Apesar de este livro estar na minha lista de futuras aquisições há bastante tempo, convenci-me a apreçar-me na aquisição e na leitura após Automatic Noodle, uma pequena história confortável (cozy) de ficção científica que agradou bastante pelo tom e pela forma como explorou os robots num futuro próximo, tecendo paralelismos à discriminação que existe em relação a algumas origens. Claro que ajudou já ter lido The Terraformers, livro que se tornou uma das melhores leituras do ano em que o li, ainda que tenha umas arestas para limar. Este The Future of Another Timeline é um livro sólido, ainda que não seja de fácil ou agradável leitura – não tanto pela escrita, mas pelos temas abordados que são, claro, incómodos.

A história centra-se numa viajante do tempo, Tess, uma académica que viaja entre várias épocas escrevendo artigos sobre vários momentos relevantes. Mas mais do que isso, faz parte de um grupo de mulheres que tenta mudar alguns elementos chave. Este grupo não estará sozinho. Enquanto tentam mudar episódios marcantes para fazer com os direitos das mulheres se fortaleçam e se desenvolvam de forma mais assertiva e em décadas anteriores, percebem que existe um grupo de homens (designados por Comstockers) que está a trabalhar na direcção oposta, chegando mesmo a matar uma das mulheres do grupo.

Em paralelo, a história apresenta a história de uma adolescente que, sofrendo abusos físicos e psicológicos em casa, é altamente controlada. Mas, claro, este controlo não evita que acabe em confusões – principalmente quando, após um concerto, o acompanhante de uma amiga a tenta esganar e violar. Ao tentarem defender-se acabam por matar o agressor e descartar-se do corpo. Este episódio inicia uma sucessão de outros de abuso e violência.

A história cruza experiências individuais de violência contra as mulheres, com acções mais públicas e sociais contra os direitos femininos. Numa perspectiva mais pessoal percebemos como o abuso é normalizado e perpetuado, por vezes, ocultado como padrão. Abusadores em série são escondidos, e a própria polícia evita a investigação concreta, pelo menos nos anos 90, onde decorre a linha temporal da adolescente. Nesta vertente, percebemos também como o acesso ao aborto condiciona as possibilidades das mulheres.

A linha narrativa que apresenta Tess não é mais suave em conteúdo. Viajando para o século XIX, onde Anthony Comstock exerce uma forte pressão social para banir materiais relacionados ao controlo da natalidade, a académica irá reunir várias fortes figuras femininas para tentar reduzir a influência que Comstock terá na repressão dos direitos das mulheres e no controlo dos meios contraceptivos. A questão não é só moral e religiosa, como existe, nitidamente, ódio por tudo o que feminino. De forma mais residual, exploram-se também os preconceitos culturais e o ódio racial. Será esta figura histórica, Comstock que influenciará o grupo de viajantes do tempo, de uma época mais futura à de Tess, que pretende manipular eventos no sentido oposto.

Percebemos que a história pode ser mudada, contornando-se o usual conceito de paradoxo. Existem diferentes teorias académicas em como ume pequena mudança, algo pontual, se vai auto-corrigir ao longo da história. Mas será que pequenas mudanças, acumuladas, permitem mudar grandes acontecimentos? É o que o grupo de mulheres, principalmente Tess, vai tentar fazer, instigando, de alguma forma, o afastamento de Comstock da opinião pública. A operação vai envolver pessoas da época que sofrerão algumas consequências pelo envolvimento, explorando-se a realidade dos sanatórios, autênticos centros de tortura.

Um dos aspectos diferenciadores deste livro é a forma como desenha as máquinas do tempo. Não são invenções da humanidade nas linhas temporais exploradas, antes estruturas que existem na Terra deste os primórdios do tempo, desconhecendo-se a sua origem. Existem, portanto, funcionalidades desconhecidas e que vão ser mostradas por pessoas vindas do futuro. Para além do papel óbvio das máquinas nesta Guerra do tempo, elas serão directamente usadas pelos Comstockers não só para viajar, mas para tentar cristalizar uma determinada versão da história.

Outro aspecto distintivo na abordagem das viagens do tempo é a forma como se distinguem impactos individuais e globais nas viagens do tempo, contornando-se paradoxos, mas sendo possíveis consequências para quem altera o seu próprio passado. Para as restantes alterações, cada viajante vai manter a sua memória dos acontecimentos, havendo no grupo de académicas que estudam a história o cruzamento de diferentes versões de forma a perceber a evolução de acordo com as alterações efectuadas. Por último, a história centra-se mais no aspecto prático das viagens, ocultando as questões mais teóricas sob a premissa de que se desconhece a origem das máquinas.

Entre as duas histórias, que se interligam e a comparação com um futuro distópico, longínquo de mulheres reprodutoras sem mãos, percebe-se a existência de uma violência normalizada em relação às mulheres, por vezes física, noutras psicológica. A violência é desculpada e ocultada, quase normalizada, pelas mais diversas autoridades, das mais variadas formas. É por este motivo que, apesar de ser uma boa história, com aspectos históricos interessantes e apresentando uma variação curiosa às viagens no tempo, se torna um pouco cansativa a nível psicológico, pela intensidade de agressões a que vamos assistindo.