Assim foi: Recordar os Esquecidos – Março / Abril

Ao contrário do título alusivo ao esquecimento, este resumo do evento mensal não ficou esquecido. Apenas foi sendo adiado – entre lançamentos, comentários a leituras, resumos e publicidade a eventos, não gosto de lançar mais do que duas entradas por dia. Finalmente, eis !

recordar os esquecidos março

IMG_3810

A sessão de Março contou com a presença de Tiago Salazar e de Carlos Reis, com a habitual moderação de João Morales.

Manuel fonseca cerro maior

A sessão iniciou-se com Carlos Reis a relembrar Manuel da Fonseca, um autor controverso neorrealista que se desmarca do género para o transcender e se dedicar a outros intuitos para além dos políticos. Em Cerromaior, obra referida, o autor já estaria a demonstrar esse desconforto com o neorrealismo.

casa da malta

Ainda no neorrealismo, Carlos Reis refere Casa da Malta de Fernando Namora, um romance mais datado e mais ideológico que o Cerromaior, onde se reflectem conflitos sociais e onde existe uma ligação com a Terra. Serão, talvez, estas as características que terão levado a que, tanto o livro, como o autor, se encontrem esquecidos. Por outro lado, este esquecimento também se poderá dever à forma como a edição terá sido gerada.

Aventuras de um rapaz

Tiago Salazar escolhe, para primeira referência, Aventuras de um rapaz nas florestas do Amazonas de Ballantyne. História de rapazes em descoberta do mundo, centra-se num jovem que vai parar ao Brasil a pensar que ia para a Índia. A história reflecte o fascínio pelas viagens, com notas sociais e de crítica religiosa, fugindo da opressão da cidade, do mundo cinzento.

concilio do amor

Apresentando também notas de críticas religiosas (aqui mais densas) a segunda referência de Tiago Salazar é a O Concílio do Amor de Óscar Panizza. A leitura deste livro ter-lhe-à sido sugerida por um tio por se tratar de um autor controverso. Peça de teatro, apresenta-se como uma provocação e o autor terá sido preso por esta obra. A história passa-se no céu, onde se podem encontrar vários seres etéreos como querubins e Deus que se apresenta como uma figura velha, triste e decadente. A única personagem inteligente que podemos encontrar no céu, é o Diabo.

Este foi o livro que, no final da sessão, corremos a comprar. E não me arrependo nada. De leitura rápida, é uma paródia deliciosa à figura divina, onde Maria, Jesus e os anjos são figuras, no mínimo, ridículas. Deixo-vos a minha opinião, bem como a (bem melhor) do livreiro da Pó dos Livros.

Psychopathia Criminalis

Do mesmo autor, Tiago Salazar refere brevemente Psychipathia Criminalis, onde se expressam várias patologias que explicariam porque os políticos sofrem delas mas, mesmo assim, acabam a governar.

De seguida, Carlos Reis recorda Memórias de um doido de António Pedro Lopes de Mendonça (livro do qual não encontrei qualquer capa), de enorme disjunção entre a notoriedade da época (jornalismo) e o esquecimento actual. Será um romance de crítica de costumes de actualidade, diferente dos romances carregados de referências históricas.

alma nova

A Alma Nova de Guilherme de Azevedo, encontra-se entre Antero de Quental e Cesário Verde, apresentando poemas com referência a máquinas a à luz do gás nas ruas.

a selva

Tiago Salazar refere, também, A Selva de Ferreira de Castro, também um grande romance no contexto das viagens que possui referência à conquista da selva por razões comerciais.

Para além destes, Tiago Salazar, terá, ainda, escolhido Vidas Caídas de José Amaro Dionísio, A Violência e o Escárnio de Albert Cossery e Ideias Lebres de Ernesto Sampaio.

recordar os esquecidos

IMG_5140

Apesar de estar prevista a presença de Valério Romão, por motivos pessoais o autor faltou e a sessão contou com os livros recordados de Helena Vasconcelos e moderação de João Morales.

leah

A sessão começou com referência a Léah e Outras Histórias de José Rodrigues Miguéis, autor que estará desaparecido das publicações recentes, provavelmente por conta da gestão dos direitos de autor por parte dos herdeiros. Para Helena Vasconcelos este será um dos grandes autores portugueses, completo mas esquecido por, também, não se encaixar em nenhuma política definida. De uma humanidade extraordinária, o livro apresenta histórias divertidas com uma ponta de ironia em relação a outras pessoas. Ironia, não sarcasmo – Miguéis reflecte preocupação pelas pessoas, sem moralismos, limitando-se a contar a história. Entre os trechos lidos destaca-se a história de um homem que conta a sua vida através dos barbeiros que frequenta, sendo que os bons profissionais que encontra devam ficar amaldiçoados – acontece sempre algo de mal aos que encontra. Outro dos contos lidos foi Morgado de Pedro-Má, um conto de características fantásticas que usa um reino construído para um óbvio paralelismo crítico.

quarteto de alexandria

O Quarteto de Alexandria de Lawrence Durrell já tinha sido relembrado, na sessão de Julho por Fernando Pinto do Amaral, mas é agora referido como um livro que encantou tanto na primeira leitura, como nas seguintes, pela construção do próprio quarteto pois os três primeiros livros centram-se nos mesmos acontecimentos vistos por três perspectivas diferentes. Ao longo da história fala-se de tudo, expressando fascínio pelo Oriente, pelo exotismo. Este livro terá sido lido na Comunidade de Leitores na Culturgest.

o físico prodigioso

A terceira referência foi a Jorge de Sena, mais especificamente, a O Físico Prodigioso, onde se denota a influência das cantigas medievais e de vários mitos, como o de Perséfone. A história destaca-se por apresentar várias dualidades, com várias oposições, de onde se destaca o masculino vs o feminino. Esta dualidade não é apenas narrativa, como na forma como se apresenta a história, onde se podem ler, lado a lado, duas versões dos mesmos acontecimentos: uma mais inocente, outra devassa.

Os quatro livros escolhidos por Helena Vasconcelos são de autores exilados. Este não terá sido um critério propositado mas são autores cosmopolitas, de grande cultura Mediterrânica e clássica, que tratam de temas que, no estado novo, eram tabus, como a morte, a homossexualidade ou o erotismo. A quarta autora, que não chegou a ser falada seria Marguerite Yourcenar com O Golpe de Misericórdia.

Um pensamento sobre “Assim foi: Recordar os Esquecidos – Março / Abril

  1. Pingback: Assim foi: Recordar os Esquecidos – Junho de 2017 | Rascunhos

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s