Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (5)

144 – O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira – eis mais um grande exemplo de boa ficção científica publicada pela Imaginauta num formato acessível (em preço) e de fácil transporte. O conto de 12 páginas centra-se na distância temporal criada pelas viagens espaciais, mostrando dois amigos que não se vêem há uma viagem – um no auge da sua juventude, outro velhote e melancólico;

145 – Joe The Barbarian – Grant Morrison e Sean Murphy – Após a morte do pai, a mãe luta para manter o tecto sobre a cabeça dela e do filho. Já o rapaz, que é diabético, soturno, é marginalizado pelos restantes rapazes. Resta-lhe sonhar pelos seus desenhos, até ao dia em que se materializa noutro mundo fantástico onde a sua presença é fulcral;

146 – Seis drones – António Ladeira – Falhei o lançamento na Barata por distração mas ainda assim comprei um exemplar. As referências a várias obras de ficção científica revelam que o autor sabe o que está a escrever e efectivamente os seis contos que apresenta parecem ter inspiração nos clássicos – Orwell, Bradbury, Dick. O resultado é bom, com pontinhas de ironia relativamente à tecnologia e à possibilidade de servirem de forma de controlo das populações;

147 – Portais – Octavio Cariello e Pietro Antognioni – Esta banda desenhada de ficção científica foi lançada há alguns meses, mas só agora a li. Visualmente bastante boa, possui uma história futurista com portais entre épocas diferentes que visam transportar elementos decisivos para a luta por um trono distante.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (4)

140 – O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado – Uma série de contos de ficção especulativa, com elementos de ficção científica, fantasia e horror, que apresentam personagens com diferentes sexualidades e nas quais a sexualidade é parte da história, como algo natural. Estes contos podem servir de ponto de partida para discussões mais profundas sobre dinâmica de género ou de relação, ou podem ser simplesmente apreciados conforme se apresentam;

141 – Cicatriz – Sofia Neto – Enquadrado no género da ficção científica, apresenta um futuro em que a o sociedade é dividida. Alguns escolheram permanecer dentro das cidades, com acesso a todas as componentes tecnológicas, enquanto outros ficam nos campos. Duas realidades fechadas, alimentando rumores sobre a outra metade que é demonizada sobre os aspectos mais propícios. Uma leitura interessante e inesperada ainda que saiba a pouco a incursão neste mundo;

142 – Tatuagem – Hernán Migoya e Bartolomé Seguí – Adaptação de um romance policial, apresenta alguns clichés do género, fazendo piada sobre estes mesmos aspectos comuns a tantas outras obras de ficção policial. A personagem principal é um homem que não perde a oportunidade de se aproximar de mais uma donzela, aliás, algo que partilha com o homem de quem procura a identidade;

143 – O jogo – Carmo Cardoso e José Machado – Trata-se de um dos mais recentes contos de ficção científica publicados na colecção Barbante que nos apresenta a situação limite de uma vida dependente do resultado de um jogo.

O jogo – Carmo Cardoso & José Machado / O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira

Eis os mais recentes contos publicados na colecção Barbante! Tratam-se de duas histórias de ficção científica, a primeira uma história com traços de horror, na perspectiva de um prisioneiro que joga sabendo que o preço a pagar pela derrota é a vida. Decorrendo no futuro, é um malicioso jogo gerido por alguém que detém todo o poder.

O segundo conto foi o que mais me cativou (tanto que falei dele na palestra sobre ficção científica portuguesa no Sci-fi LX). Nesta história um homem visita um amigo, mas tendo viajado pelas estrelas apenas umas semanas encontra-o velhote, pois, para ele, passaram décadas. O conto usa a relatividade do tempo. O tema não é novo mas é tratado de forma envolventee provoca uma certa nostalgia no leitor.

A colecção Barbante é publicada pela Imaginauta e lança pequenas histórias enquadradas nos géneros da ficção especulativa neste pequeno formato, permitindo a disponibilização bastante acessível (50 cêntimos) de boas histórias. A colecção encontra-se aberta a submissões e, claro, os autores publicados não têm de pagar nada pela publicação das suas histórias.

Resumo – 2º trimestre de 2018

Se o primeiro trimestre já tinha começado bem, este segundo permitiu a consolidação das novas vertentes do Rascunhos, apesar dos contratempos pessoais (mudança de casa e novos projectos profissionais). As visualizações ultrapassaram as 26 000 mantendo a tendência do primeiro trimestre, e continuei com a nova vertente do Rascunhos na rádio (na Voz Online, onde falei sobre livros, sozinha e acompanhada, bem como de eventos como o Sci-fi LX – os programas encontram-se disponíveis também na Mixcloud). A componente de jogos de tabuleiro prosseguiu mais lentamente, mas estabeleci a minha primeira parceria de jogos (A Floresta Misteriosa).

EVENTOS

O evento que marcou este segundo trimestre foi definitivamente o Festival Contacto. Apesar de ter decorrido apenas numa tarde em Benfica (num local priveligiado, o Palácio Baldaya) forneceu grande momentos de diversão para todas as idades, com a Escape Room da Liga Steampunk, jogos de tabuleiro diversos, lançamentos de livros, lutas de sabres – entre outros. De destacar o espaço ao ar livre e a existência de um bar de apoio que permitiu a permanência no evento durante toda a tarde.

Este trimestre foi, também, a minha estreia no Lisboacon (sobre este evento falarei mais detalhadamente nos próximos dias). Trata-se de um evento focado exclusivamente em jogos, sobretudo em jogos de tabuleiro (tendo, também, RPG’s) onde se pode experimentar uma enorme diversidade de jogos e adquirir outros tantos a preço mais acessível do que é comum nas lojas. Outro evento que marcou o trimestre foi o breve retorno do Sustos às sextas (ao qual não pude comparecer).

Alguns dos jogos disponíveis no Lisboacon

Mas os últimos trimestres também prometem! Aproximam-se o Sci-fi LX e a Comic Con Portugal, e começaram a ser anunciadas algumas novidades para o último trimestre do ano – Fórum Fantástico e Festival Bang!

LIVROS E BANDA DESENHADA – Portugueses 

Com o mesmo número de leituras do trimestre passado (cerca de 60) destaco, de autoers portugueses, Comandante Serralves – Expansão, The Worst of Álvaro e Han Solo. O primeiro é uma continuação da primeira antologia Serralves, contendo contos Space Opera de vários autores num mesmo Universo. Esta antologia destaca-se pelos elementos portugueses na sua narrativa, desde o humor às expressões e alguns detalhes culturais das personagens.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Worst of Álvaro apresenta as piores tiras de Álvaro, num  conjunto divertido que começa com uma paródia certeira às seitas religiosas que realizam espectáculos de diversão (e engodo) nas suas cerimónias. Han Solo de Rui Lacas destaca-se pela expressividade das personagens, criando uma história envolvente com poucas palavras.

LIVROS

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado por bons lançamentos de ficção especulativa (não em grande quantidade, mas o que tem havido é de qualidade) e este trimestre li, sobretudo, as novidades publicadas no mercado português. A Cavalo de Ferro surpreendeu com o lançamento de um clássico de horror de Shirley Jackson, A Maldição de Hill House. Não sendo a melhor leitura desta autora, apresenta uma história claustrofóbica que nunca se afimar sobre a origem dos supostos detalhes sobrenaturais, deixando a possibilidade de várias interpretações para o autor.

Num tom bastante diferente, Os Humanos é um relato divertido de um alienígena que tem de se integrar como humano para limpar as pistas de uma importante descoberta científica. Proveniente de uma sociedade bastante diferente, onde os indivíduos são imortais e poderosos, a perspectiva do alienígena é, simultaneamente, perspicaz e cómica.

 

 

 

 

 

 

 

 

Tendo no título a palavra Love, Love Star corre o risco de ser incluído na secção de romance fofinho e cor de rosa (como já o vi). Não poderia ser uma classificação mais enganadora. Love Star apresenta uma sociedade onde a tecnologia se aliou à publicidade com a perspectiva de responder a todas as necessidades de consumo da população, apresentando produtos inovadores como a disposição de corpos humanos em foguetes para serem incinerados automaticamente quando entrem novamente na atmosfera. Trata-se de uma história interessante carregada de reviravoltas irónicas, carregadas de crítica social.

O Poder é outro dos grandes lançamentos deste ano. Bastante aclamado no estrangeiro, apresenta uma reviravolta no equilíbrio de poder nas sociedades humanas – e se as mulheres tivessem a capacidade de electrocutar? O poder surge sobretudo em situações de violência física e psicológica contra mulheres, resultante numa reviravolta interessante. Deste surgir por necessidade ao exercício de poder, a história apresenta novos equilíbrios e desequilíbrios.

 

 

 

 

 

 

 

 

Amatka é, também, um lançamento inesperado para o mercado português, contendo uma sociedade distópica onde os objectos têm de ser constantemente marcados para manterem a sua forma e funções. Quem teme a morte de Nnedi Okorafor não é uma leitura deste ano (li-o em inglês em 2015) mas é um grande lançamento em Portugal. Trata-se de um dos grandes exemplos de afrofuturismo que não teme tratar de temas como o controlo das mulheres através da castração ou como a luta entre populações através das violações que visam diluir o sangue dos vencidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em inglês, destacou-se The Tangled Lands, um livro de fantasia pouco optimista em que o exercício de magia tem um preço muito elevado e onde o destino das personagens nunca é o programado, com contratempos e reviravoltas difíceis. Já The Martian in the Wood é um dos contos da TOR.com e centra-se num mundo pós Guerra dos Mundos de H. G. Wells, mostrando a vida dos que sobreviveram e como tentam lidar com o desaparecimento dos familiares – mas… nem todos os alienígenas conseguiram abandonar a Terra!

BANDA DESENHADA

A colecção Novela Gráfica ainda agora começou e já proporcionou duas das melhores leituras dos últimos meses, Os Guardiões do Louvre de Taniguchi e Aqui mesmo de Tardi. O primeiro centra-se no Louvre, enquanto museu e espaço que sofreu alterações, falando de alguns autores que influenciaram artistas japonses. Trata-se de um trabalho a cores que dá grande representação a algumas obras clássicas captando o seu próprio estilo. Não sendo dos trabalhos favoritos do autor em termos narrativos, fascina pelo grafismo.

Aqui mesmo (que ainda não tive oportunidade de comentar detalhadamente) é um trabalho excelente que pode ter interpretações políticas (ainda que o autor, na sua introdução descarte grande parte delas), centrando-se numa personagem demasiado agarrada ao passado, traumatizada com as guerras entre famílias e por isso, decidida a manter a sua posição desconfortável, nem que para isso deixe de ter vida própria.

Não tendo lido o romance original no qual se baseia, Afirma Pereira é um fascinante retrato da sociedade portuguesa antes do 25 de Abril mostrando como se exercia influência, poder e medo sobre a população e, neste caso, sobre a classe jornalística portuguesa.

Outra das colecções lançadas pela Levoir foi a colecção Bonelli em que se lançaram álbuns representativos das colecções italianas da editora Bonelli. Em geral são álbuns que dão especial destaque à narrativa, bastante movimentados e centrados em heróis peculiares. Dragonero foi dos meus favoritos contendo referências às mais clássicas séries de Fantasia. Já este volume de Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos, destaca-se pela introdução de Filipe Melo e contém uma diversidade interessante das histórias deste herói com um grafismo competente onde não se podem esquecer os efeitos sobrenaturais e fantásticos.

Próximos tempos? Espera-me o Sci-fi LX, com duas palestras, uma sobre ficção especulativa nacional e outra sobre robots (com João Barreiros), muitos livros e muitos jogos de tabuleiro!