Retrospectiva 2009 – As melhores leituras

Mantendo a congruência para com os anos anteriores (2008, 2007 e 2006), aqui fica a minha pequena lista de melhores leituras de 2009 (para uma listagem completa do que li ao longo desse ano, consultar a página L09):

The Secret History of Moscow (Ekaterina Sedia), The Other City (Michal Ajvaz) e The City & The City (China Mieville) são três livros do género fantástico que nos revelam uma cidade sob outra cidade.

O livro de Ekaterina Sedia é engraçado e interessante, mas não o achei extraordinário – a história nunca nos chega a envolver totalmente, e o final desprega-nos da história de uma forma insonsa. Para The City & The City as expectativas eram altas, ou não fosse o seu autor o badalado China Miéville. Centrado em duas cidades sobrepostas, a premissa é engraçada, mas a história revela-se um romance policial demasiado inocente e pouco credível.

Finalmente, The Other City foi, destes três, aquele que mais apreciei. Do autor checo Michal Ajvaz, descreve-nos uma outra face da cidade de Praga para onde desaparecem alguns dos seus habitantes.

Apesar de sentir alguma curiosidade pelo livro de Peter Beagle O Último Unicórnio, este foi o ano em que tive oportunidade para ler o livro. Não o achei fascinante, mas resolvi pegar em mais dois livros de contos do mesmo autor, We Never Talk About My Brother e The Rhinoceros Who Quoted Nietzsche and Other Odd Acquaintances. Gostei de ambos, mas o primeiro possui alguns dos melhores contos que li este ano, desde a história de um anjo que se torna a musa inspiradora e obsessão  de um pintor, a um conto com laivos de mitologia japonesa.

Master and Margarita é a obra mais conhecida de MikhailBulgakov, mas enquanto esta aguarda na prateleira por uma oportunidade de leitura, peguei em The Heart of a Dog, um livro mais curto, de ficção científica, que me recordou outras histórias como Frankenstein ou Dr. Jekyll and Mr. Hyde. A personagem principal é um cão vadio, adoptado por um médico que decide realizar uma operação que o irá humanizar e transformar numa personagem peculiar.

Enquanto The Yiddish Policement’s Union é um romance de história alternativa, Gentlemen of the Road é um livro que facilmente se pode tornar um clássico centrando-se nas aventuras de dois judeus aventureiros, heróis humanos e imperfeitos, nem sempre corajosos que às vezes fogem aos seus próprios ideais.

The Man Who Was Thursday é um clássico do início do século XX, um livro que é muito mais do que uma história de detectives, uma paródia ou alegoria à sociedade e à estratificação social, que nos faz pensar no que nos rodeia, através de uma personagem estranha, um cavaleiro que é quase inocente na sua forma de pensar e de agir, que induz aos que o rodeiam a animação que faz da sua própria vida, mesmo nos momentos  mais obscuros.

Enquadrado na colecção Fantasy Masterworks, The Dragon Waiting, de John M. Ford, cativou-me. A história pressupõe a existência de uma Europa ameaçada pelo Império Bizantino, o que leva à convergência, num mesmo grupo, de personagens díspares em ideologia: um médico, um feiticeiro e um vampiro. Apesar de existirem vários aspectos que poderiam ter impossibilitado a minha leitura (as personagens são quase insonsas, existem demasiadas particularidades e informações a reter ao longo da história, e o rumo é demasiado mirabolante), de alguma forma o conjunto de factores funcionou e gostei do livro.

Pandemonium é o primeiro livro de Daryl Gregory e, para mim, um dos melhores lançamentos fantásticos deste ano. Num mundo em tudo semelhante ao nosso, as possessões por demónios são quase banais e induzem episódios repetitivos de loucura nos hospedeiros. A personagem principal foi possuída em criança, e após um acidente volta a apresentar sintomas suspeitos. Escrito de forma simples e directa, baseado numa premissa original, a história possui pequenos twists coerentes que o tornam numa das melhores histórias que já li.

Se em Metamorfose, de Kafka, um rapaz acorda transformado em barata, em Kockroach – A Metamorfose, uma barata acorda transformada em homem, mas sem abandonar alguns dos seus hábitos de insecto. Por vezes arrepiante, por vezes asqueroso, sem passagens paradas ou mortas, sem comoções, um livro sobre os poderes dos seres humanos, entre os quais uma reles barata singra.

As the Sun Goes Down de Tim Lebbon é um livro de contos de horror que exploram hipóteses negras nos acontecimentos mais vulgares – um casal que espera reatar o relacionamento amoroso durante uma viagem, um homem que se salva da queda de um avião (mas que terá de pagar um preço demasiado caro) ou um rapaz que face à queda de um amigo num buraco negro na floresta, explora a possibilidade de herdar os brinquedos. Não existem assassinos de faca na mão ou monstros escorregadios – apenas pessoas reais que optam pelo caminho maldoso, por vezes sem qualquer razão lógica.

Primeiro volume de uma trilogia The Lies of Locke Lamora era um dos livros pelo qual nutria as mais elevadas expectativas, e não fiquei desiludida. A personagem principal é um ladrão atrevido, Locke, que tece elaborados planos para roubar fortunas às personagens mais proeminentes da sociedade. Estruturado, sem se perder em detalhes, o livro lê-se rapidamente. Não é o melhor de fantasia que já li, mas encontra-se entre os melhores do ano de 2009, principalmente pela capacidade de divertir o leitor.

Como já referi inúmeras vezes, As atribulações de Jacques Bonhomme encontra-se entre os melhores livros de ficção científica publicados em Portugal nos últimos tempos. Escrito por um autor português, e publicado pela Gailivro, possui vários contos de final abrupto que consistem na visão estreita de uma só personagem. O que poderia nalguns casos ser um defeito, torna-se aqui uma vantagem. Algumas das histórias no livro não são FC, nem fantasia… na realidade não se enquadram em nenhum género – são histórias que poderiam acontecer nas nossas ruas, amigos traídos, agentes à paisana confundidos com delinquentes ou criminosos em despique. Esqueçam o optimismo e os finais felizes – as histórias retratam a selva da vida real.

Há livros estranhos e The Last Dragon será um dos mais estranhos livros que já li. Violência e tramas políticas são misturadas com magia para levar a cabo vários planos intercruzados de vingança. Intercalando os relatos de vários personagens, a história é um puzzle cujas peças só unimos no final quando os acontecimentos convergem e conseguimos obter a ordem cronológica das várias linhas narrativas.

Kurt Vonnegut foi uma das minhas mais recentes descobertas literárias, e Slaughterhouse five foi o segundo livro do autor. É considerado anti-guerra não porque disserte sobre a guerra, mas pela forma como a apresenta, retratando os soldados como jovens imberbes, que pouco ou nada sabem da vida, com corpos e mentes imperfeitas, e que, sem saberem muito bem como, se encontram nas trincheiras. Para além da guerra existe ainda lugar para viagens no tempo e extraterrestres – a personagem principal, Billy, não vive num fio de acontecimentos temporalmente sucessivos, mas saltanto de época em época, de criança a velhote, de homem a bebé.

To say nothing of the dog é um livro de cerca de 500 páginas cuja acção decorre entre a época vitoriana e um futuro no qual as viagens no tempo são possíveis. Do mesmo modo que a acção alterna entre épocas, alterna igualmente o ritmo da prosa, entre pausado na época victoriana, e um ritmo alucionante no futuro. Esta história uma paródios que reúne vários elementos cómicos e até ridículos: um historiador que procura um objecto nas suas viagens no tempo, vê-se obrigado a viajar para a época victoriana para relaxar; a mecenas do instituto de investigação de história transforma os historiadores em seus empregados, conferindo-lhes missões que pouco ou nada têm a ver com os seus objectivos; uma jovem da época victoriana procura o gato perdido e um gato aparece numa cesta de uma historiadora após uma viagem ao passado.

A Sombra do Vento foi das obras que mais apreciei este ano. Há quem o considere bom, mas não excelente – para mim possui vários elementos que o aproximam da perfeição: a acção decorre na cidade de Barcelona, e os livros possuem um papel fulcral no desenrolar da história.

Entre o romance e o mistério, a história decorre durante a ditadura de Franco, um tempo caracterizado pelo medo e a desinformação, o que confere à história um ambiente nublado. Como não poderia deixar de ser, assuntos como a Guerra Civil e a opressão são uma sombra constante  na vida das personagens.

Zoran Zivkovic tem-se tornado um dos meus autores favoritos, mais um daqueles a cujas histórias retorno, tal como Gabriel Garcia Marquez, Italo Calvino, Borges, Buzzati ou Umberto Eco. Seven Touches of Music é uma das colectâneas de contos que tive a oportunidade de ler do autor. Edição de luxo, reúne histórias em que a música tem um papel fulcral, parecendo retratar a perfeição do Universo e, em última análise, a expressão de um Criador, um músico perfeito. Um dos aspectos mais interessantes dos contos, para além da música, é o captar de gestos e sentimentos que compõem o nosso quotidiano: acções rotineiras pouco lógicas, mas que nos conferem conforto; sonhos que nos deixam entorpecidos pela manhã, ou pequenos acontecimentos inexplicáveis que geram os mais variados rumores.

Organizado por Ekaterna Sedia, Paper Cities é capaz de ser das melhores e mais equilibradas colectâneas de contos que já tive oportunidade de ler, reunindo histórias fantásticas em cenário medieval, realismo mágico e até histórias de fantasmas.

Ainda que não se encontrem entre as melhores leituras deste ano, gostei do estranhamente irritante All the Windwracked Stars: demasiado lamechas e rodeado por um fatalismo excessivo, por alguma razão estou com vontade de adquirir e ler o próximo volume; adorei Darwinia, um livro enquadrado na história alternativa que, no início do século XIX substitui o continente europeu por uma terra inóspita povoada de monstros estranhos; achei piada a Lathe of Haven, em que um homem muda a realidade consoante os seus sonhos e a A Mecânica do Coração, um romance curto com pitadas de steampunk; diverti-me com o surreal The Wind-up Bird Chronicle, e o absurdo The Stupidest Angel; deliciei-me com Clube de Patifes e o Best of de Michael Moorcock.

Poucos foram os livros que não gostei este ano, quanto muito houve alguns que se ficaram pela nota “normal” – esta é sobretudo uma lista pessoal que revela a minha tendência para ler principalmente em inglês, dentro dos géneros fantástico e SF, sem dispensar algum horror ou romance históricos  e ficcionais.

Caso tenha tempo, pretendo ainda fazer um pequeno post sobre os melhores contos e um pequeno resumo sobre Graphic novels / BD.

9 pensamentos sobre “Retrospectiva 2009 – As melhores leituras

  1. 🙂 se reparares na minha lista de leituras de 2009, tenho três livros portugueses – o do telmo marçal, o pinguim na garagem, a guerra e a paz. Depois tenho a colectânea de Brinca comigo, do qual poderia fazer referencia a um conto.

    Espero dar um pouco mais de espaço este ano a autores portugueses, mas pelo que vejo do que foi publicado este ano (https://acrisalves.wordpress.com/2009/12/28/resumo-editorial-2009/) só tenho curiosidade por Uma Noite Não são dias de Mário Zambujal e talvez remotamente pela colectânea de contos de vampiros da Porto Editora.
    Ops – também queria pegar no Mucha.

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