Eis um dos recentes lançamentos da Ala dos Livros, revelando uma história centrada num relacionamento amoroso em momento de decisões. O desenho, expressivo, acompanha a narrativa dando-lhe uma aura tosca e bem humorada, contribuindo para a transmissão de sentimentos ao leitor. O resultado é uma leitura envolvente que explora os relacionamentos longos e a forma como evoluem. Ou não.
A história acompanha um casal pronto a ir de férias. Enquanto ela, Aimée, planeia os mais ínfimos detalhes, ele, Ulysse, gostaria de partir com menos planos e mais espontaneidade. Esta diferença de perspectivas leva a algumas divergências e frustrações, sendo que cedo percebemos que o problema subjacente está na incerteza das respectivas carreiras, colocando-os num impasse e confrontando-os com escolhas difíceis. Ulysse sabe que tem de mudar de rumo e por agora a única coisa que tem certa é a vontade de querer ver o Peixe Lua. Ela parecia ter o futuro planeado, mas o confronto de ideias leva-os a perceber que poderão ter de se colocar em diferentes geografias. Estão nitidamente em posições diferentes em relação ao futuro e tal pode influenciar o relacionamento.



Mas claro que nem tudo neste viagem vai correr conforme planeado. A carrinha avaria. A reserva no parque de campismo foi feita para as datas erradas. Pelo meio recebem ajuda de um velhote que se demonstra pronto para os acompanhar e levar, justificando que precisa de ajuda para a condução. Já nesta vertente, existem outros motivos ocultos, uma desconfiança de Aimée, sempre mais reservada em relação a estranhos.
A viagem torna-se em algo mais do que o seu objectivo inicial. Começa como um confronto de perspectivas, passa por tentativas de comunicação (algumas delas frustradas ou frustrantes) e por retrospectiva antes de fechar com certezas futuras. Claro que a progressão será acompanhada por episódios mirabolantes, planos falhados que resultam em interacções empáticas, nas quais se desenvolvem amizades e aprofundam relacionamentos.



O tema principal é, obviamente, o relacionamento. Por um lado, estamos a falar de um relacionamento longo, no qual as duas pessoas se transformam ao longo dos anos, percebendo que actualmente pretendem algo diferente do que aquilo que era o seu objectivo inicial. Por outro lado, estas transformações levam a incertezas e, claro, a dificuldades na comunicação. A viagem revela alguns problemas de coordenação, mas estes problemas são, na realidade, uma consequência de algo mais que deveria ser conversado.
Neste caso, a saída da rotina, o confronto com um espaço diferente e com os contratempos, acaba por levá-los a comunicar, a perceber que poderão estar num impasse, mas também a explorar medos, desejos e perspectivas. É aqui que Longe dá espaço às personagens, proporcionando-lhes a possibilidade de se desenvolverem e evoluírem. O relacionamento está a ultrapassar uma época de desgaste, mas Aimée e Ulysses mantêm sentimentos um pelo outro, pelo que, apesar das frustrações, se comportam de forma globalmente madura, controlando possíveis tempestades emocionais.



Longe resulta numa narrativa intimista, uma leitura que funciona como uma janela para um relacionamento desgastado mas ainda com potencial emotivo, demonstrando as dificuldades individuais que resultam na falta de comunicação. Como indiquei anteriormente, o desenho acompanha este tom, exagerando nalgumas expressões e contribuindo para o entendimento das emoções das personagens envolvidas.
