De título curioso, no mínimo provocador, este Ficção Científica Capitalista foi lançado recentemente em Portugal pela Limoeiro Real, estando disponível na Feira do Livro de Lisboa pela Tigre de Papel. Houve, também, uma sessão de lançamento com presença do autor.

Claro que a ficção científica, ao explorar possibilidades no ramo da imaginação, mas compondo-as com a vertente científica, vai ser usada para materializar estas possibilidades em invenções e avanços tecnológicos. E, claro, que existem autores que o fazem propositadamente, sobretudo quando possuem uma formação científica, e que até colaboram com grandes corporações para criar novas hipóteses, algumas delas ao serviço dos grandes capitais e contra as populações. Mas se esta vertente não era totalmente surpreendente, apesar dos exemplos interessantes fornecidos pelo autor, faltou-me perceber quais as alternativas a que as grandes corporações usem a ficção ao serviço do capitalismo, até porque, não vamos deixar de imaginar.

O livro encontra-se composto com exemplos de obras de ficção científica que foram usadas, seja como inspiração, seja como plano de concretização, focando-se sobretudo naquilo que poderão ser os exemplos mais abertamente capitalistas. Adicionam-se, também, alguns exemplos mais bem intencionados, mas que falham um pouco na abordagem. Como Ecotopia (que juntei à minha lista de futuras aquisições) onde se cria uma nação verde, mas cuja tecnologia, importada, terá uma origem altamente poluidora. O exemplo compõe-se com as baterias de lítio usadas nos carros eléctricos.

Num pouco conhecido, mas revelador artigo, intitulado «La fin des guerra navels», Verne declarou que o escritor de ficção científica «escreve no papel o que depois outros esculpirão em aço», assentando assim as bases de um procedimento criativo que concebia a escrita como estado preliminar da siderurgia, o livro como veículo transitório, como prólogo, apenas, com olhos postos na máquina, e que abria caminho para uma inovadora sociedade criativa entre literatura e engenharia.

Neste sentido, acho que se mistura o conceito de inovação com capitalista, dando este propósito a qualquer invenção. A meu ver, o problema estará mais na forma como as invenções são protegidas e mantidas em empresas de grandes dimensões, do que propriamente na imaginação e na concretização da invenção – vertente que o autor deveria, a meu ver, tem explorado mais. Veja-se, por exemplo, os preços exorbitantes que alguns medicamentos atingem, não porque sejam caros de produzir, mas por são vendidos e comercializados num sistema capitalista. Continuando no seguimento deste raciocínio, existem várias obras de hard sci-fi com contornos pouco capitalistas, mas cujas ideias descritos podem ser usados por grandes empresas para os seus propósitos capitalistas – existem milhares de realidades imaginadas mais positivas e proveitosas para a humanidade, porque pegar apenas nas realidades distópicas?

Partindo da definição de Júlio Verne, o autor apresenta o argumento de que, afinal, a ficção científica não será literatura

E se, alguma vez, um purista das Belas Letras julgou que a ficção científica não era de todo literatura, este artigo afirma justamente que esse alguém tinha razão, posto que o triunfo formal da ficção científica, para Verne, consistia em sacrificar a sua forma literária em favor de se tornar objectivo científico-técnico. E tal como o dramaturgo coloca no papel diálogos que depois directores e atores levarão a cena, para Verne, o escritor de ficção científica também deveria interpretar esse papel intersticial, o de espécie de guionista de novas tecnologias, que, depois engenheiros, constructores e outras máquinas tornariam realidade numa fábrica.

A deambulação narrativa em torno de Verne continua, focando-se nas suas invenções e na forma como a ficção levou à sua implementação, e, mais tarde, nos tradicionais autores de hard sci-fi, mais na sua vertente masculina. Então e a ficção científica que não é propriamente hard, e que se foca nas ciências sociais, fica onde? Afinal é capitalista ou não é capitalista? Ou só é capitalista se falar de invenções tecnológicas que são construídas na vida real, independentemente da forma como são usadas, comercializadas ou disponibilizadas?

Fala, também, tangencialmente de Mary Shelley. Mais para referir as alterações climáticas do ano sem Verão que levaram à escrita do livro, mas sem referir que é uma das primeiras obras considerada como ficção científica, cujo título se compõe com O Prometeu Moderno, um género de alerta para os perigos da tecnologia desenvolvida por humanos, quando estes se querem colocar ao nível dos deuses. Seria uma boa referência para mostrar como existem obras de ficção científica com auras antagónicas ao endeusamento humano proporcionado por alguns autores de ficção científica (contrapondo as páginas anteriores onde se referem seres humanos que se regozijam em contribuírem para as alterações climáticas, o que demonstraria o poderio humano).

Este método de arrefecimento é causado, de maneira natural, pelas erupções vulcânicas, ainda que, em geral, o façam de modo catastrófico, como se viu na famosa erupção de 1815 do vulcão indonésio Tambora, que reduziu a temperatura global entre 0,4 e 0,7 ºC. Este acontecimento foi a causa do célebre «ano sem Verão» (1816), que desencadeou em todo o mundo a fome, as epidemias, mortes por congelamento e, durante o qual Mary Shelley se recolheu para escrever Frankenstein.

Depois de estar muito focado na Golden Age e em alguns autores mais vincadamente Hard Sci-fi (remetendo as mulheres para duas referências rápidas) passa à confusão da pseudociência, e às teorias onde os ovnis terão participado no desenvolvimento de várias civilizações – a meu ver uma referência desnecessária, até porque pseudociência não é ficção científica, uma confusão que já causou várias confusões com leitores que evitam o género exactamente por esta mistura.

O autor redime-se um pouco nas últimas páginas onde fala de uma potencial cooperação com SpaceX e onde refere

Porém, face à possibilidade de um convite semelhante, dei-me conta de que em nenhum momento me debruço sobre ficção científica que sulque um caminho diferente àquele da colaboração empresarial.

Talvez exactamente por concordar e discordar, em momentos diferentes da dissertação, a leitura é interessante e provocadora. De realçar que o autor ganhou o prémio Locus para melhor novela traduzida, uma história gaucho-punk que decorre em 2197 e que apresenta uma sociedade ultra-capitalista à beira do colapso climático. Curioso, no mínimo.