Black no More – George S. Schuyler

Li sobre este livro recentemente julgo que como sugestão de Alberto Manguel. História de ficção científica clássica, pega numa premissa simples que visa revolucionar a sociedade – a possibilidade de eliminar a melanina da pele, fazendo com que todos os seres humanos passem a ser considerados brancos. A ideia é interessante, mas não deixei de ter algumas reticências ao ver que o livro foi escrito há mais de 90 anos. É difícil a uma obra com esta idade manter-se relevante e interessante. Mas não impossível.

A história

Nos anos 30, nos Estados Unidos da América, havia segregação consoante a cor da pele. Não só existiam alguns sítios interditos, como as possibilidades económicas e culturais variavam muito com a cor da pele. Ainda que continuem a variar, decerto os anos 30 eram caracterizados por uma maior diferenciação, com bairros notoriamente destinados a pessoas de determinada cor.

É neste contexto que um cientista afro-americano inventa um processo que irá permitir eliminar a melanina da pele e transformar qualquer afro-americano num homem de aparência nórdica, de olhos e pele claros. A história centra-se num homem, Max Disher que pretende ser o primeiro a passar por esta transformação.

Homem de negócios esperto e habituado a improvisar, Max vê nesta mudança a possibilidade de concretizar todos os seus sonhos e atingir o seu máximo potencial. E que melhor lugar para o fazer que entre um grupo de homens brancos que pretende defender a superioridade da pele branca? Sob outro nome, Max passa a desempenhar um papel fundamental nesta organização, casando-se com uma jovem que, tendo pouco de inteligente, é uma racista empinada.

Pouco a pouco, vão desaparecendo as pessoas de pele escura. Quem tem dinheiro paga a conversão dos familiares ou dos amigos, levando à transformação de todos. Nesta nova realidade, em que já não se distinguem aqueles cujos familiares vieram de África, daqueles cujos familiares vieram na Europa, sofre-se uma revolução social e alguns pretendem restabelecer a ordem anterior investigando a árvore geneológica de todos.

A crítica

A premissa é, no mínimo, interessante. Max com uma pele mais clara, descobre que o homem branco é um homem como os outros, ainda que, por vezes, menos feliz. É que se os afroamericanos festejam com vontade, os homens de pele mais clara fingem festejar, como forma de opolência e ostentação.

Max é um homem desenrascado e percebe que ao ocupar um lugar de destaque, pode mais facilmente concretizar os seus objectivos financeiros. Mas Max não é uma personagem com preocupações éticas ou altruístas e usa a sua nova aparência com habilidade. Esta caracterização da personagem principal é curiosa. O autor não tenta criar um mártir ou uma personagem exemplar, antes centra a sua história num homem ambicioso e inteligente que teve de aprender a sobreviver em difíceis circunstâncias. Esta capacidade de sobrevivência irá destá-lo entre os demais.

As mudanças na vida de Max são proporcionadas nitidamente pela mudança na cor da pele. É um facto do qual a personagem é consciente, e um facto referido pelo próprio autor ao longo da narrativa. Mas com a progressão da transformação que elimina quase na totalidade a pele escura, assistimos a algumas mudanças na sociedade. Por um lado surge o medo – o homem branco já não se consegue distinguir do outro, preocupação que o trabalhador braçal enfrenta por ser algo que, até o momento o fazia sentir superior a alguma parte da sociedade. Por outro, o homem branco descobre que, afinal, desconhece parte das suas verdadeiras origens.

Mas do lado dos afrodescendentes também há mudanças. Existiam aqueles que faziam do orgulho racial o seu sustento (tentando ocupar uma faixa social específica com os afrodescendentes enquanto eram patrocionados por ricos homens de negócios brancos). Outros vendiam produtos para clarear a pele ou esticar o cabelo. Todos estes vêem agora o seu sustento cair por terra. Muitos perdem a importância relativa que tinham nas suas comunidades.

A narrativa é ritmada e irónica. As mudanças sociais são percepcionadas sobretudo por Max, mas não só. Por vezes, existem outros espectadores bem colocados que permitem assistir à mudança de situação de personagens específicas. Estas mudanças são muitas vezes irónicas, mostrando a relatividade do poder que anteriormente possuíam.

Adicionalmente, o autor demonstra várias vezes como se podem manipular as massas, cruzando verdades com mentiras na informação que é transmitida. Ao se provar a componente verdadeira, automaticamente se legitimiza a componente falsa. Manipulações, subornos e acordos. Para além da manipulação das massas, o autor apresenta uma visão cínica da política e da influência para o voto que encaixa perfeitamente com toda a restante perspectiva.

A narrativa não apresenta todos os elementos da vida de Max. De episódio em episódio, a história demonstra apena os momentos significativos que possuem algum interesse para o evoluir da narrativa ou alguma perspectiva específica. Alterna, por vezes, a visão de Max com a de outras personagens secundárias, proporcionando mais elementos ao leitor.

Com todos estes elementos, Black no More surpreendeu ainda por conseguir (infelizmente) manter uma narrativa relevante aos dias de hoje, e por apresentar uma escrita fluída e objectiva. Digo infelizmente, porque alguns dos comportamentos racistas retratados ainda se verificam nos dias de hoje, fazendo com que toda a história possa ser bastante actual.

Conclusão

Black no More é um clássico da ficção científica sobre o qual não tinha ouvido falar até recentemente. A premissa é interessante, o desenvolvimento é cínico e inteligente, o final é brutal. É decerto uma das grandes leituras deste ano.

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