Quem não gosta de listas de livros? Pois bem, foi na lista Rising Stars of Sci-Fi and Fantasy to Discover Now que encontrei este livro de conceito intrigante.

A história

A realidade aqui descrita apresenta uma sociedade bastante semelhante à nossa, mas com um detalhe essencial diferente. É que neste mundo a magia é possível e é feita essencialmente por mulheres. De forma a proteger a sociedade (ou pelo menos é essa a desculpa) as mulheres são reguladas e perseguidas em busca de quaisquer sinais de capacidades mágicas.

Como mulher de quase 30 anos, bisexual e solteira, Josephine encontra-se perto da idade limite. Nesta sociedade, as mulheres que não se casem até essa idade são suspeitas máximas de bruxaria. Como tal, perdem o emprego, não podem ter contas bancárias e devem nomear um homem para que seja responsável por elas.

Para além da idade, Josephine é de cor, descendente de bruxas e a sua mãe desapareceu quando era criança, de um dia para o outro. Estes dois elementos agravam a sua situação. Ainda assim, Josephine não se quer limitar à sua situação, e questiona que tipo de amor se pode ter por um homem, quando o relacionamento com ele é o que garante a sua sobrevivência.

Crítica

A premissa relativamente simples deste romance permite explorar diferentes temáticas, tanto as questões de género e sexualidade, como as questões associadas ao controlo de uma parte da sociedade. Josephine é mulher numa sociedade onde as mulheres são controladas ao extremo. Josephine é bisexual numa sociedade que obriga as mulheres a ser dependentes de um homem para sobreviver. Finalmente, Josephine tem um historial familiar considerado perigoso.

The Woman Could Fly apresenta uma sociedade que penaliza as mulheres por serem mulheres, considerando-as como a origem de todas as acções mágicas, ainda que tanto homens quanto mulheres possam lidar com magia. É, sobretudo, uma forma de as controlar, com a desculpa de que podem ser perigosas para os outros. Mas, como refere a personagem nos seus pensamentos, nem as armas são tão controladas quanto as mulheres.

Este controlo vai sendo perpetuado por lobbies familiares com imenso dinheiro para controlar a aprovação das leis. E, claro, que isto decorre no equivalente aos Estados Unidos da América, sendo que existem várias questões sobre o facto de ser o único país “civilizado” onde ainda se queimam bruxas. Pois é. As mulheres que foram consideradas culpadas de bruxaria são queimadas vivas.

Mas como se considera que uma mulher é bruxa? Bem, com rumores e receios materializados. Alguém ficou doente dois dias depois de ter tropeçado numa mulher, logo decerto que é bruxa. Um homem sentiu uma dor de cabeça depois de ter passado na rua por uma determinada mulher. Outra bruxa. Assim se acumulam evidências de bruxaria – mas só em relação a mulheres.

Neste tipo de sociedade, não são só as mulheres que estão na margem da sociedade, existindo alguns estados em que os homens também são perseguidos se forem homosexuais. Por esse motivo, há mulheres que entram em acordo com homens homosexuais para um casamento de fachada. Mas mesmo nos restantes casamentos, uma dúvida persiste – será possível sentir verdadeiro amor por um homem quando existe tal desequilíbrio de poder no relacionamento? Na prática, o relacionamento não é só uma união romântica, mas também aquilo que permite à mulher existir naquela sociedade.

“At the most recent protest I’d gone to, we put up pictures of every gay man who had been tried for witchcraft in the previous five years. Only three of the 279 tried in Michigan had been white. All three had been poor.”

Para além de todas estas componentes, Josephine é afrodescendente. E este elemento agrava qualquer interacção que tenha com as autoridades. Enquanto as suas amigas podem ser ligeiramente rebeldes, Josephine deve apresentar-se dócil e calma em todas as circunstâncias, pois sabe que mais rapiadmente pode ser queimada viva – um reflexo do racismo vigente na sociedade americana.

Mas estes não são os únicos dramas explorados ao longo da história. Josephine perdeu a mãe quando era criança, sem que tenham existido pistas para o desaparecimento. Será que se perdeu no meio da floresta? Será que foi vítima de um assassino em sério? Ou será que recorreu a magia para desaparecer? Para além do trauma dito normal destas circunstâncias, este evento afecta Josephine de várias outras formas, fazendo com que seja mais facilmente vista como uma bruxa potencial por todos os que a rodeiam. Já o relacionamento com o pai também não é dos melhores.

A narrativa explora todas estas questões pela perspectiva de Josephine, mostrando uma linha temporal actual e alternando-a com pensamentos ou com as memórias da personagem, de forma não linear, mimetizando a forma como alguém se recorda de momentos passados. Estas recordações servem para justificar reacções, conversas ou interpretações.

Em termos de construção de mundo, o tipo de magia é muito solto, recordando as referências (propositadamente) às bruxas de Salem. Ainda que exista alguma magia, a maioria das acusações são falsas, mas não existe qualquer consequência para uma falsa acusação de bruxaria. Em compensação, as queixas são sobretudo a pessoas não brancas, na sua maioria mulheres, havendo um pico de acusadas entre as pessoas LGBTQ+. Josephine, a personagem principal encaixa em demasiadas categorias.

The Women Could Fly é um livro de fantasia invulgar. Apesar de ter magia, não apresenta um mundo de sonho e fantasia inocente. Não existe concretamente um vilão, ou um grupo de vilões a quem apontar o dedo. Existe antes toda uma sociedade preconceituosa que discrimina consoante o género, a sexualidade, a cor da pele e a conta bancária. Paralelismos que são evidentes com a sociedade actual, mostrando como alguém que se encontra nestas categorias vive com receio de ser considerado suspeito de um crime qualquer.

Apesar de ser uma boa leitura, a escrita não é perfeita. Cativa pelo desenvolvimento da personagem e pela sua perspectiva, mas não apresenta outros pontos de vista, nem explora as potencialidades da magia que existe neste mundo. Por vezes, debruça-se excessivamente nos dramas muito pessoais da personagem principal, quase caindo no género romance. Este é, a meu ver, o ponto menos positivo da história.

Conclusão

The Women could fly é uma história de fantasia que usa um mundo semelhante ao nosso onde existe uma magia natural, baseada nos relatos de bruxaria de alguns séculos. Esta história é usada para apresentar um mundo de discriminação em vários níveis – de género, sexualidade, cor da pele e tamanho da carteira. É uma boa leitura que, ao se centrar demasiado numa única personagem e nos seus dramas, por vezes se alonga demasiado na componente romântica.