Desde muito nova que lia mitologias, fascinada pelas histórias de deuses. Inicialmente, gregos e romanos, sendo as histórias que estão normalmente acessíveis, mas explorando mais tarde outras mitologias. Dédalo é, claro, uma figura muito conhecida, e mesmo para quem não conhece grandes detalhes sobre as suas invenções, a referência às asas é Ícaro é normalmente a mais óbvia. Foi assim que corri a adquirir este pequeno volume, de quase 200 páginas.

A história centra-se, claro, em Dédalo, iniciando-se com o mais célebre episódio onde se mostra como foge do rei Minos, com o filho, inventando umas asas que o possibilitam de voar, mas que usam cera para as ligações. Como é sabido, o filho vai morrer ao tentar aproximar-se demasiado do sol. Dédalo, sobrevive.

Fugido, procura abrigo, mas não está totalmente racional. Recorda o filho bem como episódios marcantes da sua vida, falando do nascimento do Minotauro e da construção do labirinto, feito notável mas negro, que o irá assombrar mesmo após a morte, no Reino de Hades, onde o monstro capta o seu cheiro e o persegue. A história alterna entre a presença no submundo e as suas memórias que se vão transformando à luz de novas informações.

Ambas as perspectivas, presente e passada, são sombrias. Não se espera, claro, que o Reino de Hades seja um local alegre, mas o confronto com as consequências de acções passadas, a busca pelo filho, e a fuga do Minotauro fazem com que seja um presente carregado de expectativa e ansiedade. Através destas consequências passadas Dédalo irá activar recordações, memórias que são igualmente pesadas, caracterizadas por ser usado como inventor por Minos, preso e chantageado.

Noutra vertente, as memórias do passado vão sendo confrontadas com as memórias de outras personagens – oposição que fornece uma luz diferente sobre os factos, e que leva à reinterpretação de alguns momentos. Este confronto é, também, desolador e quebra, por vezes, a empatia para com Dédalo, um homem que se vai revelando mais egocêntrico do que parecia inicialmente, mais centrado em si mesmo e naquilo que são as suas aspirações inventivas. Dédalo é, afinal, apenas um homem e a imagem que tinha de si próprio vai-se degradar ao longo da história.

A narrativa apresenta, sobretudo, a perspectiva de Dédalo, mas ganha nova profundidade quando mostra a personagem a confrontar as suas memórias com outras perspectivas. Tal como Dédalo, vamos percebendo que a verdade não é tão absoluta quanto parece, mostrando-se uma personagem decadente que enfrenta o luto, a genialidade e a demência. O resultado é, claro, bastante negro, mas mais interessante do que parecia inicialmente.