Jogos ao Sábado – Ilha proibida de Matt Leacock

Matt Leacock é um designer de jogos de tabuleiro conhecido pelo Pandemic, jogo cooperativo que tem como objectivo arranjar a cura para quatro epidemias que se encontram em grande expansão no mapa mundial. E o próprio Pandemic expandiu-se, com a criação, por exemplo, das edições Legacy, sendo que a primeira se encontra no segundo lugar do top de jogos de tabuleiro.

Mas esta entrada não tem como objectivo falar de Pandemic (lá chegaremos, num futuro próximo) mas de A Ilha Proibida, um jogo também de Matt Leacock, cooperativo, que possui mecanismos muito semelhantes aos de Pandemic, mas que consegue ser uma versão simplificada de excelente visual, mais apropriada para os que se iniciam neste mundo dos jogos de tabuleiro (ainda que, ironicamente, tenha jogado várias vezes o Pandemic antes de jogar A Ilha Proibida).

Sem explicar as regras em detalhe (o meu objectivo é outro), A Ilha Proibida tem como objectivo conseguir recuperar quatro tesouros de uma Ilha que se está a afundar. Jogada após jogada as áreas da ilha vão-se afundando, sendo que a velocidade e número de áreas que se afundam vai aumentando com o prosseguir do jogo.

Cabe aos jogadores drenar regiões antes que estejam totalmente perdidas e reunir cartas suficientes que lhes permitam obter os tesouros. No final, têm de conseguir chegar ao ponto de recolha para conseguir fugir.

Com algumas regras que reconhecemos de Pandemic, A Ilha Proibida possui uma disposição aleatória de regiões ao invés de um mapa, e poderes diferentes para cada jogador, o que faz com que a estratégia tenha de ser adaptada a cada jogo, escolhendo-se regiões que podem ser sacrificadas, e definindo combinações de jogadas que podem ser mais produtivas.

A menor área de jogo, a maior facilidade de movimentos ou de troca de cartas, bem como o objectivo de mais fácil concretização são os factores fundamentais para tornar A Ilha Proibida um jogo mais rápido e fluído que Pandemic. Mas ambos, ao serem jogos cooperativos, levam a que os jogadores definam estratégias comuns, obrigando a que cada jogador olhe para os poderes dos outros jogadores como algo que pode usar em proveito de todos.

Visualmente, trata-se de um jogo que capta a nossa atenção – tirando a barra simplista que define a velocidade de alagamento (o único senão dos componentes) a caixa metálica possui um relevo que lhe dá um toque especial, os tesouros são resplandecentes e bem desenhados e as áreas da ilha remontam a locais fantásticos e perdidos no meio da natureza.

Trata-se de um jogo de jogadas rápidas que mantém os vários jogadores envolvidos (devido à componente cooperativa) e de aprendizagem célere que poderá facilitar a passagem para jogos como o Pandemic. Para quem já conhece o Pandemic, A Ilha Proibida pode ser considerado como uma opção mais ligeira, para sessões de jogo mais curtas.

Em Portugal, A Ilha Proibida foi publicado pela Devir.

Jogos aos Sábados – Sagrada – Adrian Adamescu, Daryl Andrews e Peter Wocken

Azul tem sido um dos jogos mais usados a dois, principalmente quando queremos um jogo com alguma estratégia, mas rápido e de jogadas curtas. O visual é fascinante (e muito elogiado – não é por acaso que acabou de vencer o Spier des Jahles de 2018) e o mecanismo é fácil de aprender. Não é, assim, de estranhar, que quando vi várias comparações do Sagrada com o Azul, dizendo que ainda é mais interessante, tenha tentado comprá-lo, mas acabei por esperar pelo lançamento da MEBO por conta do preço competitivo.

Em aspecto o Sagrada é igualmente fascinante. Menos clássico, mas mais colorido baseia-se nos vitrais da Sagrada Família. O material é visualmente agradável, ainda que as cartas sejam um pouco finas (ou seja, mais susceptíveis a danos) mas a combinação de dados de diferentes cores torna o jogo bastante atractivo. Não jogámos as edições de outras editoras, mas pelas fotos a portuguesa da MEBO parece-me ser, em tudo, equivalente. Em termos práticos, o jogo tem, como único ponto negativo, a dificuldade em manobrar dados tão pequenos no tabuleiro, sendo que quem tem as mãos maiores facilmente muda o valor do dado colocado sem se aperceber.

Este jogo foi dos poucos que tivemos oportunidade de experimentar assim que chegou e rapidamente percebemos as diferenças em relação a Azul. Este é, também, um jogo que se baseia na recolha e colocação de peças mas, apesar das maiores restrições de colocação (em relação a cores, números e padrão específico do nosso tabuleiro), o grosso da pontuação é dado pelo cumprir de um objectivo privado e de vários objectivos públicos que possuem combinações adicionais que podemos seguir.

Sagrada tem, adicionalmente, mais dois elementos que o distinguem: a ordem de recolha de dados (que permite que, a cada ronda, um jogador diferente jogue duas vezes seguidas), e a existência de ferramentas pelas quais podemos pagar para poder quebrar as regras.

O cruzamento de todas estas variáveis faz com que o jogo pareça mais complicado do que é realmente. O que constatámos é que é mais fácil de jogar do que de explicar (ainda que explicar não seja o objectivo desta review) e que o tempo de aprendizagem foi curto ainda que estivéssemos a integrar jogadores pouco experimentes.

Jogámos a quatro e a dois jogadores e a conclusão é que é mais equilibrado a quatro. Por um lado porque a quatro jogadores todos os dados são lançados, fazendo com que o número de dados de cada cor em jogo seja igual (o que possibilita igual oportunidade de cumprir o objectivo privado associado a uma determinada cor). Este desequilíbrio poderá ser ajustado retirando proporcionalmente alguns dados de todas as cores de forma a garantir que as probabilidades de cumprir os objectivos individuais são semelhantes. Ainda, a dois jogadores, é mais evidente a desproporção de pontos entre jogadores com tabuleiros de dificuldade muito diferente. Ainda que os detentores de tabuleiros de maior dificuldade possam utilizar mais ferramentas, até agora, a maior utilização de ferramentas não tem compensado a maior dificuldade do tabuleiro.

Concluindo, Sagrada é um jogo bastante aprazível, de jogadas rápidas, que puxa pelo cérebro. É visualmente atractivo, fácil de perceber e permite alguma adaptação da dificuldade consoante o padrão que se escolhe construir.

Outros jogos aos Sábados:

Resumo – 2º trimestre de 2018

Se o primeiro trimestre já tinha começado bem, este segundo permitiu a consolidação das novas vertentes do Rascunhos, apesar dos contratempos pessoais (mudança de casa e novos projectos profissionais). As visualizações ultrapassaram as 26 000 mantendo a tendência do primeiro trimestre, e continuei com a nova vertente do Rascunhos na rádio (na Voz Online, onde falei sobre livros, sozinha e acompanhada, bem como de eventos como o Sci-fi LX – os programas encontram-se disponíveis também na Mixcloud). A componente de jogos de tabuleiro prosseguiu mais lentamente, mas estabeleci a minha primeira parceria de jogos (A Floresta Misteriosa).

EVENTOS

O evento que marcou este segundo trimestre foi definitivamente o Festival Contacto. Apesar de ter decorrido apenas numa tarde em Benfica (num local priveligiado, o Palácio Baldaya) forneceu grande momentos de diversão para todas as idades, com a Escape Room da Liga Steampunk, jogos de tabuleiro diversos, lançamentos de livros, lutas de sabres – entre outros. De destacar o espaço ao ar livre e a existência de um bar de apoio que permitiu a permanência no evento durante toda a tarde.

Este trimestre foi, também, a minha estreia no Lisboacon (sobre este evento falarei mais detalhadamente nos próximos dias). Trata-se de um evento focado exclusivamente em jogos, sobretudo em jogos de tabuleiro (tendo, também, RPG’s) onde se pode experimentar uma enorme diversidade de jogos e adquirir outros tantos a preço mais acessível do que é comum nas lojas. Outro evento que marcou o trimestre foi o breve retorno do Sustos às sextas (ao qual não pude comparecer).

Alguns dos jogos disponíveis no Lisboacon

Mas os últimos trimestres também prometem! Aproximam-se o Sci-fi LX e a Comic Con Portugal, e começaram a ser anunciadas algumas novidades para o último trimestre do ano – Fórum Fantástico e Festival Bang!

LIVROS E BANDA DESENHADA – Portugueses 

Com o mesmo número de leituras do trimestre passado (cerca de 60) destaco, de autoers portugueses, Comandante Serralves – Expansão, The Worst of Álvaro e Han Solo. O primeiro é uma continuação da primeira antologia Serralves, contendo contos Space Opera de vários autores num mesmo Universo. Esta antologia destaca-se pelos elementos portugueses na sua narrativa, desde o humor às expressões e alguns detalhes culturais das personagens.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Worst of Álvaro apresenta as piores tiras de Álvaro, num  conjunto divertido que começa com uma paródia certeira às seitas religiosas que realizam espectáculos de diversão (e engodo) nas suas cerimónias. Han Solo de Rui Lacas destaca-se pela expressividade das personagens, criando uma história envolvente com poucas palavras.

LIVROS

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado por bons lançamentos de ficção especulativa (não em grande quantidade, mas o que tem havido é de qualidade) e este trimestre li, sobretudo, as novidades publicadas no mercado português. A Cavalo de Ferro surpreendeu com o lançamento de um clássico de horror de Shirley Jackson, A Maldição de Hill House. Não sendo a melhor leitura desta autora, apresenta uma história claustrofóbica que nunca se afimar sobre a origem dos supostos detalhes sobrenaturais, deixando a possibilidade de várias interpretações para o autor.

Num tom bastante diferente, Os Humanos é um relato divertido de um alienígena que tem de se integrar como humano para limpar as pistas de uma importante descoberta científica. Proveniente de uma sociedade bastante diferente, onde os indivíduos são imortais e poderosos, a perspectiva do alienígena é, simultaneamente, perspicaz e cómica.

 

 

 

 

 

 

 

 

Tendo no título a palavra Love, Love Star corre o risco de ser incluído na secção de romance fofinho e cor de rosa (como já o vi). Não poderia ser uma classificação mais enganadora. Love Star apresenta uma sociedade onde a tecnologia se aliou à publicidade com a perspectiva de responder a todas as necessidades de consumo da população, apresentando produtos inovadores como a disposição de corpos humanos em foguetes para serem incinerados automaticamente quando entrem novamente na atmosfera. Trata-se de uma história interessante carregada de reviravoltas irónicas, carregadas de crítica social.

O Poder é outro dos grandes lançamentos deste ano. Bastante aclamado no estrangeiro, apresenta uma reviravolta no equilíbrio de poder nas sociedades humanas – e se as mulheres tivessem a capacidade de electrocutar? O poder surge sobretudo em situações de violência física e psicológica contra mulheres, resultante numa reviravolta interessante. Deste surgir por necessidade ao exercício de poder, a história apresenta novos equilíbrios e desequilíbrios.

 

 

 

 

 

 

 

 

Amatka é, também, um lançamento inesperado para o mercado português, contendo uma sociedade distópica onde os objectos têm de ser constantemente marcados para manterem a sua forma e funções. Quem teme a morte de Nnedi Okorafor não é uma leitura deste ano (li-o em inglês em 2015) mas é um grande lançamento em Portugal. Trata-se de um dos grandes exemplos de afrofuturismo que não teme tratar de temas como o controlo das mulheres através da castração ou como a luta entre populações através das violações que visam diluir o sangue dos vencidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em inglês, destacou-se The Tangled Lands, um livro de fantasia pouco optimista em que o exercício de magia tem um preço muito elevado e onde o destino das personagens nunca é o programado, com contratempos e reviravoltas difíceis. Já The Martian in the Wood é um dos contos da TOR.com e centra-se num mundo pós Guerra dos Mundos de H. G. Wells, mostrando a vida dos que sobreviveram e como tentam lidar com o desaparecimento dos familiares – mas… nem todos os alienígenas conseguiram abandonar a Terra!

BANDA DESENHADA

A colecção Novela Gráfica ainda agora começou e já proporcionou duas das melhores leituras dos últimos meses, Os Guardiões do Louvre de Taniguchi e Aqui mesmo de Tardi. O primeiro centra-se no Louvre, enquanto museu e espaço que sofreu alterações, falando de alguns autores que influenciaram artistas japonses. Trata-se de um trabalho a cores que dá grande representação a algumas obras clássicas captando o seu próprio estilo. Não sendo dos trabalhos favoritos do autor em termos narrativos, fascina pelo grafismo.

Aqui mesmo (que ainda não tive oportunidade de comentar detalhadamente) é um trabalho excelente que pode ter interpretações políticas (ainda que o autor, na sua introdução descarte grande parte delas), centrando-se numa personagem demasiado agarrada ao passado, traumatizada com as guerras entre famílias e por isso, decidida a manter a sua posição desconfortável, nem que para isso deixe de ter vida própria.

Não tendo lido o romance original no qual se baseia, Afirma Pereira é um fascinante retrato da sociedade portuguesa antes do 25 de Abril mostrando como se exercia influência, poder e medo sobre a população e, neste caso, sobre a classe jornalística portuguesa.

Outra das colecções lançadas pela Levoir foi a colecção Bonelli em que se lançaram álbuns representativos das colecções italianas da editora Bonelli. Em geral são álbuns que dão especial destaque à narrativa, bastante movimentados e centrados em heróis peculiares. Dragonero foi dos meus favoritos contendo referências às mais clássicas séries de Fantasia. Já este volume de Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos, destaca-se pela introdução de Filipe Melo e contém uma diversidade interessante das histórias deste herói com um grafismo competente onde não se podem esquecer os efeitos sobrenaturais e fantásticos.

Próximos tempos? Espera-me o Sci-fi LX, com duas palestras, uma sobre ficção especulativa nacional e outra sobre robots (com João Barreiros), muitos livros e muitos jogos de tabuleiro!

Jogos aos Sábados – Azul – Michael Kiesling

Jogos aos Sábados é a nova rubrica que espero poder lançar em Sábados alternados. A rubrica poderá ser sobre tipos de jogos, jogos específicos ou eventos relacionados com jogos. Alguns são destinados a adultos pela sua complexidade ou tema, outros conseguem ser adaptados para ter vários graus de complexidade e, portanto, acessíveis a uma grande variedade de idades. Há jogos para todos os gostos e que exercitam o cérebro de várias formas diferentes – jogos de memória, jogos de estratégia ou jogos que necessitam de pensamento original e associação de ideas. A cada um corresponde uma dinâmica diferente a que o jogador tem de habituar e em torno dessa dinâmica, estruturar uma estatégia.

Azul não é um jogo português mas o visual está associado aos  azulejos do Palácio Real de Évora, mandado construir por D. Manuel I depois de ter visto painéis de azulejo mouros no Palácio de Alhandra (ou assim explicam no jogo dado que ao pesquisar encontrei o uso de azulejos por ordem de D. Manuel I mas não neste palácio, apesar das óbvias influências mouricas – alguém que lá vá, há-de tentar ver os azulejos).

O objectivo deste jogo é simples – construir um painel de azulejos com os vários padrões disponíveis. A forma como se pontua e como se coloca cada azulejo é o que confere a complexidade e a necessidade de uma estratégia – pois é, aqui está um jogo que parece mais fácil estratégicamente do que é.

Não me vou debruçar sobre as regras – estas encontram-se disponíveis gratuitamente e são de fácil compreensão ( podem consultar no Boardgamegeek). Nesta componente apenas indico que adoptámos uma variante à decisão de qual o primeiro jogador na primeira ronda – segundo as regras deveria ser aquele que tenha visitado Portugal há menos tempo, mas dado estarmos em Portugal temos utilizado as opções “Quem foi o último a vistar Évora” ou “O  último a ter saído de Portugal”.

O jogo é diferente jogado a dois ou a quatro jogadores (ainda não experimentámos a três). Quando jogado a dois é possível prever as jogadas do adversário e obrigá-lo a “comer” pontos negativos. A quatro jogadores as variáveis já são tantas que a imprevisibilidade obriga a criar estratégias de curto prazo.

O jogo a dois flui em cerca de 20 minutos, mas a quatro não se alonga muito mais. Se a dois requer uma adaptação de estratégia ao adversário, a quatro quase que é um jogo solitário, com cada jogador absorto apenas no seu tabuleiro e nas peças disponíveis aquando da sua jogada. O jogo está indicado para maiores de 8 mas parece-me que, por ser um jogo abstracto, poderá não ser o mais divertido para os mais novos.

Esteticamente agradável e com peças de boa qualidade, é, neste momento, um dos mais jogados cá em casa, a dois, por cruzar os seguintes elementos: pouco tempo de preparação, tempo de jogo reduzido e, mesmo assim, possibilitar a utilização de uma estratégia definida no decorrer do jogo.