Com diversos prémios e nomeações, recordo-me das capas de alguns livros deste autor mas nunca lhe tinha pegado. Talvez porque o nome é algo relativamente genérico e, para a minha mente, esquecível. O autor soma mais de 15 nomeações para o Locus, pelo menos 2 nomeações para o World Fantasy Award e dois World Fantasy Award. Este Making History despertou-me interesse pelo pelo conceito e ainda bem que lhe peguei, tornando-se numa das leituras favoritas do semestre.
Num outro mundo um Imperador pretende estender os seus territórios e iniciar uma guerra. Para tal, precisa de uma justificação – algo que possa apresentar às restantes nações vizinhas e que não lhe estrague a reputação. Nada melhor do que arranjar uma justificação histórica ou diplomática, algo que remeta para os antepassados e que possa ser associado à defesa das raízes, da honra e da cultura do seu povo.
O Imperador pede então aos seus melhores pensadores e académicos para inventar uma cidade numa zona deserta, que pareça antiga e cujos artefactos refiram uma quezília antiga que possa justificar a necessidade de uma represália presente e, dessa forma, branquear as verdadeiras intenções de conquista (premissa, aliás que julgo demasiado real a algumas narrativas da nossa história).
A narrativa centra-se num sacana especialista em idiomas que terá origens humildes mas que, dadas as suas capacidades intelectuais e má rés subiu na vida. Esta personagem é chamada ao Imperador para desenvolver uma linguagem própria para o projecto. Ao contrário dos seus colegas, dadas as suas origines, este académico percebe que a realidade fora da Universidade é bastante mais cruel e traiçoeira. Com o pescoço em causa, precisa de tomar medidas quando pessoas, estranhas à iniciativa, sabem falar o idioma que ele inventou e que só ele deveria reconhecer.
Making History é um livro relativamente pequeno, mas engenhoso e genial na forma como desenvolve esta premissa. Não só desenvolve uma farsa à larga escala, mas demonstra-se como um puzzle com várias camadas de verdade. Tal como o nome indica, demonstra que a história em si é mutável. Ainda que os acontecimentos passados em si não mudem, a forma como se reconstroem os factos, e se criam narrativas em torno de documentos e evidências podem criar novas verdades – algumas delas por manipulação e coordenação.
Neste caso, pior do que manipular o passado, a narrativa demonstra como a alteração da história, aliada a objectivos políticos e manipulação da opinião pública pode justificar acções que, noutro contexto seriam impensáveis do ponto de vista ético e moral. A opinião pública estaria contra o ataque do reino vizinho, mas a criação de uma narrativa que incita sentimentos negativos, apelando ao ódio e ao orgulho nacional pode levar a que a Guerra seja justificável e, até, desejável.
Making history fascinou-me mais pela construção da farsa do que pelo desenvolvimento das personagens. A principal é alguém desagradável, de moral dúbia, o que funciona bem na premissa e justifica o desenrolar dos acontecimentos. Existe sempre uma nova perspectiva, um novo plano, ou um novo apunhalar de costas. Aliado a este desenrolar de pequenas reviravoltas, existe a explicação de como se estuda (e neste caso desenvolve) uma nova linguagem, área de estudo da personagem principal. O resultado é simultaneamente divertido e inteligente, recordando alguns clássicos mais borgianos da literatura fantástica. Curiosamente, sem me ter apercebido, já ando de olho num dos mais recentes lançamentos do autor, Sister Svangerd and the Not Quite Dead.
