Deste autor li sobretudo pequenas histórias como as agrupadas na colectânea The Paper Menagerie and other stories, que, de forma sucinta, adorei, apesar da diversidade de temas e execuções. Entretanto, o autor publicou a série Dandelion Dynasty, que não cheguei a ler, bem como outras antologias – quase todas com nomeações ou prémios relevantes no género. Mais recentemente, lançou o primeiro volume desta nova série, Julia Z, ainda que se trate de uma leitura que possa ser feita individualmente.

A história inicia-se com o desaparecimento de Elli, uma artista conhecida por criar experiências de sonhos partilhados, possuindo uma Inteligência Artificial que a auxilia. Percebemos que o desaparecimento foi voluntário – mas de que estaria a fugir a artista? Após perceber que a mulher não iria voltar, o marido advogado acciona os meios tradicionais, recebendo também um telefonema ameaçador para fornecer informação que a esposa terá deixado para trás, mas que ele próprio desconhece a existência. Procura então ajuda especializada, mais concretamente de Julia Z, uma rapariga conhecida como hacker que tenta manter-se afastada das tecnologias de vigilância deste mundo futurista.

A partir daqui a narrativa explora as tecnologias mais avançadas deste futuro caracterizado por intensa vigilância, bots e inteligências artificiais. Extrapolando da nossa realidade, neste futuro o bullying pela internet pode tornar-se ainda mais intenso e, com manipulação da informação e notícias incendiárias, infernizar a vida de alguns jovens, levando-os quase ao suicídio. Neste caso, a mãe de Julia Z, uma mulher que tentou seguir o sonho americano, quer exigir que a sociedade dos Estados Unidos esteja ao nível das expectativas, organizando manifestações – uma postura participativa na sociedade que irá marcar Julia durante todo o seu crescimento e torná-la alvo de ódios diversos.

Ainda que Julia seja a personagem principal, toda a narrativa é contada em função da mulher desaparecida e do marido que a procura, mostrando o percurso perigoso que Julia e o advogado têm de fazer para fugir à vigilância e aos grandes criminosos legitimizados pelas corporações que detêm. Sobre o passado de Júlia vamos sabendo algumas coisas, sobretudo memórias que se desenrolam mas também pequenos episódios que são contados. A narrativa desenvolve pouca empatia para com Julia, apresentando-a mais como uma sombra competente que está sempre presente e cujo conhecimento proporciona a possibilidade de fuga.

A história aproveita a premissa para desenvolver sobretudo dois temas – a perspectiva de um mundo governado pela tecnologia, e o impacto que a tecnologia tem na sociedade. Por um lado, todos os meios estão carregados de inteligências artificiais (ainda que as pessoas possam desenvolver IA’s à medida das suas profissões e das suas funções para as auxiliarem) e de bots, sendo possível uma vigilância extrema, não só por parte do Estado mas por entidades privadas. Por outro, a extensa exposição às redes sociais de todos os detalhes pessoais permite que o cyberbullying atinja níveis ainda mais assustadores do que aqueles que conhecemos.

Neste seguimento, a premissa apresenta o poder das grandes corporações, onde o dinheiro pode influenciar praticamente tudo, camuflar crimes internacionais e levar a uma postura de impunidade a quem está por detrás das grandes decisões. Como noutras narrativas futuristas (sobretudo cyberpunk) existe quem consiga passar pelas teias da vigilância para trazer a público redes de pessoas escravizadas por dívidas e algumas das manipulações exercidas.

Na vertente mais artística, mostra como os artistas são utilizados pelos meios de comunicação e publicidades para ser descartados. Apesar do sucesso, ao terem de pagar pelo investimento que neles é realizado, são presa fácil para que outros modelos de negócio, mais obscuros, se desenvolvam, acabando por ficar reféns do seu próprio sucesso e tendo menos autonomia do que a fama os faz crer.

Apesar de todas estas temáticas em pano de fundo, a história apresenta-se sobretudo carregada de acção, enquanto as personagens se ocultam e fogem, criando-se uma tensão constante que incita à progressão pela história. Esta tensão teve, no entanto, um impacto menor do que esperava, sobretudo porque não criei grande ligação às personagens. A centralidade da acção é dividida entre o advogado que procura a companheira e Julia Z e ainda que, teoricamente, Julia Z seja a personagem principal, a forma como vai sendo desenvolvida deixa pouco a saber sobre a sua personalidade presente.

Ainda que All that we see or seem seja um livro interessante do ponto de vista de conceitos e futuro perspectivados e bem complementado com a introdução de uma urgência que justifica uma sucessão intensa de episódios de acção, não cumpriu as minhas expectativas de se tornar um favorito para este ano. É uma boa história, mas ao não ter criado empatia para com as personagens (e havendo um problema de foco narrativo, onde a personagem principal não o parece) ficou-se como uma história interessante (e aconselhável) mas que vou provavelmente esquecer a médio prazo.