pelo atribulado retorno em que assiste à morte do pai numa ardilosa chacina de civis.

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Procurando uma forma de se vingar, Leandro viaja para Delfos para ver o oráculo mas cedo percebe que os Deuses só falam para os mais ricos, seleccionados pelos sacerdotes do templo, e que as profecias que dali saem são politicamente suspeitas. As suas ideias vão sendo fortalecidas pelos episódios a que assiste e pelos encontros clandestinos com Hero.

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Ainda que não esqueça os acontecimentos que marcaram o início da idade adulta, Leandro vai perdendo o foco na vingança violenta e é orientado por sonhos que lhe indicam que deverá usar as suas próprias capacidades artísticas para moldar mentalidades em pequenos episódios representativos que molda nas suas peças. Retornando a Atenas o seu novo negócio levam-no a uma falsa época de glória, em que se rodeia de interesseiros e se afasta dos verdadeiros amigos.

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Utilizando uma personagem fictícia bem colocada, num lugar banal que lhe confere uma perspectiva interessante mais próxima do leitor, Democracia baseia-se em vários relatos históricos da época para apresentar uma única versão onde, à semelhança de Leandro, se vai perdendo a visão inocente do poder religioso e político.

Ainda que teoricamente estes estivessem separados, o poder religioso cedia a interesses externos conforme a sua própria conveniência, como forma de controlar populações e de obter, para si mesmo, novas riquezas e influências.

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Por sua vez, o poder político está carregado de corrupção e falácias criminosas que têm como único objectivo a manutenção do seu papel superior, ludibriando o povo e influenciando os seus votos através da ganância e de um jogo de poder sem fim.

Qualquer semelhança com os sistemas actuais não é pura coincidência e em Democracia usa-se uma época distante e um cenário desconhecido para expor uma caricatura da sociedade e, simultaneamente, expor um desfecho esperançado que nos pode levar a várias questões, mas que, na prática, se podem resumir a “Quantas verdadeiras democracias conhecemos?”.

Democracia foi lançado em Portugal pela Bertrand Editora.

 

Assim foi: Portugal na Eurocon

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Imagem retirada da página oficial do CCCB

Se tivesse que me mudar para outra cidade europeia decerto mudaria para Barcelona – ruas lindíssimas rodeadas por montes e mar, população de etnia variada e, claro, um sem fim de livrarias enormes, algumas especializadas, outras genéricas, quase todas com obras em vários idiomas (até em português). Saber que a próxima Eurocon seria em Barcelona foi um elemento decisivo para planear uma viagem com dois anos de antecedência. Sim, dois anos. Leram bem.

Para quem não sabe o que é a Eurocon, é uma convenção de ficção científica a nível Europeu que se centra em livros. A convenção decorre todos os anos num local diferente decidido por votação. Para a Eurocon de Barcelona foram anunciados alguns dos autores mais relevantes na ficção científica europeia, como Aliette de Bodard, Johanna Sinisalo, Andrzej Sapkowski, Albert Sánchez Piñol ou Richard Morgan (que esteve em Portugal há uns anos, para o Fórum Fantástico).

Apesar de não ter participado nos anos anteriores, pareceu-me que, devido à proximidade (Barcelona é já ali ao lado), a Eurocon de 2016 se diferenciou por uma forte presença lusa, havendo, para além de uma consistente participação do Luís Filipe Silva em vários painéis, uma banca com divulgação da Ficção Científica em Portugal, obra de André Silva, Tomás Agostinho, Carlos Silva e Pedro Cipriano.

Painéis com participação portuguesa

Atrás han quedado los días de gloria del Imperio – Luís Filipe Silva

SFF in Portugal Nowadays – Luís Filipe Silva, Carlos Silva e eu

Dédalo – Tomás Agostinho

Is there a Southern European SF? – Luís Filipe Silva (e outros autores)

How to promote Euro SF – Luís Filipe Silva (e outros autores)

Atrás han quedado los diás del gloria del Imperio

Não pude assistir a esta mas, felizmente, há gravação.

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Retirado do Twitter oficial da Eurocon

SFF in Portugal Nowadays

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Pati Manning

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Pati Manning

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Pati Manning

Ainda que a sessão tenha decorrido no edifício Pati Manning (lindíssimo, mas menos central no circuito da Eurocon) tivemos direito a público e a gravação (não oficial). Por enquanto aqui ficam os slides apresentados, realçando-se que foi, também, referido António de Macedo tanto pelos filmes que produziu, como pelos livros que tem escrito. Muito ficou por falar e por destacar mas, infelizmente, não havia espaço para tudo.

Is there a Southern European SF?

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Com moderação de Luís Filipe Silva, esta mesa reuniu Anders Bellis, Arrate Hidalgo, Francesco Verso e Claude Lalumiére numa conversa que deu especial destaque à proximidade Mediterrânica e onde Claude Lalumiére, de origem canadiana, falou das mudanças que a sua própria escrita sofreu com a proximidade ao mar. Esta sessão foi gravada:

How to promote Euro SF

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Sessão mais movimentada, marcada por opiniões mais vincadas, em que se destacou o papel dos prémios nacionais para promover a obra de ficção científica em cada um dos países europeus.

Outras presenças portuguesas

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Sci-fi LX a marcar presença na Eurocon com uma banca em que divulgaram vários projectos portugueses

O Sci-Fi Lx, representado por André Silva, Carlos Silva e Tomás Agostinho marcou espaço com uma banca em que apresentou, não só os projectos que lhe estão directamente relacionados, como outros, portugueses, sendo que a disposição do material era dinâmica, modificada ao longo do dia para ir destacando os vários produtos e ideias. Muitas foram as pessoas que pararam, de diferentes nacionalidades e interesses para saber mais sobre o que se faz neste quadrado à beira mar plantado e a boa disposição dos intervenientes rapidamente se tornou contagiante!

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Eurocon 2016 – Souvenir Book – livro distribuído a todos os participantes da Eurocon

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Eurocon 2016 – Souvenir Book – livro distribuído a todos os participantes da Eurocon

O Souvenir Book é um livro de 160 páginas que contém artigos relacionados com a ficção científica europeia. Entre estes artigos encontramos quatro páginas da autoria de Luís Filipe Silva em que se fala da história da ficção científica portuguesa.

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À esquerda Zine produzida durante o evento (http://edm-online.de / http://Hansecon.blogspot.com) e à direita um dos postais distribuídos a todos os participantes com a publicidade à Fénix.

E quase que me esquecia, eis os nomeados portugueses para as várias categorias dos prémios ESFS (na página da Locus podem consultar os vencedores):

  • Best author – João Barreiros
  • Best magazine – Bang!
  • Best artist – Edgar Ascensão
  • Best fanzine – H-Alt
  • Best website – Bibliowiki

E o Encouragement Award português vai para… Rui Ramos!

Por último e, ainda que não esteja bem relacionado com a Eurocon, foi engraçado andar a passear por ruas escuras da zona gótica e descobrir livros portugueses numa montra minúscula !

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Assim foi: Fórum Fantástico 2016 – 23 de Setembro

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Este ano pude comparecer aos três dias do evento que começou, como já é hábito, numa sexta-feira. A primeira sessão auspicia boas novidades nos eventos de banda desenhada para os próximos tempos – “Apresentação do seminário BD, Estética e Pensamento Político”. Nesta apresentação Hélder Mendes expôs o plano de realizar várias sessões, algumas informais e outras mais formais de acordo com o seguinte plano:

Sessões informais

  1. Corpo I: Corpo e género
  2. Corpo II: Cibernética e transhumanismo
  3. Cidade e Multidão
  4. Política e Desencanto (título sujeito a revisão)
  5. Utopia I: Utopia e super-heróis

Sessões formais

  1. Utopia II: Utopia e Distopia
  2. Revolução
  3. Totalitarismo

Através do contacto com o Clube Português de Banda Desenhada, esperam levar, para estas sessões, autores portugueses publicados, quer em Portugal, quer noutros países. Esperam, também, poder conjugar as sessões com o lançamento de algumas obras relacionadas (como, por exemplo, Miracleman, publicado pela G Floy).

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Seguiu-se uma sessão com vários investigadores de Fantasia e Ficção Científica na FCSH com Maria do Rosário Monteiro, Jorge Rosa e Teresa Botelho onde falaram das suas perspectivas de trabalho, com especial ênfase na distopia / utopia, e na sua evolução ao longo dos séculos.

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Entre a especulação e a dura realidade, a sessão “Planetas: Ciência e Ficção” cruzou perspectivas bastante diferentes da exploração dos planetas do restante sistema solar. Nuno Galopim é o autor de “Os Marcianos somos nós” onde realça a forma como mudou a visão de Marte com a sua exploração – se antes era um planeta de possibilidades infindáveis, com as primeiras imagens da superfície passou a área árida, quase estéril. João Barreiros é o autor de A Verdadeira Invasão dos Marcianos onde refaz a Guerra dos Mundos em que os escritores Verne e Wells possuem um importante papel. Por sua vez, Jo Lima trabalha no centro de Centro de Astrobiologia e, apesar de entusiasta, manteve-se mais terra a terra nas possibilidades inerentes à exploração de outros planetas.

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João Morales apresentou, de seguida, Metamorfoses musicais, uma série de músicas que cruzam géneros e culturas de uma forma inesperada, originando ora excelentes momentos, ora outros de inesperada estranheza. Entre as músicas apresentadas encontramos resultados tão distintos quanto:

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Após a sessão musical passou-se à gravação de programas de Contos não vendem, com leitura de contos por João Morales e Rogério Ribeiro. O primeiro escolheu histórias em Casos de Direito Galáctico e outros textos esquecidos de Mário-Henrique Leiria e o segundo um conto de Sr. Bentley – O enraba passarinhos de Ágata Ramos Simões.

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Eventos: Fórum Fantástico 2016

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Está-se a aproximar o evento fantástico mais esperado do ano em Portugal, o Fórum Fantástico de 2016. O programa já se encontra publicado e este ano vamos poder contar, como já é habitual, com palestras incidindo sobre diversas artes envolvidas na ficção especulativa. Ao longo do evento (gratuito) decorrerá uma pequena Feira do Livro Fantástico onde estarão presentes editores e autores independentes.

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Prevejo assistir aos três dias e destacaria este ano, para sexta, a perspectiva mais académica sobre ficção especulativa que será apresentada (Investigando fantasia e ficção científica) ou a componente musical associada aos géneros (Metamorfoses musicais).

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Já no Sábado, o dia começa com um workshop sobre impressão 3D, e depois de almoço assistirei decerto a Outra História, Outro Portugal (entre os autores encontra-se Miguel Real, o autor de O Último Europeu), e ao lançamento da antologia Proxy (uma antologia portuguesa cyberpunk que já tive a oportunidade de ler e que vale muito a pena).

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No Domingo temos o usual espaço de Sugestões de Literatura e cinema (com João Barreiros, Artur Coelho e eu) e prevejo assistir à apresentação de Galxmente de Luís Filipe Silva.

Ficção especulativa em Junho de 2016

Por vários motivos (entre os quais o tempo) esta rubrica tem estado ausente do blogue há alguns meses. Não que tenha desistido. A última vez que lhe peguei comecei um resumo de três meses que falhei em gravar antes de fechar o browser. Esqueçamos o que está para trás – o melhor é começar novamente a partir do último mês. A novidade é a separação da banda desenhada (uma área que consegue ter muitos mais lançamentos, críticas e eventos num mês que a ficção especulativa num ano). Espero fazer depois um só sobre banda desenhada.

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Lançamentos nacionais relevantes

Este mês foi forte em publicação, em parte por conta da Feira do Livro de Lisboa, local onde ocorreu o lançamento de alguns destes livros:

Cinzas de um novo Mundo – Rafael Loureiro – Editorial Presença;

O Livro – Zoran Zivkovic – Cavalo de Ferro;

A Canção de Shannara – Terry Brooks – Saída de Emergência;

2396 – Criada para Matar – Catarina Marçal Pereira – Verso da Kapa;

Crash – J. G. Ballard – Elsinore;

Histórias de Vigaristas e canalhas – vários autores – Saída de Emergência;

A Rapariga que sabia demais – M. R. Carey – Nuvem de tinta;

Ouve a canção do vento e Fliper, 1973 – Haruki Murakami;

Os 100: Regresso a Casa – Kass Morgan – Topseller;

Illuminae – Amie Kaufman e Jay Kristoff – Nuvem de Letras;

Terra Fresca – João Leal – Quetzal editores;

Críticas interessantes

Este mês marca o regresso do Inner Space com um comentário a um livro português!

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Ficção científica

Portugal, e o futuro – Manuel da Silva Ramos – Inner Space;

Lembranças da Terra – Ângelo Brea – Intergalacticrobot;

A História de uma Serva – Margaret Atwood – Bloco de Devaneios;

The Water Knife – Paolo Bacigalupi – Floresta de Livros;

Cinzas de um novo mundo – Rafael Loureiro – Uma Biblioteca em construção;

O restaurante no fim do Universo – Douglas Adams – A Lâmpada Mágica;

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Fantasia

Antigas e Novas Andanças do Demónio – Jorge de Sena – Intergalacticrobot;

Alex 9: A Magia dos Ventos – Bruno Martins Soares – A Lâmpada Mágica;

Príncipe dos Espinhos – Trilogia dos Espinhos – Nuno Ferreira | Uma biblioteca em construção;

O trono dos crânios – Peter V. Brett – Leituras do Fiacha;

Uprooted – Naomi Novik – Leitora de fim-de-semana – e eu que pensava que era a única a ter achado que a autora se tinha perdido a meio da história;

O Cisne Selvagem e outros contos – Michael Cunningham – Máquina de Escrever;

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Outras obras

A Colecção Privada de Acácio Nobre – Patrícia Portela – Bibliotecário de Babel | Deus me Livro | Cadeirão Voltaire;

O Livro – Zoran Zivkovic – A Roda dos Livros;

Illuminae – Amie Kaufman e Jay Kristoff – Pedacinho literário | Uma biblioteca em construção;

O escritor-fantasma – Zoran Zivkovic – A Roda dos Livros;

Outros artigos

– +18: Um brevíssimo update – Bladerunner;

Ficção científica na RTP (Carlos Silva e Inês Montenegro);

– Conversa com Zoran Zivkovic (Parte 1 | Parte 2)

– Qual o futuro dos livros – Dinheiro vivo;

– Frenesi – um pavilhão de tesouros na Feira do Livro de Lisboa – O Corvo;

– É um pecado maior não ler um livro do que o roubar – Diário de Notícias;

– Escorraçar o diabo com a galinha preta e o banho santo – Público;

Eventos nacionais

Recordar os Esquecidos;

Zoran Zivkovic em Lisboa;

Os Marcianos somos nós na Feira do Livro;

Devoradores de Livros.

Assim foi: Lançamento Os Contos Inéditos de DogMendonça e Pizzaboy

 

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Apesar de já ter lido o livro (podem ler a opinião) não poderia faltar à apresentação. Diz-me a experiência dos anteriores lançamentos dos volumes de DogMendonça e Pizzaboy que são eventos divertidos e este, prometendo questionários e leilões, decerto iria cumprir as expectativas.

Se, confessa a editora, no início, o investimento numa banda desenhada parecia vir a tornar-se num esforço inglório,  apesar de todo o entusiasmo dos intervenientes (principalmente de Filipe Melo), pouco faria prever o sucesso que fez esgotar várias edições dos três volumes da trilogia de aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy.

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Depois da genial apresentação de Nuno Markl (que podem ler no seu blogue) seguiu-se um questionário sobre músicas épicas dos anos 80 e respectivos filmes. A quem acertasse eram oferecidos exemplares do jogo de DogMendonça e Pizzaboy. Mas o momento alto foi sem dúvida o leilão, onde estavam em jogo pranchas originais desta banda desenhada.

No final, houve o habitual espaço para autógrafos e… oferta de posters dos nossos heróis!

Actualização: Para mais fotos do evento podem consultar a página oficial.

Ruins – Peter Kuper

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O que me captou foi o aspecto gráfico, tanto da capa como do interior, que vai alternando entre vívidas imagens das cidades sul americanas, com a viagem de uma borboleta, e trechos de um livro que está a ser escrito envolvendo as civilizações nativas.

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A história centra-se num casal que se muda, por um ano, para o México, para a cidade de Oaxaca. O homem, George, acabou de ficar desempregado e a mulher, Samantha, aproveita a escrita de um novo livro como desculpa para retornar ao país que recorda vivamente – um ano para relaxar e concretizar alguns planos há muito estagnados.

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Cedo nos apercebemos da ruptura latente do casal. A mulher vive obcecada entre o livro e a perspectiva de engravidar e, apesar de se deslocarem à cidade diversas vezes, raramente o fazem em conjunto ou se mantém juntos na exploração da cidade – há sempre uma razão para fazerem vidas totalmente separadas na mesma casa.

Não é, assim, de estranhar, que a experiência da viagem seja bastante diferente, e até oposta, ainda que, para ambos, se torne uma viagem de revelação interior e de descoberta do que pretendem para si mesmos – o homem redescobre lentamente o interesse pelas artes, e a esposa relembra velhas paixões.

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Apesar de se centrar na vivência do casal, a história possui outros níveis de interesses. Por um lado vamos vendo planos que se referem às civilizações sul-americanas e que corresponderão a trechos do livro a ser escrito. Por outro, vamos assistindo à caricatura da cultura mexicana, onde se faz também uma crítica política ao sistema – as grandes manifestações dão origem a confrontos policias, mediáticas notícias mas efémeras que são substituídas por notícias de manipulação de opinião, e consequentemente esquecimento internacional – morrem alguns manifestantes mas tudo o resto permanece estático.

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Nas suas deambulações pela cidade George conhece um repórter internacional que se entrega diariamente à bebida. Mas é através deste que conhece uma outra perspectiva da cidade mexicana e se apercebe dos problemas sociais e dos motivos por detrás das manifestações, enquanto a paz dos jardins idílicos da cidade dá lugar à opressão.

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Viagem de exploração cultural, mas também de descoberta interior, vai sendo acompanhada pela viagem de uma borboleta que viaja pelo mundo, na sua habitual peregrinação anual.

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Sem ser extraordinário, é uma leitura engraçada, carregada de detalhes interessantes, tanto a nível cultural como relacional. São óbvios os sinais de ruptura acumulados, seja ruptura cultura, seja amorosa, mas não estando perante um grande drama a história não toma contornos sangrentos. Existem consequências, mas essas irão sarar lentamente.

Fevereiro de 2016

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Lançamentos nacionais relevantes

Para além das colecções de banda desenhada em curso (da Marvel pela Salvat, e dos Heróis DC pela Levoir em parceria com o jornal Público) eis os lançamentos nacionais que mais me interessaram:

Por sorte o leite – Neil Gaiman – Editorial Presença;

Extinção – Kazuaki Takano – Casa das Letras;

– O livro da selva – Rudyard Kipling – Bertrand Editora;

O barão trepador – Italo Calvino – Dom Quixote;

Filho Dourado – Pierce Brown – Editorial Presença;

O herói das eras – Brandon Sanderson – Saída de Emergência;

O trono dos crânios – Peter V. Brett – Edições Asa;

Críticas interessantes

Se no mês passado constatei que o número de blogues com excelentes críticas de FC era cada vez menor (citando alguns de exemplo que não dão sinal de vida há largos meses), este mês outros houve que anunciaram fecho. Mais palavras para quê? Aqui fica o apanhado das críticas que achei mais interessantes ao longo de Fevereiro.

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Ficção científica

Analog Science Fiction and Fact – Setembro 2014 – Intergalacticrobot – A revista é uma das mais conhecidas no meio, e uma das melhores formas de se descobrir ficção em formato mais curto;

The young world – Chris Weitz – As leituras do corvo – um clássico cenário pós-apocalíptico, com todos os inevitáveis dilemas da vida adolescente;

Confessions d’un automate mangeur d’opium – Fabrice Colin & Mathieu Gaborit – Intergalacticrobot – quando a ficção steampunk tem preocupações mais estéticas do que narrativas;

12.22.63 – Stephen King – D’Magia – história de viagem no tempo com ritmo imparável apoiada numa pesquisa exaustiva sobre 22 de Novembro de 1963;

Rendez-vous com Rama – Arthur C. Clarke – Ler y Criticar – clássicao do género centra-se no primeiro contacto com vida extraterrestre;

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Fantasia

A porta no muro – H. G. Wells – A Lâmpada Mágica – Um dos livros da colecção dirigida por Jorge Luís Borges apresenta uma faceta mais fantástica do autor de A Guerra dos Mundos;

O Vento nos Salgueiros – Kenneth Grahame – Deus me Livro – um clássido da literatura juvenil, “história de amizade e mudança, de lendas e mitos”;

Monsters of Men – Patrick Ness – Floresta de Livros – último volume da trilogia com “personagens intensas, sem momentos mortos e com uma escrita veloz”;

A rainha vermelha – Victoria Aveyard – Letras sem fundo – jovens saídas da puberdade, capacidades mágicas e triângulos amorosos num esquema narrativo distópico;

The sleeper and the spindle – Neil Gaiman – Leitora de fim-de-semana – a união de dois contos, A Bela Adormecida e Branca de Neve, resulta numa história bem diferente;

A guardiã da espada – Alex 9 – Bruno Martins Soares – A Lâmpada Mágica – Romance demasiado ambicioso de frenética sucessão de cenas, com várias descrições de combates e batalhas;

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Banda desenhada

A louca do Sacré-Coeur – Moebius & Jodorowsky – A Lãmpada Mágica – gozo ao intelectualismo oco, às crises masculinas de meia-idade e ao misticismo new age;

Tony Chu: Enfarda-Brutos – Layman & Guillory – As leituras do Pedro – “original e “nojentamente divertido””

A agência de viagens Lemming – José Carlos Fernandes – aCalopsia | As leituras do Pedro;

Cruelle – Florence Dupré La Tour – As leituras do Pedro;

– Foi assim a guerra das trincheiras – Tardi – A Lâmpada Mágica – retrato revoltante e comovente da guerra, com exposição das grandezas e misérias da espécie humana;

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Outros

Connections – James Burke – Intergalacticrobot – livro não ficcional de divulgação científica, que possuirá uma abordagem pouco usual para explicar a evolução tecnológica;

O poço e o pêndulo – Edgar Allan Poe – Nuno Ferreira – conto de horror de escrita envolvente onde se destaca a capacidade de subtilmente transmitir sensações;

As horas invisíveis – David Mitchell – Ler y Criticar – o último livro do autor publicado em Portugal tem um ritmo lento, mas é original e ambicioso;

Oriente, Ocidente – Salman Rushdie – Pedro Cipriano – depois de ter lido um livro do autor, fiquei curiosa com este, um livro de contos;

Frankenstein – Mary Shelley – Virtual Illusion – “um rasgo de pura criatividade que se veio a tornar num ícone dos mundos de ficção”;

Outros artigos

Literatura de ficção

– O umbigo do Mundo de Umberto Eco era em Portugal – Observador;

– Franz Kafka: A obra em chamas – Deus me Livro;

– As fantasias irrealistas de David Mitchell – Observador;

– Umberto Eco: A insuportabilidade do silêncio – aCalopsia;

– Eternamente Tom Sawyer – Revista Estante;

– O bibliotecário e o nome da rosa – Observador;

– O homem que inventou Dan Brown – Observador – apesar do título (infeliz, a meu ver, que quase dá maior importância a Brown) tem alguns parágrafos interessantes;

Banda desenhada

– Os heróis também usam BI – Mafalda – Deus me Livro;

– Hermann: Um grande clássico – aCalopsia;

– Príncipe Valiente: 1957 – 1960 – As leituras do Pedro;

– Artigos sobre BD, Os meus – cuto “O Mosquito” – Divulgando Banda Desenhada;

– Crítica e divulgação de BD: Antes e depois da Internet – aCalopsia;

– 2016: Arranque em grande para os autores portugueses no estrangeiro – As leituras do Pedro;

– Super-heróis à francesa II: O Universo fantástico da Lug – Leituras de BD;

– A mansão assombrada da Disney por Joshua Williamson e Jorge Coelho – aCalopsia;

Eventos

– Correntes d’Escritas – Deus me Livro (23, 24, 25, 26, 27);

Sustos às sextas;

– Reportagem – 380º encontro da Tertúlia BD de Lisboa – Kuentro 2;

Recordar os Esquecidos;

– Exposição comemorativa do 80º Aniversário d’O Mosquito – Kuentro 2;

A ficção especulativa em Portugal – 2015

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Talvez por ter voltado a ter alguma disponibilidade, a sensação que fica deste ano é que houve um aumento nos eventos associados ao horror, à ficção científica ou à fantasia. Foi o primeiro ano de Sustos às Sextas (que irão ser retomados agora em Janeiro de 2016), foi o ano em que David Brin veio a Portugal (para quem não conhece é um prolífero autor de FC), e foi o ano em que houve espaço na Gulbenkian para FC e Banda desenhada, com painéis que nos trouxeram Lauren Beukes, Fábio Fernandes, Joe Dog, Marcelo D’Salete ou Posy Simmonds.

Claro que estou apenas a referir aqueles em que pude comparecer, mas houve muito mais – iniciativas Steampunk pela Corte do Norte e pela Liga Steampunk de Lisboa e Provínvicas Ultramarinas, o Scifi LX (no qual apenas passei rapidamente), vários lançamentos de bandas desenhadas ou o evento The Padawan Wars.

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Foi, também, um ano marcado por vários lançamentos de antologias nacionais como Insonho, MotelX Histórias de Horror, ou Nos Limites do Infinito. Infelizmente não ocorreu o Fórum Fantástico, mas as Conversas Imaginárias vieram compensar, com a apresentação de vários projectos nacionais, e lançamentos futuros de João Barreiros, António de Macedo, Luís Filipe Silva, David Soares ou da Imaginauta.

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Os lançamentos de ficção especulativa por editoras de maior dimensão continuam escassos. Continuamos sem nenhuma colecção de publicação constante mas vão sendo lançados alguns livros no género, ainda que, muitos, camuflados. Abaixo, uma lista dos que achei mais relevantes:

Na área da banda desenhada não sou uma perita, mas captaram-me sobretudo a colecção de Novelas Gráficas da Levoir com o Público,  os excelentes lançamentos de preço acessível da G. Floy (como Saga ou Tony Chu) e alguns dos lançamentos da Kingpin (como Kong ,the King, O poema morre ou Fósseis das Almas Belas).

O que podemos esperar para 2016? Na área dos eventos, já está disponível o programa para Sustos às Sextas, e decerto irá retornar o Fórum Fantástico. Nos lançamentos nacionais é previsto termos uma nova edição do Terrarium (de João Barreiros e Luís Filipe Silva), um novo livro de António de Macedo, a publicação do vencedor do prémio Divergência (Anjos de Carlos Silva), novas edições de livros de David Soares (O Pequeno Deus Cego e A Última Grande Sala de Cinema), um segundo volume de Comandante Serralves e uma Antologia Erótica de Literatura Fantástica.

Novembro de 2015

Aproxima-se o Natal e aumentam os lançamentos pelas várias editoras, principalmente no género fantástico. De realçar o livro de Umberto Eco, aguardado há alguns anitos, Histórias dos terras e lugares lendários.

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Lançamentos nacionais relevantes

Dois anos, oito meses e vinte e oito noites – Salman Rushdie – D. Quixote;

– As reencarnações de Pitágoras – Afonso Cruz – Alfaguara;

– Verdes moradas – W. H. Hudson – Sistema Solar;

– Tony Chu – Vol. 3 – G Floy;

Wolverine: Origem – Vol. 2 – G Floy;

Um cisne selvagem e outros contos – Michael Cunningham – Gradiva;

Histórias das terras e dos lugares lendários – Umberto Eco – Gradiva;

Todos os fogos o fogo – Julio Córtazar – Cavalo de Ferro;

O Cavaleiro Sueco – Leo Perutz – Cavalo de Ferro;

A alvorada dos Deuses – Filipe Faria – Editorial Presença;

Bem-vindos a Joyland – Stephen King – Bertrand Editora;

GGG – O Grande Gigante GentilOficina do Livro;

Histórias de aventureiros e patifes – Vários autores – Saída de Emergência;

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Críticas interessantes

Ficção científica

Estação Onze – Emily St. John Mandel – Deus me Livro / O sofá dos livros;

Crónicas Marcianas – Ray Bradury – My very own lines;

On the steel breeze – Alastair Reynolds – Máquina de escrever;

Caliban’s War – James S. A. Corey – Intergalacticrobot;

J – Howard Jacobson – Deus me Livro;

Interzone #258 – Vários autores – Intergalacticrobot;

– Os melhores contos brasileiros de ficção científica – vários autores – Intergalacticrobot;

Time out of joint – Philip K. Dick – My very own lines;

Leviathan’s Wake – James S. A. Corey – Intergalacticrobot;

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Fantasia

– The sleeper and the spindle – Neil Gaiman – Leitora de fim-de-semana;

– A Rainha Vermelha – Victoria Aveyard – Deus me Livro;

– A corte dos traidores – Robin Hobb – Nuno Ferreira;

Histórias de aventureiros e patifes – vários autores – Uma biblioteca em construção / Leituras do corvo Fiacha / Sonhos, Imaginação & Fantasia;

– Mort – Terry Pratchett – Leitora de fim-de-semana;

– O poço da ascensão – Brandon Sanderson – Nuno Ferreira;

Os dilemas do assassino / Sangue do Assassino – Robin Hobb – Leitora de fim-de-semana;

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Banda desenhada

Em busca de Peter Pan – Cosey – Que a estante nos caia em cima;

– Saga Vol.1 – Brian K. Vaughn e Fiona Staples – Intergalacticrobot;

Esquadrão da Luz – Peter Tomasi – As Leituras do Pedro;

Cidade suspensa – Penim Loureiro – My very own lines;

Kong the king – Osvaldo Medina – As Leituras do Pedro;

Regresso às origens – J. Michael Straczynsky – Que a estante nos caia em cima;

Milagreiro – André Oliveira – As Leituras do Pedro;

Outros

– A night in the lonesome October – Robert Zelazny – Intergalacticrobot;

– A Tumba – H. P. Lovecraft – Nuno Ferreira;

Outros artigos

– O que aconteceu depois de “O Regresso de Jedi” ? – Máquina de escrever;

– O Futuro é agora – Revista Estante;

– O trauma de Wolverine continua em «Origem Vol. II» – Diário Digital;

– A Palavra dos Outros: Autores: Tony Sandoval – Leituras de BD;

– Fantasia e imaginação são as fórmulas para inovar na escrita diz Salman Rushdie – Diário Digital;

– O outro lado da ficção científica em Portugal – Revista Estante;

Eventos nacionais

– Há sempre tempo para mais nada – sessões de Leitura;

– AmadoraBD – Intergalacticrobot / Leituras de BD / Notas Bedéfilas;

– Recordar os esquecidos;

Resumos nacionais anteriores

– Outubro 2015

Setembro 2015

Julho / Agosto 2015

Bang! N.º 19 – Não ficção

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Cada lançamento de um novo número da revista é uma celebração. De distribuição gratuita e impressão a cores, peca em formato apenas no grande tamanho da página que dificulta o transporte e a leitura em qualquer sítio que não seja a nossa casa. Mas passemos ao conteúdo. É de realçar o texto introdutório de George R. R. Martin à antologia recentemente publicada, Histórias de Aventureiros e Patifes, bem como o texto de João Seixas sobre Ray Bradbury. Encontramos, também, interessantes referências a Shirley Jackson e Lovecraft.

A revista inicia-se com uma introdução mais política de Safaa Dib, fruto dos tempos que ocorrem, relacionando esta temática com a ficção científica. A esta, segue-se o usual texto do editor Luís Corte Real sobre a colecção Bang! que auspicia boas novidades para os apreciadores de ficção científica: Annihilation de Jeff Vandermeer (Hooray), A Balada de Antel (vencedor do prémio Bang|) e a publicação de Terrarium de Luís Filipe Silva e João Barreiros numa nova edição revista. Ficou apenas a faltar a referência a uma data prevista para The Fifteen Lives of Harry August, livro que a editora chegou a anunciar o pré-lançamento para o retirar de imediato. Esperemos, então, um pouco mais.

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Uma das mais belas e simples capas de Annihilation

Ainda que me entusiasmem mais os lançamentos de ficção científica, não é de esquecer os próximos de fantasia, com a antologia, já publicada entretanto, Histórias de Aventureiros e Patifes, organizada por George R. R. Martin; ou The Witcher de Andrej Sapkowski. A estas futuras publicações seguem-se sugestões de outras obras, como o The Martian, ou o Estação Onze (um excelente lançamento da Editorial Presença).

A Arquitecturas da loucura em que Jorge Palinhos fala um pouco de cinema de horror (bem a propósito do Halloween) segue-se um texto de Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell, Metais pesados. Ocupando uma página disserta sobre o snobismo da literatura dita séria em comparação com a literatura de género, escondida e marginalizada. Uma discussão que dá pano para muitas mangas – até porque quem se esconde da FC são essencialmente leitores de best-sellers que do género pouco ou nada sabem. Esta temática será novamente vislumbrada no artigo de João Seixas, em enquadramento distinto.

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A componente de não ficção continua com um bom artigo sobre Banda Desenhada por João Lameiras, sobre Simon du Fleuve, o herói da série de Claude Auclair, e com um artigo sobre cinema de horror de António Monteiro onde disserta sobretudo em torno do The Omen.

Todos adoram um patife é a próxima secção, o nome que foi dado para a transcrição do prefácio de Histórias de Aventureiros e Patifes, escrita por George R. R. Martin, um dos organizadores da antologia. Neste texto, George R. R. Martin aproveita para apresentar alguns bons vilões de cinema e de literatura que, decerto, farão o leitor procurar por alguns destes filmes e livros.

Apesar de não ser particularmente fã dos Iron Maiden (aprecio de algumas músicas, mas a globalidade da sua obra não corresponde aos meus gostos), achei interessante o artigo de Ricardo S. Amorim onde se destacam alguns dos temas literários integrados nos álbuns do grupo. Encontram-se assim referências tão variadas como Poe, Lovecraft ou C. S. Lewis, sobretudo de títulos de horror e ficção científica que terão sido aproveitados quer nas letras, quer nas capas.

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Seguem-se várias críticas a um dos mais recentes lançamentos fantásticos da Saída de Emergência, Rainha Vermelha de Victoria Aveyard, uma entrevista à autora e exposição de alguns factos e personagens que permitem introduzir à obra, cuja premissa exposta me recordou A Trilogia do Mágico Negro de Trudi Canavan (publicada em Portugal há alguns anos).

O Mythos Lovecraftiano nos jogos narrativos de Pedro Lisboa, debruça-se sobre um dos mestres do horror para dissertar sobre a influência nos vários meios que nos rodeiam, dando especial realce aos RPG’s.

De seguida, destaca-se o longo artigo sobre Ray Bradbury de João Seixas, O Futuro é hoje: alimentando as chamas, destruindo o cânone. Como não gostar de um artigo que, expondo alguns factos da vida do escritor, está carregado de referências às suas obras mais emblemáticas?

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Depois deste artigo, ponto algo da revista, os restantes surgem menos iluminados. O Trio Fantástico Carey, Durham e Hobb apresenta uma análise a três das sagas fantásticas que não me interessou o suficiente, o género de análise que possui variáveis como grau de paixão ou conflito que,  dissecando um pouco as séries, não é alto que goste de ler.

Figuras Clássicas do Terror traz-nos um conjunto interessante de ilustrações de monstros conhecidos, de diversos autores que referem um pouco sobre o método de criação da ilustração. Gostei particularmente do Olharapo e do Skeleton Army.

No final uma surpresa. A secção de Sugestões FNAC que já trouxe algumas referências insípidas, sugere agora Shirley Jackson, a autora de obras como Sempre vivemos no castelo ou The Lottery.

Em suma. Após 19 edições a Bang! continua de boa saúde e recomenda-se. Se considerarmos que a revista é gratuita, ainda mais. Notam-se novos nomes nos artigos, o que vai garantindo a introdução de novas ideias e conteúdos, mas nota-se, também, o aumento do conteúdo de propaganda às próprias obras da editora, Saída de Emergência. O que gostava que houvesse de diferente? Maior exposição do que se vai fazendo lá fora, e que quase não chega a Portugal.

Outubro de 2015

Estranha, mas felizmente, este mês parecem abundar as críticas a livros de ficção científica, com destaque para os recentes Arranha-céus de J.G. Ballard e Estação onze de Emily St. John Mandel. É bom que assim seja – são dois dos mais recentes lançamentos do género em Portugal e, apesar de não terem sido particularmente anunciados como tal, alimenta alguma chama de esperança de ver fortalecer o género por cá.

Por outro lado, foram, também, várias as críticas a livros muito mais antigos e quase esquecidos como A Guerra Eterna de Joe Haldeman ou a antologia Com a cabeça na Lua.

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Lançamentos nacionais relevantes

O Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Edições Asa;

Arranha-céus – J.G. Ballard – Elsinore;

Os últimos na terra – Robert C. O’Brien – Editorial Presença;

Os assaltos à Padaria – Haruki Murakami e Kat Menschik – Casa das letras;

– Colecção Marvel – Salvat;

Esquadrão da Luz – Peter Tomasi e Peter Snejbjerg – G Floy;

Saga Volume 3 – Brian Vaughan e Fiona Staples – G Floy;

Fatale Volume 3 – Ed Brubaker e Sean Phillips – G Floy;

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Críticas interessantes

Ficção científica

Stand on Zanzibar – John Brunner – Intergalacticrobot;

Arranha-céus – J.G. Ballard – Deus me Livro, As leituras do Corvo, Roda dos Livros;

The day of the Triffids – John Wyndham – Que a estante nos caia em cima;

O Marciano – Andy Weir – Letras sem fundo;

Comandante Serralves – vários autores – My very own lines;

Com a cabeça na Lua – vários autores – Leitora de fim-de-semana;

Solarpunk – vários autores – Nível Épico;

A Guerra Eterna – Joe Haldema – D’Magia;

Estação onze – Emily St. John Mandel – As leituras do Corvo, Viajar pela leitura;

The Hungry City Chronicles – Philip Reeve – Biblioteca mil;

Almanaque Steampunk – vários autores – Intergalacticrobot;

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Fantasia

Rainha Vermelha – Victoria Aveyard – Pedacinho literário;

A Terra das Lágrimas – Terry Goodkind – Deus me Livro;

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Banda desenhada

Demolidor: partes de um todo – David Mack – As Leituras do Pedro;

Living Will #1 – André Oliveira – Que a estante nos caia em cima;

The Walking Dead Vol.12 – Robert Kirkman, Charlie Adlard, Cliff Rathburn – aCalopsia;

Astérix e o Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Leituras de BD, Máquina de escrever;

– Revista H-Alt 1 – aCalopsia;

Homem-aranha: regresso às origens – J. Michael Straczynski – As Leituras do Pedro;

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Outros

Lisboa triunfante – David Soares – My very own lines, Nuno Ferreira;

O livro dos seres imaginários – Jorge Luís Borges – Deus me Livro;

Sete minutos depois da meia-noite – Patrick Ness – Floresta de Livros;

A sombra sobre Lisboa – vários autores – Nuno Ferreira;

Sr. Bentley, O Enraba Passarinhos – Ágata Ramos Simões – My very own lines;

O feiticeiro e a bola de cristal – Stephen King – Nuno Ferreira;

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Outros artigos

– Graphic Novels, ou a banalização de uma denominação – Leituras de BD;

– Quarenta andares de caos – Máquina de escrever (sobre o recente livro do Ballard);

– O Super-homem já não é Clark Kent. E é camionista – Observador;

– O Futuro é Agora –  Revista Estante;

– À noite, no Gerês, quem quer andar pelos caminhos das bruxas – Público;

– Prémio Hernâni Cidade para obra de João Rogaciano – Cultura ao minuto;

– Anúncio do vencedor do Prémio Divergência 2015;

– Festa chama três mil visitantes a aldeia com 17 moradores – DN;

– O Porto tem três novas livrarias e todas elas diferentes – Público;

Eventos nacionais

– FOLIO – DN;

Ciclo de conversas – confesso que li;

– Alice 150 anos;

– Recordar os Esquecidos;

Resumos nacionais anteriores

Setembro 2015

Julho / Agosto 2015

Junho 2015

 

 

Eventos: Inauguração Livraria Distopia

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Num dos locais mais privilegiados da cidade irá ser inaugurada, hoje, uma livraria de nome peculiar: Distopia. Esta nova livraria irá ter, para além de livros recentes, uma secção de usados e uma secção de livros em inglês.

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Mas não vendem só livros e não prevêm ter um papel passivo na venda de livros. Terão também música à venda, e prevê-se que dinamizem eventos literários como lançamentos, leituras infantis ou tertúlias temáticas.

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Curiosos? Eu estou. Para além de bem localizado, o espaço parece agradável e passarei por lá assim que tiver oportunidade. Para mais detalhes sobre o espaço e a sua localização exacta, podem consultar a página oficial.

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Assim foi: David Brin Lecture

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Chegada à livraria, é no andar de baixo que nos espera David Brin – um autor carismático com vários livros publicados em Portugal pela Europa-América, na colecção de ficção científica. Como em qualquer evento em Portugal esperaram-se mais dez minutos para além da hora não fosse alguém chegar atrasado e foi neste compasso de espera que aproveitei para questionar se o autor iria poder assinar livros. A resposta não só foi positiva, como o autor tratou logo de sacar da caneta e autografar os 13 livros que levei. Sim. 13. E ainda ficaram alguns cá por assinar.

 

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A sessão iniciou-se com uma introdução de Maria Paula, onde se resumem alguns dos princípios fundamentais de cada um dos livros de David Brin. Após este resumo David Brin começa por apresentar alguns dos livros que tenta espelhar nas suas histórias: resistência à autoridade, excentricidade, diversidade, tolerância e individualidade. Partindo destes princípios, e passando por clássicos como 1984 de Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley o autor continuou dissertando sobre a evolução da sociedade.

Após alguns minutos foram óbvias as bases em torno das quais rodavam as ideias apresentadas: a comparação entre a estrutura hierárquica fixa (triângulo típico característico da idade média) e a estrutura mais dinâmica em losango da sociedade actual; o ridículo da unidimensonalidade da política (esquerda e direita); ou o colectivo como suporte ao indivíduo. Entre estes conceitos é de realçar a opinião de David Brin sobre a vigilância em que refere que esta deveria servir para vigiar todos (ao menos seria igualitária).

 

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Mas houve mais. Ideias de como contornar a sociedade consumista ou breves noções da evolução do ser humano na literatura enquanto criador (de realçar os exemplos tradicionais de Frankenstein e Ilha do Dr. Moreau mas também A Guerra da Elevação do próprio autor). Finalmente, entre perguntas da audiência falou-se também do conceito de overmind, sendo perspectiva do autor de que esta poderia surgir como mais uma camada na psique humana, uma mente partilhada e comum.

Claro que estas são poucas linhas para descrever o muito que o autor falou de vários temas, alguns dos quais são visíveis nos livros, aproveitando o autor, também para publicitar o seu mais recente livro. Concordando-se (ou não) com algumas das ideias apresentadas, há que lhe dar o crédito devido – David Brin é um excelente orador que explorou algumas teorias interessantes de forma coerente, tendo esta sido uma sessão bastante envolvente, não só pela ficção científica, como pelas ideias expostas.

Maio de 2015

Aqui fica mais um resumo mensal sobre ficção especulativa em Portugal. Esta listinha resume o que achei mais interessante este mês em solo nacional (ou sobre projectos portugueses). Claro que se resume ao que tive acesso, existindo de certeza mais artigos que poderiam cá constar. Convido a deixarem novos blogs a seguir ou outros artigos que tenham achado interessantes.

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Lançamentos Nacionais Relevantes

Este foi um bom mês para os lançamentos nacionais:

O Grande Bazar – Peter V. Brett – Asa;

Número zero – Umberto Eco – Gradiva;

Os bebés de água – Charles Kingsley – Tinta-da-china;

A pedra das águas – Terry Goodkind – Porto Editora;

A espada de Shannara – Terry Brooks – Saída de Emergência;

Estamos todos completamente fora de nós – Karen Joy Fowler – Clube do autor;

O Dragão de gelo – George R. R. Martin – Gailivro;

Viagens de Chapéu – Susana Cardoso Ferreira – Oficina do livro.

Críticas interessantes

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Ficção científica

Dreaming 2074 – Vários autores – Intergalacticrobot;

The Lifecycle of Software Objects – Ted Chiang – Que a Estante nos Caia em Cima;

Wayward Pines – Blake Crouch – Livros, livros e mais livros;

O Guardião de Memórias – Lois Lowry – Folhas do Mundo;

Over the top – Vários autores – Intergalacticrobot;

Mais que humano – Theodore Sturgeon – Que a Estante nos Caia em Cima;

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Fantasia

Insonho: Durma bem – Vários autores – Que a Estante nos Caia em Cima;

Monstros fantásticos e onde encontrá-los – Newt Scamander – Deus me Livro;

A Ironia e Sabedoria de Tyrion Lannister – George R. R. Martin – Leituras do Corvo;

As Terras Devastadas – Stephen King – Nuno Ferreira;

A Lâmina – Joe Abercrombie – Livros, livros e mais livros;

O Dragão de gelo – George R. R. Martin – Deus me Livro;

Solomon – Carlos Pedro – aCalopsia;

Sete minutos depois da meia-noite – Patrick Ness – Uma Biblioteca em Construção;

Roy Just Wants to Have Fun – Victor Frazão – Uma Biblioteca em Construção;

Dias de sangue e glória – Laini Taylor – Deus me Livro;

Deixa-me entrar – John Ajvide Lindqvist – Livros, livros e mais livros;

Universos Literários – Vários autores – Floresta de Livros;

O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro – Deus me Livro;

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Banda desenhada

Mort Cinder – Héctor Oesterheld – Intergalacticrobot;

Bando de dois – Danilo Beyruth – As leituras do Pedro;

Saga (Vol. 1 e 2) – Brian Vaughan – Leituras de BD;

O Cavaleiro de Westeros – George R. R. Martin – Leituras do Corvo;

O Long Halloween – Jeph Loeb – Que a Estante nos Caia em Cima;

Fatale (Vol. 2) – Ed Brubaker e Sean Philips – As leituras do Pedro;

O livro do Mr. Natural – Robert Crumb – Intergalacticrobot;

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Outros

As Cidades Invisíveis – Italo Calvino – Nuno Ferreira;

A Alquimista das Cores – Aimee Bender – As Leituras do Corvo;

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Outros Artigos

– Quem tem medo de Palmer Eldritch – Máquina de Escrever;

– O Templo do Espírito Santo – Flannery O’Connor – Contos não Vendem;

– “Frankenstein” na Quinta da Regaleira – Câmara Municipal de Sintra;

– Entrevista a Lauren Beukes – Jornal i;

– Hazul por Hazul – Diário de Notícias;

– Reportagem Antena 1 sobre banda desenhada – RTP;

Science Fiction and Fantasy Books at Bivar Bookshop;

– 17 Imagens que colocam Portugal no Centro da Arte Urbana – Green Savers;

Eventos

– Outras literaturas: Ficção científica – Intergalacticrobot;

– Sustos às sextas V – Intergalacticrobot;

– Feira do Livro do Centro de Recursos Poeta José Fanha – Intergalacticrobot;

– XI Festival Internacional de BD de Beja – Leituras de BD – Fotoreportagem e Opinião;

– Tolkien: Constructor de Mundos – Viagem a Andrómeda [mini];

Recordar os Esquecidos;

Resumos mensais anteriores

Fevereiro 2015

Março 2015

Abril 2015

Assim foi: Outras literaturas – Banda desenhada

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Infelizmente cheguei tarde, mas ainda foi o suficiente para que a discussão se debruçava sobre o impacto político, consciente ou inconsciente, do trabalho de cada um dos autores, Anton Kannemeyer, Marcelo D’Salete e Posy Simmond, enquadrando-se esse impacto nos países onde forem publicados. Discussão interessante, apesar deconsiderar também bastante importante o “simples” aspecto lúdico e criativo da banda desenhada.

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No final, houve perguntas! Bastantes, o suficiente para terem de dizer “só mais esta”, o que é raro de ocorrer. E aqui falou-se das novas tecnologias, e da sua utilização (ou não) na criação das pranchas, prosseguindo-se para disponibilização virtual desse trabalho. Apesar do curto tempo que pude assistir é de realçar as boas condições do espaço (com traduções em simultâneo), e o quão composta estava a sala (apesar da fotografia apenas mostrar a parte mais vazia).

Este é o tipo de iniciativas que se querem ver mais por cá, com autores reconhecidos internacionalmente nos vários géneros da literatura, um interesse que tinha sido esquecido há muito pela fundação Gulbenkian. Esperemos que esta seja apenas a primeira de muitas.