
O The Goblin Emperor entrou facilmente para a lista de melhores livros tempos, apesar de ser um livro pausado, centrado numa personagem algo ingénua que, tal como nós, se está a habituar a uma nova realidade. Filho exilado do Imperador, não esperava vir a ser o sucessor, e muito menos no seguimento de um horripilante acidente que envolveu a família real. Integrando-se na vida da corte (à qual não está habituado) a história apresenta várias audiências, reuniões, cerimónias e decisões administrativas, tornando-se fascinante pela forma como as interacções desenvolvem vários níveis de interpretação. É no mesmo Universo que decorre uma nova trilogia, que se inicia com este volume, The Witness for the dead – e se o primeiro era muito centrado na etiqueta da corte e algo pausado, este é bastante mais movimentado e fornece novos elementos sobre o mundo e as várias camadas sociais.
Esta trilogia centra-se em Thara Celehar, uma testemunha dos mortos. Esta ocupação, apesar de necessário, nem sempre é bem vista. Thara é capaz de falar com os mortos, colocando questões directas que serão tão melhor respondidas quanto menos tempo tiver passado desde a morte. Se, em The Goblin Emperor, Thara servia o Imperador (missão que leva ao afastamento da corte) aqui encontra-se na cidade, servindo qualquer habitante que precise dos seus serviços.
Thara é um homem humilde que não procura riquezas na sua profissão. Este facto faz com que não seja a figura mais apresentável da cidade, ainda que seja chamado por qualquer classe social que precise dos seus serviços. O seu estatuto é incerto, e a quem reporta também. Esta incerteza leva-o a ter de ser diplomático, afastando-se ou evitando algumas interacções, cedendo por vezes em situações que o colocam em preocupações desnecessárias.
A história começa por apresentar o assassinato de uma cantora de ópera – famosa mas que gostava de viver no perigo. Deslocando-se ao teatro, e sabendo que a cantora foi agredida depois de cair ao rio, Thara tem o árduo trabalho de questionar todos os que a conheciam, tentando perceber que ligação poderão ter com a morte. Mas em paralelo vão surgir vários casos – uma mulher recém casada que provavelmente foi envenenada pelo marido desaparecido, o testamento questionável de uma família relevante, ou lidar com ghouls que, noutra cidade, se levantam dos seus túmulos para devorar os vivos.



Apesar de ter adorado o The Goblin Emperor, gostei ainda mais deste The Witness for the dead. Se o outro “pecava” pela excessiva centralização na intriga da corte, apresentando conspirações e duplos sentidos em todas as interacções, este liberta-se desse cenário, e, ainda que apresente interacções deste tipo (sobretudo no que diz respeito ao seu estatuto incerto), decorrem várias outras, mais palpáveis, até de quase amizade, apesar de ter uma ocupação que poucos parecem apreciar.
Outro ponto principal é a acção. The Goblin Emperor é uma história mais pausada e, até, introspectiva, onde acompanhamos o novo Imperador nos seus pensamentos, memórias e interpretações. Este volume é bastante mais carregado de acção, acompanhando Thara no seu quotidiano, oscilando entre casos e tendo, por vezes, alguns episódios onde se denota a tensão do perigo – não só porque a sua ocupação o levar a investigar assassinatos, mas também pelos confrontos com os monstros comedores de cadáveres.
Tal como o Imperador em The Goblin Emperor, Thara é uma personagem mais humilde do que deveria ser para sua posição. Neste caso, claro, isso vai funcionando a seu favor. Mas é, também, uma personagem mais mirabolante, dramática, compassiva, e, até, caricata. Evita frequentemente os confrontos, bem como as personalidades demasiado importantes, mantendo a sua rota de servir qualquer um que dos seus serviços precise – desde enterros a investigações, passando pelo enfrentar dos ghouls. É, portanto, uma personagem menos trágica do que o Imperador e com quem é mais fácil empatizar, havendo frequentemente observações cómicas que aligeiram a narrativa.
Nomeado para os prémios Locus e Mythopoeic, The Witness for the dead vai figurar decerto entre as minhas leituras favoritas destes meses. Podendo ser lido de forma independente de The Goblin Emperor, explora um mundo onde existem várias classes sociais e expectativas na dinâmica de interacções, sendo que a personagem, dada a sua profissão, acaba por interagir com várias em diferentes circunstâncias. A história usa uma perspectiva pouco usual para nos mostrar o mundo, focando-se nos que têm um desfecho pouco conclusivo, seja por assassinato, seja porque os descendentes precisam de informação do defunto. A profissão de Thara permite explorar diferentes realidades, ao mesmo tempo que lhe confere uma actividade movimentada que dá um ritmo interessante à narrativa. Sem dúvida uma das grandes leituras deste Verão.