Grass – Keum Suk Gendry-Kim

Grass é um pesado testemunho de uma vertente da guerra que se tenta esconder e esquecer a todo o custo. A autora usou a história de uma idosa, Okseon Lee, para apresentar esta vertente – uma mulher que serviu de mulher de conforto para o exército japonês e que saltitou a vida toda de tormenta em tormenta.

Enquadramento histórico

Durante a Segunda Guerra Mundial largos milhares de mulheres (algumas no início da adolescência) foram escravizadas para responder às necessidades sexuais dos soldados japoneses. Estas mulheres vinham sobretudo dos países ocupados, como a Tailândia, a Coreia, a China ou as Filipinas. Eram obrigadas a deixar os seus nomes e o seu idioma, assumindo designações japonesas.

Estima-se que a maioria destas mulheres tenha morrido durante a Guerra, entre a fome e as doenças venéreas. As sobreviventes acabavam quase sempre estéreis, resultado das dezenas de violações diárias a que eram sujeitas e das péssimas condições médicas, mais preocupadas com a transmissão de doenças para os soldados do que o devido tratamento destas doentes.

Após a Guerra, existiram negociações para a compensação dos civis mortos e usados na Guerra. Ainda que se tenha admitido, por vezes, a utilização de mulheres de conforto, a sua existência é vista como uma vergonha, e existem casos de negação oficial, apesar de todas as evidências e conficções também oficiais. A polémica continua, originando vários casos com repercussão internacional mas, até agora, não tendo um fecho satisfatório para as vítimas de escravidão sexual.

A história

O livro começa por nos apresentar a dura infância de Okseon Lee na Coreia. Sendo a filha mais velha, assume a responsabilidade de cuidar dos irmãos mais novos, enquanto o irmão mais velho, sem tarefas, oscila entre a brincadeira e a escola. Para além de acompanhar a mãe nas vendas, Okseon carrega os irmãos e tenta arranjar-lhes comida, passando ela muitas vezes fome. A pobreza da família é extrema e as bem intencionadas tentativas de arranjar comida resultam em austeros e injustos castigos.

A solução? Os pais vendem Okseon a um casal sem filhos, convencendo-se que a rapariga será adoptada e bem cuidada. Não é o que acontece. Para além de continuar sem poder ir à escola, assume todas as tarefas domésticas tentando compensar uma dívida não entende. A sorte de Okseon não melhora. Vendida a outras instalações onde se espera que comece a servir clientes (talvez até numa componente sexual) Okseon é sucessivamente escravizada.

Ainda assim, há realidades piores que vai ter de enfrentar. Okseon é raptada e levada a monte com outras raparigas em semelhantes circunstâncias, acabando numa casa de conforto para soldados japoneses. As condições são brutais. Reduzida à sua condição diminuta, sem livre arbítrio sobre o seu futuro ou sobre o seu corpo – uma escrava sexual, agredida por qualquer motivo, com direito a tratamento médico apenas quando pode afectar a actividade comercial a que está associada.

Apesar de sobreviver a esta existência, sem estudos, sem profissão e sem família, Okseon não terá momentos de felicidade na sua longa vida. A desonra da escravidão sexual compromete qualquer ligação futura e mesmo quando reencontra, muitos anos depois, a sua família, a sua presença apenas recorda vergonha e desonra.

A narrativa

Grass apresenta, sobretudo, a reconstrução dos episódios contados por Okseon. Nestes episódios de reconstrução apresentam-se alguns diálogos da época, alternando-os com a narração de Okseon. Estes episódios, que constituem o grosso do livro, param esporadicamente para nos trazer quase ao presente e apresentar os momentos de entrevista com Okseon.

Enquanto que a reconstrução da vida de Okseon é quase impessoal, quase desprovida de julgamento por parte da autora (e dificilmente se aguentava esta história sem existir algum distanciamento) os momentos de entrevista são o espaço indicado para tecer a avaliação negativa pela forma como os governos coreano e japonês conduziram o pós-guerra em relação às mulheres de consolo.

O resultado é envolvente e empático. A neutralidade do autor e a forma como aborda os episódios, permite que o leitor prossiga pelas 480 páginas sem necessidade de pausas. Apesar da promessa inicial de que Okseon nunca tenha conhecido a felicidade, temos sempre a esperança que a pessoa consiga, pelo menos, uns momentos de paz ou calma. Mas mesmo estes são raros ou quase impossíveis.

O desenho

As páginas apresentam-se a preto e branco. Existem algumas páginas que caracterizam o ambiente e se fixam na paisagem, mas a maioria foca-se nas expressões e nas personagens, retratando interacções e reduzindo ao máximo o contexto em que se encontram. A caracterização original, quase infantil, vai mudando com o crescimento de Okseon, tornando-se menos definido e cada vez mais composto por sombras.

Conclusão

Grass apresenta uma história brutal dominando a narrativa por completo. Apesar das atrocidades, a autora consegue manter um registo mais ou menos isento que não sobrecarrega o leitor. Talvez por isso tenha sentido que talvez, no final, Okseon teria uma vivência mais calma. É, portanto, quando fechamos o livro que sentimos toda a repulsa e asco que se acumulou e nos apercebemos quão negativa e pesada é a vivência de algumas pessoas. Em suma, uma excelente leitura.

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