
Finalista para o prémio Locus de melhor novela, The Orb of Cairado decorre no mesmo Universo ficcional que The Goblin Emperor ou a trilogia Chronicles of Osreth. No entanto, não se centra no Imperador, nem em Thara, a testemunha dos mortos, mas numa nova personagem. Essa foi a principal razão de não ter apreciado devidamente esta história, dado que estava a ler a Chronicles of Osreth e as referências indicavam ser um livro nessa sequência. Ainda que temporalmente faça sentido, para quem procura ler a trilogia, não aconselho colocar este livro no meio.
A história centra-se em Ulcetha, um jovem que tentava tornar-se historiador, mas que se vê caído em desgraça ao ser acusado do furto de um artefacto valioso. Provas? Nenhumas. Mas a sua condição social deixa-o susceptível. Esta situação não o afecta só profissionalmente, mas também a nível pessoal com quase todos os amigos a afastarem-se – excepto um. Mas quando a nave do Imperador explode, o amigo encontra-se entre as vítimas.
Uma visita da recém viúva traz-lhe algo inesperado, a peça de um quebra-cabeças que o levará ao artefacto roubado, este também peça para um mistério histórico que irá tentar desvendar com a ajuda de outro historiador. Segue-se um percurso tenso e perigoso, com direito a homicídios, falsificações e trapaças históricas impensáveis.
A narrativa usa o mesmo Universo dos restantes livros para mostrar a forma como as tensões sociais se fazem sentir, concedendo privilégios a algumas classes e, consequentemente, acesso a justiça e a dignidade. Enquanto o primeiro volume, The Goblin Emperor, mostrava esta diferenciação entre goblins e elfos, e a trilogia centrada na Testemunha da Morte mostra as dinâmicas sociais se desenrolam, este, explorando uma nova personagem remete-nos para a incapacidade em defender a própria honra perante uma acusação infundada e sem provas.
Olhando para a dinâmica da história, esta consegue ser ainda mais movimentada do que as restantes, fruto das circunstâncias da personagem principal, que se vê como protagonista de uma expedição arqueológica perigosa, com um ambiente que recorda Indiana Jones, onde não faltam ruínas com passagens secretas, perseguições e mortes misteriosas. A história explora os limites da legalidade e do bom senso com a criação de documentos falsos e com o roubo de artigos que existem onde não deveriam.
A história explora os limites da integridade, onde alguém se vêm em circunstâncias difíceis e se vê obrigado a adoptar uma postura mais flexível, mas também mostra como esta flexibilidade não é nada quando confrontada com aqueles que, por serem considerados socialmente superiores, optam por acções ilícitas, com graves consequências a vários níveis. Explora-se, também, a verdade e a reconstrução de circunstâncias passadas, tanto na perspectiva da personagem, como numa perspectiva de recuperação histórica. Nesta componente, destaca-se a simbologia histórica de determinados objectos que podem constituir uma forte âncora cultural para algumas cidades.
Mais pequeno do que os restantes livros que decorrem neste Universo, The Orb of Cairado é mais movimentado, conferindo uma nova perspectiva às interacções sociais, e mostrando como as origens têm forte influência no percurso de alguém, mesmo na vertente académica. Adicionalmente, explora questões como passado e história, mas sem lhes dar tanto palco que comprometa a fluidez narrativa. Como comentado anteriormente, apesar de ter gostado, julgo que teria apreciado mais se tivesse lido depois dos outros, dado centrar-se numa nova personagem.