The Golden Age – Michal Ajvaz

A Dalkey Archive Press é uma editora sem fins lucrativos, que se propõe a publicar livros pouco usuais que, de alguma forma, provoquem desconforto ao leitor pelas ideias que transmitem, não o deixando indiferente à história. Entre os autores podemos encontrar alguns portugueses como Gonçalo M. Tavares ou António Lobo Antunes. A editora tornou-se-me conhecida através do livro The Other City de Ajvaz, um dos melhores livros que tive oportunidade de ler em 2009. Assim que soube da publicação de outro livro de Michal Ajvaz, foi com grande expectativa que o adquiri e iniciei a leitura.

Em The Golden Age nada se adequa à actual forma de estar e de ver a realidade. O autor inicia a narrativa avisando-nos que, ainda que se centre nos anos que viveu numa ilha, este não é um livro de viagens, e não deveremos esperar grandes acontecimentos. Assim, nos é introduzida uma sociedade em que é ténue a linha entre aquilo que é e o que se imagina: as paredes internas das casas são feitas de água, água essa que escorre e derrete essências de cheiros, criando um relógio olfactivo.

Desta forma, também o alfabeto se encontra em constante mudança, evoluindo das letras que impregnou dos antigos conquistadores para complicados padrões, capazes de, num só símbolo conter uma história. Se o alfabeto é complexo, não menos é a língua, onde cada tipo de mancha tem um nome diferente e ao invés de serem referidas em comparação com objectos semelhantes, são os objectos que são comparados a manchas de formatos diferentes.

Realmente, pouco ou nada acontece durante a permanência na ilha, mas é a vivência entre os nativos que cria toda a novidade, dissipando-se a inicial resistência, por parte dos estrangeiros, em se adaptarem à flexível vivência no presente. Assim, as regras de um jogo podem mudar a meio, da mesma forma que os quadrados pretos e brancos de um tabuleiro se esbatem e adquirem fronteiras cinzentas; ou a história de um livro sofre mutação enquanto passa pelo leitor: os nativos não se limitam a ler, acrescentando, apagando ou modificando passagens. Desta forma, em altura alguma existe alguém que conheça a totalidade do livro.

De leitura lenta, The Golden Age descreve-nos um modo de ver a realidade bastante díspar daquele que conhecemos, sem os limites fixos que um raciocínio inteiramente lógico nos impõe, nem as pressas de uma sociedade consumista. Mas a vida na ilha é bastante mais do que isso, antes uma transformação da realidade, onde pululam as histórias fascinantes, que nos envolvem.

Excelente, mas bastante diferente de The Other City, The Golden Age transporta-nos de sonho em sonho enquanto nos transmite um misto de estranheza, inquietação e fascínio. Pecando apenas por não possuir uma coesão prefeita, é exigente em concentração tanto pela extensão como pela densidade, possuindo vários episódios fortes que acompanham o leitor após a leitura. Será um dos melhores livros que tive oportunidade de ler este ano.

4 comments

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.