Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Resumo de Leituras – Novembro (3)

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133 – O Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Os nossos heróis gauleses voltaram em grande com uma aventura movimentada que aproveita várias personagens conhecidas para aumentar as interacções cómicas. Uma aventura que permite duas leituras, uma simples e outra simbólica de homenagem, que consegue ter novos elementos cómicos.

134 – The Mirror – Marlys Millhiser – Referenciado como uma boa história de viagens no tempo, é uma fantasia bastante fechada que se centra na troca de corpo entre a avó e a neta, dando realce sobretudo aos choques culturais e sociais de cada uma. Por vezes demasiado extenso na descrição de alguns episódios, consegue mesmo assim ter bons momentos. Esta demasiada extensão obrigo-me a parar a leitura por vezes. Engraçado sem chegar à categoria do bom.

135 – Bang!19 – Vários autores – Esta edição da revista traz bons artigos sobre diversos temas e de variados autores, explorando ficção científica e fantasia em cinema, música ou RPG’s para além da usual literatura. De conteúdo diverso, nota-se um maior investimento em conteúdo associado aos livros da própria editora. De leitura obrigatória.

136 – Universos Literários – Vários autores – Apresentando história alternativa e mundos fantásticos, possui algumas histórias que se aguentam sozinhas. A qualidade não é constante, mas mesmo assim encontrei contos acima da expectativa. O que falta nestas antologias? Uma pequena introdução referindo qual o objectivo ou razão para se reunirem estas histórias. A rever mais detalhadamente numa entrada futura.

Últimas aquisições (2014-10-26)

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No início deste conjunto encontram-se duas edições limitadas dos livros de Theodora Goss, pela Papaveria Press, In The Forest of Forgetting e Songs for Ophelia. O primeiro tenho também na bonita edição da Prime Books (nesta estante), mas com conteúdo ligeiramente diferente:

In the Forest of Forgetting was first published in 2006 by Prime Books. The Papaveria Press edition boasts the same cover artwork by the amazing Virginia Lee as appeared on the original edition, this time in its wonderful entirety, and Terri Windling has kindly given us permission to include her original introduction to the collection.

The table of contents has been slightly modified: “Phalaenopsis” has been replaced by “Her Mother’s Ghosts”, which first appeared in 2004 in The Rose and Twelve Petals and Other Stories, released by Small Beer Press.

 

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Segue-se Dicionário de Lugares Imaginários, um vasto volume enciclopédico onde se encontram os vários lugares imaginários descritos em vários livros, entre os quais o Castelo de Kafka, ou do Dracula:

Um guia indispensável para viajar na literatura. 1200 lugares, mais de 1000 páginas, de Atlântida a Xanadu, passando pelo Castelo de Kafka e pelo País das Maravilhas.

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Mas deixo também a sinopse da edição inglesa, que me parece mais elucidativa:

Throughout the ages, writers have created an astonishing diversity of imaginary places, worlds of enchantment, horror and delight. This monumental book, now more comprehensive than ever, unites them in a single volume.

A national bestseller when first published in 1980, this unique and endlessly entertaining guidebook takes readers on a tour of more than 1,200 imaginary cities, islands, countries, and continents, all invented by storytellers from Homer’s day to our own. From Atlantis to Dracula’s Castle, Middle Earth to Baskerville Hall, Utopia to Earthsea, here are worlds enough and more for every reader, fantasy fan, and passionate browser. And now it includes dozens of invaluable new entries and illustrations, including Eco’s Abbey of the Rose, and Peter Carey’s Etica. Among the lands are those of Lewis Carroll, Edgar Rice Burroughs, Sir Arthur Conan Doyle, L. Frank Baum, C.S. Lewis, John Lennon, Gilbert & Sullivan and Graham Greene. Written with wit and brilliance, the book is also a visual delight with more than 200 original illustrations and maps by Graham Greenfield, and James Cook, and new illustrations by award-winning artist Ken Nutt.

Ainda em relação a este livro, soube, em conversa com Ana Cristina Rodrigues fiquei a saber que na edição brasileira foram adicionadas entradas relativas a lugares imaginários brasileiros, como o Sítio do Pica-Pau Amarelo.teste

Palmas para o Esquilo, Sepulturas dos Pais e O Baile são as aquisições de ontem, em resultado do Amadora BD, depois da apresentação do livro, por David Soares:

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Finalmente, O Rapaz de Olhos Azuis é um dos últimos livros de Joanne Harris, que não escrevendo obras primas, escreve obras leves e agradáveis de que costumo gostar. Realço Gentleman and Players, um livro de suspense, de história narrada por um vingador, que não sabemos quem é, até ao final. Segue-se o livro de Catherynne M. Valente ,A Menina que Circum-Navegou o Reino Encantado, um dos mais aguardados livros da autora que nunca esperei ver traduzida em português:

Setembro – que tem doze anos e vive em Omaha – tinha uma vida normal, até o pai ir para a guerra e a mãe ir trabalhar. Certo dia, encontra-se à janela da cozinha com um Vento Verde (sob a forma de um cavalheiro com um casaco verde), que a convida para uma aventura, dando a entender que o Reino Encantado precisa da sua ajuda. A nova Marquesa é imprevisível e volúvel, e não muito mais velha do que Setembro. Só Setembro conseguirá recuperar da floresta encantada um talismã que a Marquesa deseja, e, se não o fizer… a Marquesa fará a vida negra aos habitantes do Reino Encantado. Por esta altura, Setembro já começou a fazer novos amigos, incluindo um dragão alado que adora livros e um rapaz misterioso chamado Sábado.

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Lavínia – Ursula K. Le Guin

Conhecida por obras no género fantástico e ficção científica, como The Dispossessed, The Left Hand of Darkness ou a série Earthsea, Ursula K. Le Guin escreveu recentemente Lavínia, um livro que pode ser enquadrado dentro do Romance Histórico misturado com o sobrenatural.

Em Lavínia, a autora escolhe como personagem principal aquela que dá título ao livro, uma princesa do Lácio que, na Eneida apenas teve direito a um papel secundário e silencioso, como aquela por quem Eneidas batalha, com o intuito de ser rei numa nova cidade.

A única de três irmãos a sobreviver à infância, Lavínia pouca atenção recebe da mãe enlouquecida. Em contrapartida, partilha as cerimónias religiosas com o pai, que desculpa as acções da esposa. Criada entre as raparigas do campo, Lavínia habitua-se a correr entre as montanhas e, tal como o pai, tem o de escutar o oráculo. Mas não escuta a voz dos antepassados, antes a voz de um poeta do futuro que a há-de referir na sua história.

Chegada à altura de casar, são vários os pretendentes latinos, entre os quais se destaca Turno, um primo que a mãe favorece visivelmente. Terminado o prazo de decisão, esta é cancelada por um poderoso vaticínio que determina o casamento com um príncipe estrangeiro, Eneias. Turno rejeita a voz do oráculo iniciando uma guerra contra os recém-chegados troianos, onde o papel das mulheres é apenas simbólico.

Voz narradora, Lavínia é uma espectadora sem grande profundidade psicológica, com a qual é difícil de simpatizar, pela passividade e resignação aos acontecimentos. Talvez tivesse sido mais interessante conhecer o ponto de vista das restantes personagens. Desta forma, Lavínia é uma obra de leitura fácil que distrai, mas não me cativou.

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No início deste conjunto podem ver Steampunk, uma colectânea de histórias no género steampunk, onde podem encontrar autores como Fábio Fernandes (autor de Os Dias da Peste), ou Jacques Barcia, lançada pela Editora brasileira Tarja. Sobre os contos, podemos encontrar um pequeno resumo no site da editora:

Fábio Fernandes apresentou uma adaptação primorosa do complexo de Frankenstein, com uma visão fascinante de um futuro onde a sociedade divide seu espaço com a maquinidade. Alexandre Lancaster cedeu uma narrativa com ares de ficção científica, onde a ciência aponta que somente pode ser vista com simpatia se for inofensiva, caso contrário, torna-se uma maldição. Claudio Villa arremessa o leitor para o mar, singrando suas águas acima e abaixo, em busca de um tesouro que leva o leitor aos ares do terror lovecraftiano. Jacques Barcia nos dá um conto “estranho”, unindo o drama da guerra, máquinas quase humanas e seres inacreditáveis da mitologia em um caldo que realmente proporciona uma nova criação. E Flávio Medeiros encerra as páginas da obra com chave de ouro, mostrando os clássicos dirigíveis e submergíveis em um drama de honra que certamente agrada muito aos apreciadores do gênero.

Segue-se Boneshaker, uma história fantástica também enquadrada no género steampunk que cruza invenções na época victoriana, numa cidade caótica, isolada por um muro como resultado da libertação de um gás tóxico que transforma os seres humanos em zombies rápidos e acéfalos. Esta é uma história simples mas movimentada, com tecnologia movida a vapor, dirigíveis e cientistas malucos, onde podemos encontrar episódios de grande tensão. Embora não seja o melhor livro em que peguei este ano, encontra-se entre os melhores até agora.

O Evangelho do Enforcado é o novo livro de David Soares, publicado pela Saída de Emergência, um romance que cruza a história e a fantasia, em torno dos painéis de São Vicente. Segundo o site da editora, este é um retrato da vida em Lisboa no final da Idade Media:

É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. Pleno de descrições vívidas como pinturas, torna-se numa viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens.

O volume seguinte é um livro de Christopher Moore, o próximo a ser lançado pela Gailivo, Cordeiro, o Evangelho segundo Biff. Este é, dos que li até agora, o mais longo livro do autor.

Este será o evangelho escrito pelo melhor amigo de Jesus Cristo, Biff, que o terá acompanhado desde a infância. Apesar de leal, Biff é um rapaz irónico que pretende ser o próximo idiota da aldeia, profissão de fácil sustento e pouca preocupação. Ainda que seja uma história leve, é caracterizada por uma inteligente demência.

Flashforward é o livro que terá dado origem à série, ainda que tenha algumas diferenças. No livro seguimos um grupo de cientistas do CREM que estará a tentar criar o bosão de Higgs. Na hora marcada, ao invés de ser gerado o bosão, todos os seres humanos do planeta desmaiam durante 1 minuto e 43 segundos. Durante o desmaio sonham com o futuro, cerca de vinte anos depois.

Da autoria de J.Sawyer, o livro centra-se sobretudo nos cientistas responsáveis pela experiência, assim como nas teorias da física em torno do fenómeno, não deixando de explorar o lado humano: após visualizarem o futuro, algumas pessoas deixam-se levar pela suposta inevitabilidade dos acontecimentos, outros tentam mudar o curso dos acontecimentos.

O livro de Javier Negrete, La Gran Aventura De Los Griegos , faz-nos viajar pela Grécia, ao longo de quatro épocas, A Idade das Brumas, A Época Arcaica, A Época Clássica e Alexandre, cada uma desta partes ramificando-se em várias histórias.

Segundo o autor esta será uma viagem divertida, ainda que, sempre, historicamente correcta. No site oficial da editora e no blog podem encontrar mais informação sobre o livro:

Leónidas, rey de Esparta y comandante de los 300 espartanos que murieron en las Termópilas. Pericles, primer hombre de Atenas y campeón de la democracia. Alejandro Magno, el general más famoso de todos los tiempos que a los 33 años había conquistado el mayor imperio. Estos y muchos más, como Minos, Dracón, Temístocles, Pitágoras, Sócrates o Epaminondas, son algunos de los personajes más famosos de la historia universal, y son griegos.

As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizza Boy é o muito falado livro de banda desenhada de Juan Cavia e Filipe Melo, lançado pela Tinta da China:

O livro é a história maravilhosamente ilustrada e bem contada de um distribuidor de pizzas chamado Eurico e das suas aventuras numa Lisboa infestada de monstros. A sua moto é roubada (e o seu trabalho a distribuir pizzas depende dela!), o que o obriga a recorrer aos serviços de Dog “Investigador do Oculto” Mendonça. A eles junta-se Pazuul, uma menina que não é o que parece, e a cabeça de uma Gárgula que fala pelos cotovelos. Entretanto, as crianças de Lisboa estão a ser raptadas durante a noite! Sob as ruas da cidade, o pior de todos os monstros está a trabalhar arduamente para levar a cabo o seu plano maléfico. Quem será ele? Bem, suponho que vão ter mesmo de ler para descobrir…

O penúltimo é um exemplar da revista Bang, da Saída de Emergência, que retorna agora ao formato papel. Nesta podem encontrar histórias de Richard Matheson, Gerson Lodi-Ribeiro ou Vasco Curado, e crónicas de David Soares, António Macedo, João Barreiros e Nuno Fonseca.

No fim, A Metrópole Feérica, o primeiro volume de Terra Incógnita de José Carlos Fernandes e Luís Henriques:

Um Atlas Ilustrado de Criptogeografia. Completo e fidedigno inventário cartográfico de cidades desaparecidas, impérios fabulosos, reinos utópicos & outras ocorrências lendárias, complementado por profusa anotação versando trajes, máscaras cerimoniais & chapéus insólitos, monumentos funerários para animais de estimação, sacrifício ritual de gadgets.

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No topo encontra-se The Magicians, o livro de Lev Grossman que tem captado várias referências positivas, sendo descrito como um Harry Potter para adultos.

No mundo descrito existe magia, existe uma escola de mágicos, mas não existe uma força do mal contra a qual dirigir a magia aprendida. Desta forma, as capacidades mágicas tornam-se aborrecidas e direccionam-se para outras actividades, como sexo e drogas.

Segue-se The Mammoth Book of Extreme Fantasy, um volume grosso que reúne histórias de Orson Scott Card, Rhys Hughes, William Hope Hodgson, Michael Moorcock, Christopher Priest, Michael Swanwick, Paul Di Filippo e Ted Chiang, entre outros.

Neste volume Mike Ashley propõe-se a mostrar histórias que pouco ou nada têm a ver com a fantasia mais tradicional – sem elfos ou fadas. Uma lista completa de conteúdos pode ser encontrada no site Internet Book List.

Best new SF 22 é também uma colectânea de contos de 2008, na colecção Mammoth Book, mas organizada por Gardner Dozois. Encontramos aqui The Gambler (de Paolo Bacigalupi, foi nomeado para o prémio Hugo e pode ser lido gratuitamente no site da editora Pyr, como exemplo de conteúdo da antologia Fast Forward), Days of Wonder (de Geoff Ryman), The Illustrated Biography of Lord Grimm (de Daryl Gregory, autor de Pandemonium, um dos melhores livros que li em 2009), The Tear (de Ian McDonald), Five Thrillers (de Robert Reed) ou The Hero (Karl Schroeder, autor da serie Virga).

Segue-se Brinca Comigo, um pequeno livro de 116 páginas que reúne 4 contos de diferentes autores: David Soares, João Barreiros, João Ventura e Luís Filipe Silva, em torno de brinquedos. Assinado por todos os autores, o livro encontrou-se à venda durante o evento Conversas Imaginárias. No site da editora podem ler pequenos excertos de todos os contos.

Bibliomancy, de Elizabeth Hand, foi o vencedor do prémio World Fantasy Award de 2004. Publicado pela PS Publishing em edição limitada, possui quatro pequenas novelas que entrelaçam o mundo comum com o sobrenatural: uma mulher obcecada por insectos voadores, um reflexo da morte conduz a alma amada a algo diferente do repouso eterno, uma mulher solitária revê o mundo de outra forma através de tatuagens e de um baralho de Tarot. Com introdução de Lucius Shepard, este é um livro que procurava há já algum tempo.

Segue-se mais um livro de Zoran Zivkovic, The Writer, The Book, The Reader. The Writer e The Book são duas novelas, enquanto que The Reader é uma colecção de 8 pequenos textos relacionados: Apples, Lemons, Blackberries, Bananas, Apricots, Gooseberries, Melons e Fruit Salad.

Clube de Patifes é um livro de Dan Simmons que pouco ou nada tem a ver com os que já tinha lido dele: Muse of Fire e A Canção de Kali; nem livro de ficção científica nem de horror, é antes um thriller de espionagem com raízes na realidade, centrado no grupo de anti-espionagem formado por Ernest Hemingway em Cuba. Entretanto já pude ler o livro e encontram a opinião no blog.

Há já algum tempo que não lia um romance histórico. A Guerra e a Paz, de José Augusto França é um livro de ficção histórica, mas que para além de uma história no passado nos presenteia com uma visão de Portugal Salazarista, e alguns momentos no campo francês, invadido pelos alemães. Também tive já oportunidade de ler e comentar este livro.

Abarat foi a minha primeira leitura de 2008, um livro de Fantasia divertido, com pitadas de ironia, menos juvenil do que parecia à partida. A edição que tive oportunidade de adquirir na altura era um paperback pequeno, mas não resisti ao Hardcover ilustrado, que nos apresenta imagens belíssimas dos monstros que encontramos ao longo da aventura.

Finalmente, eis uma versão ilustrada das aventuras de Conan, da autoria de Robert E. Howard, que reúne histórias como Queen of the Black Coast, The People of the Black Circle ou Shadows in Zamboula. Uma lista completa de conteúdo pode ser lida no site da editora.

Retrospectiva 2009 – As melhores leituras

Mantendo a congruência para com os anos anteriores (2008, 2007 e 2006), aqui fica a minha pequena lista de melhores leituras de 2009 (para uma listagem completa do que li ao longo desse ano, consultar a página L09):

The Secret History of Moscow (Ekaterina Sedia), The Other City (Michal Ajvaz) e The City & The City (China Mieville) são três livros do género fantástico que nos revelam uma cidade sob outra cidade.

O livro de Ekaterina Sedia é engraçado e interessante, mas não o achei extraordinário – a história nunca nos chega a envolver totalmente, e o final desprega-nos da história de uma forma insonsa. Para The City & The City as expectativas eram altas, ou não fosse o seu autor o badalado China Miéville. Centrado em duas cidades sobrepostas, a premissa é engraçada, mas a história revela-se um romance policial demasiado inocente e pouco credível.

Finalmente, The Other City foi, destes três, aquele que mais apreciei. Do autor checo Michal Ajvaz, descreve-nos uma outra face da cidade de Praga para onde desaparecem alguns dos seus habitantes.

Apesar de sentir alguma curiosidade pelo livro de Peter Beagle O Último Unicórnio, este foi o ano em que tive oportunidade para ler o livro. Não o achei fascinante, mas resolvi pegar em mais dois livros de contos do mesmo autor, We Never Talk About My Brother e The Rhinoceros Who Quoted Nietzsche and Other Odd Acquaintances. Gostei de ambos, mas o primeiro possui alguns dos melhores contos que li este ano, desde a história de um anjo que se torna a musa inspiradora e obsessão  de um pintor, a um conto com laivos de mitologia japonesa.

Master and Margarita é a obra mais conhecida de MikhailBulgakov, mas enquanto esta aguarda na prateleira por uma oportunidade de leitura, peguei em The Heart of a Dog, um livro mais curto, de ficção científica, que me recordou outras histórias como Frankenstein ou Dr. Jekyll and Mr. Hyde. A personagem principal é um cão vadio, adoptado por um médico que decide realizar uma operação que o irá humanizar e transformar numa personagem peculiar.

Enquanto The Yiddish Policement’s Union é um romance de história alternativa, Gentlemen of the Road é um livro que facilmente se pode tornar um clássico centrando-se nas aventuras de dois judeus aventureiros, heróis humanos e imperfeitos, nem sempre corajosos que às vezes fogem aos seus próprios ideais.

The Man Who Was Thursday é um clássico do início do século XX, um livro que é muito mais do que uma história de detectives, uma paródia ou alegoria à sociedade e à estratificação social, que nos faz pensar no que nos rodeia, através de uma personagem estranha, um cavaleiro que é quase inocente na sua forma de pensar e de agir, que induz aos que o rodeiam a animação que faz da sua própria vida, mesmo nos momentos  mais obscuros.

Enquadrado na colecção Fantasy Masterworks, The Dragon Waiting, de John M. Ford, cativou-me. A história pressupõe a existência de uma Europa ameaçada pelo Império Bizantino, o que leva à convergência, num mesmo grupo, de personagens díspares em ideologia: um médico, um feiticeiro e um vampiro. Apesar de existirem vários aspectos que poderiam ter impossibilitado a minha leitura (as personagens são quase insonsas, existem demasiadas particularidades e informações a reter ao longo da história, e o rumo é demasiado mirabolante), de alguma forma o conjunto de factores funcionou e gostei do livro.

Pandemonium é o primeiro livro de Daryl Gregory e, para mim, um dos melhores lançamentos fantásticos deste ano. Num mundo em tudo semelhante ao nosso, as possessões por demónios são quase banais e induzem episódios repetitivos de loucura nos hospedeiros. A personagem principal foi possuída em criança, e após um acidente volta a apresentar sintomas suspeitos. Escrito de forma simples e directa, baseado numa premissa original, a história possui pequenos twists coerentes que o tornam numa das melhores histórias que já li.

Se em Metamorfose, de Kafka, um rapaz acorda transformado em barata, em Kockroach – A Metamorfose, uma barata acorda transformada em homem, mas sem abandonar alguns dos seus hábitos de insecto. Por vezes arrepiante, por vezes asqueroso, sem passagens paradas ou mortas, sem comoções, um livro sobre os poderes dos seres humanos, entre os quais uma reles barata singra.

As the Sun Goes Down de Tim Lebbon é um livro de contos de horror que exploram hipóteses negras nos acontecimentos mais vulgares – um casal que espera reatar o relacionamento amoroso durante uma viagem, um homem que se salva da queda de um avião (mas que terá de pagar um preço demasiado caro) ou um rapaz que face à queda de um amigo num buraco negro na floresta, explora a possibilidade de herdar os brinquedos. Não existem assassinos de faca na mão ou monstros escorregadios – apenas pessoas reais que optam pelo caminho maldoso, por vezes sem qualquer razão lógica.

Primeiro volume de uma trilogia The Lies of Locke Lamora era um dos livros pelo qual nutria as mais elevadas expectativas, e não fiquei desiludida. A personagem principal é um ladrão atrevido, Locke, que tece elaborados planos para roubar fortunas às personagens mais proeminentes da sociedade. Estruturado, sem se perder em detalhes, o livro lê-se rapidamente. Não é o melhor de fantasia que já li, mas encontra-se entre os melhores do ano de 2009, principalmente pela capacidade de divertir o leitor.

Como já referi inúmeras vezes, As atribulações de Jacques Bonhomme encontra-se entre os melhores livros de ficção científica publicados em Portugal nos últimos tempos. Escrito por um autor português, e publicado pela Gailivro, possui vários contos de final abrupto que consistem na visão estreita de uma só personagem. O que poderia nalguns casos ser um defeito, torna-se aqui uma vantagem. Algumas das histórias no livro não são FC, nem fantasia… na realidade não se enquadram em nenhum género – são histórias que poderiam acontecer nas nossas ruas, amigos traídos, agentes à paisana confundidos com delinquentes ou criminosos em despique. Esqueçam o optimismo e os finais felizes – as histórias retratam a selva da vida real.

Há livros estranhos e The Last Dragon será um dos mais estranhos livros que já li. Violência e tramas políticas são misturadas com magia para levar a cabo vários planos intercruzados de vingança. Intercalando os relatos de vários personagens, a história é um puzzle cujas peças só unimos no final quando os acontecimentos convergem e conseguimos obter a ordem cronológica das várias linhas narrativas.

Kurt Vonnegut foi uma das minhas mais recentes descobertas literárias, e Slaughterhouse five foi o segundo livro do autor. É considerado anti-guerra não porque disserte sobre a guerra, mas pela forma como a apresenta, retratando os soldados como jovens imberbes, que pouco ou nada sabem da vida, com corpos e mentes imperfeitas, e que, sem saberem muito bem como, se encontram nas trincheiras. Para além da guerra existe ainda lugar para viagens no tempo e extraterrestres – a personagem principal, Billy, não vive num fio de acontecimentos temporalmente sucessivos, mas saltanto de época em época, de criança a velhote, de homem a bebé.

To say nothing of the dog é um livro de cerca de 500 páginas cuja acção decorre entre a época vitoriana e um futuro no qual as viagens no tempo são possíveis. Do mesmo modo que a acção alterna entre épocas, alterna igualmente o ritmo da prosa, entre pausado na época victoriana, e um ritmo alucionante no futuro. Esta história uma paródios que reúne vários elementos cómicos e até ridículos: um historiador que procura um objecto nas suas viagens no tempo, vê-se obrigado a viajar para a época victoriana para relaxar; a mecenas do instituto de investigação de história transforma os historiadores em seus empregados, conferindo-lhes missões que pouco ou nada têm a ver com os seus objectivos; uma jovem da época victoriana procura o gato perdido e um gato aparece numa cesta de uma historiadora após uma viagem ao passado.

A Sombra do Vento foi das obras que mais apreciei este ano. Há quem o considere bom, mas não excelente – para mim possui vários elementos que o aproximam da perfeição: a acção decorre na cidade de Barcelona, e os livros possuem um papel fulcral no desenrolar da história.

Entre o romance e o mistério, a história decorre durante a ditadura de Franco, um tempo caracterizado pelo medo e a desinformação, o que confere à história um ambiente nublado. Como não poderia deixar de ser, assuntos como a Guerra Civil e a opressão são uma sombra constante  na vida das personagens.

Zoran Zivkovic tem-se tornado um dos meus autores favoritos, mais um daqueles a cujas histórias retorno, tal como Gabriel Garcia Marquez, Italo Calvino, Borges, Buzzati ou Umberto Eco. Seven Touches of Music é uma das colectâneas de contos que tive a oportunidade de ler do autor. Edição de luxo, reúne histórias em que a música tem um papel fulcral, parecendo retratar a perfeição do Universo e, em última análise, a expressão de um Criador, um músico perfeito. Um dos aspectos mais interessantes dos contos, para além da música, é o captar de gestos e sentimentos que compõem o nosso quotidiano: acções rotineiras pouco lógicas, mas que nos conferem conforto; sonhos que nos deixam entorpecidos pela manhã, ou pequenos acontecimentos inexplicáveis que geram os mais variados rumores.

Organizado por Ekaterna Sedia, Paper Cities é capaz de ser das melhores e mais equilibradas colectâneas de contos que já tive oportunidade de ler, reunindo histórias fantásticas em cenário medieval, realismo mágico e até histórias de fantasmas.

Ainda que não se encontrem entre as melhores leituras deste ano, gostei do estranhamente irritante All the Windwracked Stars: demasiado lamechas e rodeado por um fatalismo excessivo, por alguma razão estou com vontade de adquirir e ler o próximo volume; adorei Darwinia, um livro enquadrado na história alternativa que, no início do século XIX substitui o continente europeu por uma terra inóspita povoada de monstros estranhos; achei piada a Lathe of Haven, em que um homem muda a realidade consoante os seus sonhos e a A Mecânica do Coração, um romance curto com pitadas de steampunk; diverti-me com o surreal The Wind-up Bird Chronicle, e o absurdo The Stupidest Angel; deliciei-me com Clube de Patifes e o Best of de Michael Moorcock.

Poucos foram os livros que não gostei este ano, quanto muito houve alguns que se ficaram pela nota “normal” – esta é sobretudo uma lista pessoal que revela a minha tendência para ler principalmente em inglês, dentro dos géneros fantástico e SF, sem dispensar algum horror ou romance históricos  e ficcionais.

Caso tenha tempo, pretendo ainda fazer um pequeno post sobre os melhores contos e um pequeno resumo sobre Graphic novels / BD.

Clube de Patifes – Dan Simmons

De Dan Simmons conhecia dois livros, Muse of Fire (uma pequena história de ficção científica que nos apresenta uma muito degradada espécie humana) e Song of Kali (publicado em português como A Canção de Kali, pela Clássica Editora e mais recentemente pela Saída de Emergência; a história intercala as culturas ocidental e oriental, centrando-se em pavorosos cultos à deusa da destruição), mas Clube de Patifes pouco ou nada tem a ver com estes.

Se Muse of Fire é pura ficção científica e Song of Kali pode ser enquadrado no horror, Clube de Patifes é um thriller ficcional com raízes verídicas, centrado nas actividades de contra-espionagem organizadas por Ernest Hemingway quando se encontrava em Cuba.

O narrador é Joe Lucas, um agente do FBI de origem latina e escocesa, que incorpora a organização de Hemingway com o objectivo de monitorizar as actividades. Hemingway é um amador neste circuito de espiões e mensagens codificadas, mas como escritor célebre possui uma extensa rede de contactos, entre prostitutas e orfãos vadios, empregados de hotel e frequentadores de bodegas.

Esta rede duvidosa revela-se extremamente eficaz contra todas as probabilidades, e o Clube de Patifes descobre encontrar-se num local de intensa espionagem onde se trocam segredos militares sob o conluio da política local, corrupta.

Entre a espionagem e os tiros, vamos conhecendo o homem para além do escritor, Ernest Hemingway é um homem carismático, decidido a tornar realidade as ficções que constrói na sua mente, uma pessoa persistente e bondosa, que intercala momentos altruístas com egoístas, da mesma forma que se revela corajoso e cobarde em diferentes alturas. Aos jantares em casa de Hemingway comparecem actores e personagens politicamente relevantes.

Entre descobertas de mensagens codificadas, aventuras de barco em busca de submarinos (nas quais participam duas crianças, filhos de Hemingway), e mortes, vários acontecimentos parecem surreais mas muitos terão ocorrido realmente, e descrevem pessoas reais. Publicado pela Saída de Emergência, Clube de Patifes é um thriller brilhante, bem estruturado e de leitura pausada, aconselhado não apenas a quem gosta de histórias de espionagem, mas também àqueles que gostam de uma leitura inteligente.

The Wind-up Bird Chronicle – Haruki Murakami

Publicado em português como Crónica do Pássaro de Corda pela Casa das Letras, esta é a minha quarta leitura de Haruki Murakami. Se After Dark se tinha apresentado como um livro curto e simples quando comparado com Kafka’s on the Shore Hard Boiled Wonderland and the End of the world, The Wind-Up Bird Chronicle deve ser dos quatro, o maior e mais estranho.

Em todos os livros de Haruki Murakami a história é rodeada por uma aura de surrealidade que relembra os sonhos estranhamente familiares – aqueles que nos deixam o corpo entorpecido pela manhã, e uma recordação ténue na mente. Os elementos fantásticos sucedem-se, mas com uma naturalidade que apenas é atingida quando dormimos e a nossa resistência crítica se encontra diminuída.

É esta a sensação que tenho ao ler algumas passagens das obras de Haruki Murakami – sonhos de episódios naturalmente alienígenas que atingem as personagens com uma normalidade inquietante. The Wind-Up Bird Chronicle mantém estas características mas é, no entanto, dos três, aquele que menos apreciei.

A história centra-se em Toru Okada, um homem com cerca de 30 anos, que se desempregou com o objectivo de encontrar a profissão perfeita. A busca pela ocupação de sonho nunca se inicia, e Toru acomoda-se às tarefas caseiras, cozinhando esplêndidas refeições ao som de óperas de Mozart e Rossini. A quietude é quebrada quando o gato desaparece e Toru começa a receber estranhos telefonemas eróticos que desliga assustado. Após o desaparecimento do felino, uma parede de silêncio constrói-se entre Toru e a esposa, até ao dia em que esta não regressa do trabalho.

Sem saber se a esposa, Kumiko, o abandonou ou foi levada, Toru dedica todo o seu tempo e esforços na busca da esposa, com a ajuda de Malta Kano, uma mediem que terá sido inicialmente contratada para encontrar o gato. Nas suas deambulações, Toru conhece Creta Kano, a atraente irmã de Malta Kano, cuja vida terá sido traumaticamente mudada por Nobury Wataya (irmão de Kumiko); e Maya, uma teenager que passa os dias em casa. Para encontrar a esposa, Toru procura uma entrada para a realidade paralela onde pensa que esta se encontra, um mundo com efeito directo no nosso, onde algumas pessoas possuem capacidade mágicas.

The Wind-up Bird Chronicle não nos apresenta uma única história, mas várias enroladas – cada personagem que Toru conhece conta o seu próprio percurso, fornecendo pistas sobre a realidade paralela à nossa. Conta-se a história de um soldado que terá assistido à tortura dos colegas por extracção da pele a sangue frio, assim como a vida de Creta Kano, uma mulher que terá sofrido de dores crónicas durante toda a infância.

Apesar de ter adorado alguns dos episódios apresentados em The Wind-up Chronicle, achei que o enredo se alongava demasiado em torno do dia-a-dia caseiro de Toru. A maioria das passagens mais fascinantes não têm origem em Toru (personagem com a qual pouco simpatizei), mas nas restantes personagens que vai conhecendo.

De realçar que à edição inglesa faltam dois capítulos, retirados durante a tradução a partir do Japonês. Quanto à edição portuguesa, procurei informações na net, mas por incrível que pareça, não encontrei site próprio da Casa das Letras e o da Oficina do Livro parece omisso quanto aos livros da Casa das Letras.

Outros livros do autor

Lançamentos – Fantásticos e FC (17.12.2009)

O primeiro a encabeçar esta lista não é propriamente deste mês, mas vi-o pela primeira vez, disponível para venda, no Conversas Imaginárias – Brinca Comigo. Este é um pequeno livro que apresenta contos de quatro autores: João Barreiros, João Ventura, Luís Filipe Silva e David Soares; que nos chega pela Atelier Escrit’orio.

Para quem já conhece os autores este é um livro imperdível, para quem não conhece, pode ter uma ideia a partir dos excertos disponíveis no site da editora.

A Casa das Letras e a Editorial Presença, por sua vez, voltaram a apostar em vampiros, publicando, cada uma delas respectivamente, Túneis de Sangue (Circo dos Horrores) de Darren Shan e A Sociedade do Sangue de Susan Hubbard.

Pela Quetzal é publicado O Sítio das Coisas Selvagens, de Dave Eggers. Com o filme prestes a estrear, o resumo parece auspiciar uma história engraçada, ainda que juvenil:

Max é um rapaz que está a crescer e a entrar num mundo que não consegue controlar. O pai foi-se embora; a mãe passa cada vez mais tempo com o namorado; e a irmã está a chegar à adolescência. Ele, por seu turno, refugia-se no interior do seu fato de lobo e entrega-se aos acessos de braveza de que é frequentemente acometido. Um dia, fugindo de uma discussão em casa, encontra um barco e, navegando nele, descobre uma ilha habitada por criaturas selvagens e monstruosas, de quem se tornará rei.

Mas se, por cá, os lançamentos escasseiam nesta altura do ano, no Brasil parece animar, com a publicação de FCdoB, uma antologia que reúne 26 histórias de diferentes autores, resultado de um concurso organizado por uma organização com o mesmo nome. Para além de FCdoB, foi lançado Os Dias da Peste, o livro de Fábio Fernandes, de ambiente cyberpunk no Rio de Janeiro – só tenho pena que os portes sejam tão elevados. Foi ainda publicada uma antologia Steampunk, que reúne vários autores, entre os quais Fábio Fernandes (sim, outra vez), Jacques Barcia, Roberto Causo  ou Flávio Medeiros.

Para além das publicações da Tarja Editora ( FCdoB, Os Dias da Peste e Steampunk), a Draco Editora (responsável pelo lançamento das colectâneas imaginarios, onde podem encontrar alguns autores portugueses), publica Xochiquetzal – uma princesa asteca entre os incas, da autoria de Gerson Lodi-ribeiro. Ainda, da autoria de Albarus Andreos, é publicado A Fome de Íbus.

Esta semana … (2009.11.07)

Atrasado, mas ainda a tempo :). Aqui fica um pequeno apanhado das críticas a livros fantásticos e FC desta semana.

Drood, Dan Simmons (Blog Saída de Emergência) – se já pensava ler o livro, agora ainda fiquei mais curiosa. Em princípio este será um dos próximos livros do autor a ser publicado em português, assim como The Terror, pela Saída de Emergência. Para quem não conhece, este é o autor de A Canção de Kali e Clube de Patifes.

A Corte dos Traidores, Robin Hobb (Bela Lugosi is Dead e Estante de Livros)

– Ghostgirl – A Rapariga Invisível, Tonya Hurley (As Leituras do Corvo e Bela Lugosi is Dead)

– Fúria, L. J. Smith (As Leituras do Corvo)

O Homem Pintado, Peter V. Brett (Páginas desfolhadas  e Estante de Livros)

Os Jogos da Fome, Suzanne Collins (Correio do Fantástico) – este é outro que me começa a intrigar, pelas sucessivas críticas muito positivas.

American Gods, Neil Gaiman (Der Wanderer’s Blog)

Não é uma crítica literária, mas depois do artigo publicado no blog da Pó dos livros, fica o post no blog da Safaa Dib sobre pseudo-editoras. De leitura obrigatório para todos aqueles que desejam um dia ser publicados.


O Monte dos Vendavais – Emily Bronte

Irmã de Anne e Charlote Bronte, Emily Bronte escreveu, na sua curta vida, um único livro, Wuthering Heights, conhecido em português como O Monte dos Vendavais. Em Portugal o livro conhece diversas edições, pelas editoras Relógio D’Água, Europa-América, Civilização e Dom Quixote (citando apenas algumas), chegando agora a vez da Editorial Presença.

Mr. Lockwood, habituado ao reboliço da cidade, desloca-se ao Yorkshire para uma calma temporada no campo, alugando a casa Thrushcross Grange. O seu senhorio,Heathcliff, é, no entanto, uma pessoa muito estranha, um homem de péssimos modos, que vive numa luxuosa mas mal estimada casa, que partilha com mais algumas pessoas, com as quais a ligação familiar é pouco clara a Mr. Lockwood. Curioso, Lockwood questiona a governanta sobre os moradores da casa de Heathcliff, no Monte dos Vendavais. Esta terá conhecido Heathcliff desde pequeno e narra a história que é a linha narrativa principal do livro.

Heathcliff foi encontrado e adoptado em pequeno por Mr. Earnshaw, pai de duas crianças, Catherine e Hindley. Criado como filho por Mr. Earnshaw, desenvolve-se entre ele e Catherine uma forta amizade e cumplicidade. No entanto, um ódio poderoso cresce em Hindley por Heathcliff que o vê como rival dos afectos do pai. Após a morte de Mr. Earnshaw, Hindley assume o lugar de chefe de família, tratando Heathcliff não como um irmão, mas quase como um escravo, fazendo com que este jure se vingar um dia.  Catherine cresce, tornando-se numa jovem bela, educada e saudável, mas rebelde e caprichosa acabando por se comprometer com uma rapaz de estatuto social semelhante, Edgar, também ele de mentalidade acriançada e demasiado mimado.

No compromisso entre Catherine e Edgar tudo parece iniciar-se de forma errada – Catherine apercebe-se de que os seus sentimentos por Heathcliff poderão ser algo mais do que amizade, e Edgar deixa-se manipular totalmente pelas birras de Catherine. Face ao compromisso estabelecido por Catherine, Heathcliff abandona então tudo e todos, procurando a sua própria fortuna. Anos mais tarde regressa, rico e Catherine é atormentada pela rivalidade entre o marido e o amigo de infância.

Emily Bronte criou, em O Monte dos Vendavais, uma tragédia romântica em que todas as personagens têm as suas qualidades e fraquezas – a governanta de Lockwood que terá ajudado a criar Catherine é uma linguaruda metediça que por vezes age de forma preconceituosa, mas possui um coração de manteiga; por sua vez Catherine, uma criança inteligente revela-se uma mulher caprichosa e Heathcliff torna-se num homem rancoroso que não liga aos meios que adopta para exercer a sua vingança. Emily Bronte explora o ódio, a vingança e o rancor, mas também a inocência e a amizade num romance sem heróis ou vilões absolutos.

Apesar de se tratar de um clássico O Monte dos Vendavais é de leitura relativamente rápida e mais acessível do que outros livros da mesma época e género como A Corcunda de Notre Dame de Victor Hugo.

 

A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina – Italo Calvino

A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina foi um dos livros de Italo Calvino re-editados pela Teorema com nova e mais apelativa capa. Livro pequeno, é constituído pelas duas histórias indicadas no título, possuindo, no início, uma carta do autor em resposta a uma crítica no jornal relativamente a A Nuvem de Smog, onde se terá criticado a alternância de tom e o cinzento do texto.

A Nuvem de Smog é mesmo um texto cinzento, mas não no tom nem nas palavras escolhidas, antes pelo pó que envolve a cidade e o protagonista principal, num cenário melancólico e decadente. A história centra-se num jovem jornalista que aceita lugar num jornal de fortes preocupações ambientais. O seu fraco rendimento permite-lhe alugar um quarto na casa de uma mulher surda que, apesar dos esforços, não consegue expulsar todo o pó que se acumula constantemente em todos os cantos da casa: pó no cimo dos móveis, poeira densa que se acumla entre as páginas dos livros e se despega aquando da leitura, deixando as mãos pretas, que são lavadas a cada passagem:

Mas os livros, já se sabe quanta poeira absorvem: escolhia um da prateleira, mas antes de o abrir tinha de esfregá-lo com um trapo todo em volta: saía uma poera enorme! Então tornava a lavar as mãos e depois deitava-me em cima da cama a ler. Mas ao folhear o livro, não valia a pena, sentia nas pontas dos dedos aquele velo que se tornava cada vez mais macio e me estragava por completo o prazer da leitura.

Segue-se A Formiga Argentina, uma história mais pequena, que acompanha um casal que se muda para uma terriola acossada constantemente por uma praga de formigas. Vários são os métodos aplicados pelos moradores da pequena vila, desde venenos a armadilhas, mas as formigas continuam a encontrar caminho para o interior das casas:

Este livro encontra-se, para mim, bastante abaixo das minhas obras preferidas de Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante, e Barão Trepador: são interessantes, mas não cativantes. O primeiro não é apenas uma história, mas também um texto de preocupações ambientais, retratando em parte a sociedade e a vida cada vez mais cinzenta e menos saudável nas cidades industrializadas.

O Périplo de Baldassare – Amin Maalouf

Libanês, Amin Maalouf chegou como refugiado a Paris em 1949, onde vive actualmente. As suas obras são escritas em francês, mas encontram-se traduzidas para diversas línguas. Talvez como resultado das experiências vividas, os livros de Amin Maalouf rodam frequentemente em torno de guerras civis ou migrações; e as personagens são itinerantes ou viajantes entre várias terras, linguagens, culturas ou religiões.

O Périplo de Baldassare decorre no ano de 1665, data em que se pensou que o Mundo acabaria por associação com o número da Besta – 666.

Aqui é que está a sabedoria: Quem tiver inteligência calcule o número da fera, pois é número de homem; e o seu número é seiscentos e sessenta e seis. In Revelação 13:16-18

Wisdom is needed here; one who understands can calculate the number of the beast, for it is a number that stands for a person. His number is six hundred and sixty-six. In Revelation 13:16-18

Com a aproximação do novo ano, o caos instala-se no Mundo – as estranhas coincidências matemáticas de diferentes fontes culturais assim como as referências bíblicas parecem convergir no número 1666. Baldassare, um genovês viúvo e extremamente racionalista, afasta-se inicialmente de tais crenças apocalípticas, mas o nervosismo dos que o rodeiam é difícil de ignorar.

Às mãos de Baldassare vem parar um mítico livro, O Centésimo Nome, que se diz conter o nome mais ilustre de Deus que poderá conceder a graça divina. Por acaso do destino, o livro não permanece nas mãos do genovês mais do que uns breves instantes, vendo-se obrigado a vendê-lo a um nobre francês.

Face à histeria familiar, Baldassare, um homem pacato, é atirado numa viagem mais longa do que antecipava, com o objectivo de aliviar a sua consciência, e nem a sua extrema racionalidade o protege da loucura do ano da Besta.

De linguagem acessível, O Périplo de Baldassare encontra-se entre os melhores Romances Históricos que já li, intercalando a acção com alguns períodos de reflexão.

Outros livros do autor

O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Zafon

Depois do sucesso de A Sombra do Vento, a Dom Quixote publica O Jogo do Anjo, um romance que decorre no mesmo espaço (Barcelona), numa época anterior mas com algumas das mesmas personagens secundárias.

O romance inicia-se com um parágrafo enigmático, cujo sentido apenas é percebido na totalidade, após o final da história:

Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita umas moedas ou um elogio a troco de uma história. Nunca esquece a primeira vez em que sente no sangue o doce veneno da vaidade e acredita que, se conseguir que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de lhe dar um tecto, um prato de comida quente ao fim do dia e aquilo por que mais anseia: ver o seu nome impresso num miserável pedaço de papel que certamente lhe sobreviverá. Um escritor está condenado a recordar esse momento pois nessa altura já está perdido e a sua alma tem preço.

Estas palavras devem-se à personagem principal, Martin, um jovem que trabalha num jornal onde começa a publicar pequenos textos, protegido por Pedro Vidal, um homem poderoso na cidade de Barcelona. A mãe de Martin terá abandonado a família vários anos antes aquando do retorno do marido da Guerra – um soldado entorpecido que da vida apenas conhece a bebida e a morte, e que após saltitar entre vários empregos aos quais não se adapta, morre às portas do jornal La Voz de La Industria como segurança.

Martin ganha o seu próprio sustento no mesmo jornal, onde as suas capacidade literárias cedo o tornam alvo do ciúme dos colegas. Pedro Vidal acaba por lhe conseguir um contrato com uma editora que lhe permitirá viver da escrita: aproveitando a avultada soma de dinheiro que consegue pelos seus livros, arrenda uma austera mas temida casa, que consigo traz fantasmas do passado. Apaixonado pela secretária de Vidal, Cristina, a vida de Martin resume-se a ansiar pela sua atenção e em escrever mais livros, ao mesmo tempo que é assediado pelo dono de uma editora francesa para um projecto especial.

Na casa onde habita terá vivido há vários anos um outro escritor, apaixonado por uma artista de origens duvidosas, que terá conhecido o dono da mesma editora francesa, e terá sido contratado para pertencer ao mesmo projecto especial. Nos quartos há muito fechados existem fotos perturbantes e a curiosidade fará Martin iniciar uma investigação em torno dos antigos habitantes da casa.

Em O Jogo do Anjo não só retornamos ao cemitério dos livros tão falado em A Sombra do Vento, como conhecemos um Sr. Barceló mais novo e as gerações anteriores da família Sempere, ainda que aqui tenham um papel secundário. Para além das personagens, a história de Martin recorda levemente a do escritor investigado por Daniel Sempere, Julian Carax.

Apesar de algumas semelhanças O Jogo do Anjo pareceu-me uma história mais madura onde encontro dois pontos fracos: Martin é um jovem que deixa passar a vida demasiado facilmente; e o sobrenatural tem um forte papel nos acontecimentos.

Para além destes dois pontos, fiquei positivamente surpreendida pela diferença de tom entre os dois livros  – Martin torna-se uma personagem caústica em cuja boca as verdades são, por vezes, disparadas de forma crua; e algumas das personagens revelam-se algo muito diferente do que estávamos à espera. Reinam as aparências, a cobardia e o sentimento de culpa por acções passadas e os descendentes nem sempre poderão desligar-se do passado familiar. Deixa-se de parte a inocência ainda que as intenções sejam boas.

Esta é, sem dúvida, uma história mais negra que A Sombra do Vento, mas onde também os livros possuem um papel fulcral no desenrolar dos acontecimentos. Talvez por isso tenha gostado imenso da história, ainda que de forma diferente do primeiro livro que li do autor.

Shelves 23

Há cerca de um mês a Bis lançou um pequeno concurso no âmbito do Dia Mundial do Livro, em que o prémio seria um exemplar à escolha da colecção Bis. O escolhido foi Alice no País das Maravilhas, que se encontra no topo da pilha de livros. Por alguma razão Alice no País das Maravilhas era uma história que com a qual nada simpatizava quando pequena – simplesmente odiei o gato (irritante), o coelho stressado e nunca consegui simpatizar com a rapariga de nome Alice. Do desenho animado é esta a recordação que me ficou, mas com os anos li algumas coisas interessantes sobre o livro que me despertaram a curiosidade.

Iron Angel é o segundo volume de uma trilogia iniciada com Scar Night, um livro engraçado de fantasia que retrata a vida de um jovem anjo, o último da sua espécie e um fraco sucessor à temida imagem do pai. Recordo Scar Night como um livro cujo final estragou em parte a história, o que talvez tenha sido remediado em Iron Angel.

O livro que deu origem ao filme Blade Runner, tem como título Do Androids Dream of Electric Sheep? – um título curioso para uma obra que, grande falha minha, nunca li. Finalmente após algumas tentativas em adquirir em inglês, decidi-me a aproveitar uma encomenda para o incluir.

De Mr Weston’s Good Wine não tenho grande ideia sobre  o que vai sair, a não ser que se trata de uma estranha alegoria religiosa (conforme indicam todos os comentários que li ao livro):

“Mr Weston’s Good Wine” is the unusual tale of the struggle between the forces of good and evil in a small Dorset village. Its action is limited to one winter’s evening when time stands still and the bitter-sweet gift of awareness falls upon a dozen memorable characters. During the book a child knocked down by his car is miraculously brought back to life; the sign ‘Mr Weston’s Good Wine’ lights up the sky; and the villagers soon discover that the wine he sells is no ordinary wine.

Ballard é dos autores mais conhecidos de Ficção Científica, outro daqueles cujo trabalho desconheço e que resolvi adquirir. Tanto The Atrocity Exhibition como Crash são duas das suas obras mais controversas. O primeiro é um conjunto experimental de pequenas histórias, cujas partes possuem títulos como Why I Want to Fuck Ronald Reagan ou Love and Napalm: Export USA. O segundo, Crash, explora o fetiche com acidentes de carros, em que as personagens sentem estímulo sexual quando participam em acidentes automobilísticos. No mínimo, estranho. The Atrocity Exhibition é o livro que estou a ler de momento e a experiência é totalmente alienígena – ainda não sei o que pensar do que estou a ler, talvez no final.

The Love We Share Without Knowing é o segundo livro de Christopher Barzark, lançado em 2008 e alvo de excelentes críticas até ao momento. O primeiro, One for Sorrow, tinha-me deixado curiosa, mas não o sufiente. Algumas críticas positivas ao segundo livro levaram-me a dar uma oportunidade ao autor supostamente do género fantástico, ainda que os títulos recordem romances lamechas.

The Girl with Glass Feet é um pequeno romance pouco usual com pitadas de fantasia – engraçado e de leitura rápida, mas nada de espectacular. Uma jovem vê os seus pés transformarem-se gradualmente em vidro, e atrás deles os calcanhares…. Em busca de um remédio procura um homem que lhe terá falado de  uma doença semelhante, e para tal origina um mar de encontros que desenterram memórias passadas.

De Peter Beagle apenas li The Last Unicorn,  uma história que tem menos de conto de fadas do que parece, em que as personagens sofrem uma evolução interessante na história de contornos por vezes satíricos. We Never Talk About My Brother é o mais recente livro de Peter Beagle, uma colectânea de contos:

Modern parables of love, death, and transformation are peppered with melancholy in this extraordinary collection of contemporary fantasy. Each short story cultivates a whimsical sense of imagination and reveals a mature, darker voice than previously experienced from this legendary author.

The Best of Michael Moorcok pretende reunir os melhores contos e histórias curtas de um autor que dispensa apresentações, propondo-se a revelar um autor um pouco diferente do do famoso Elric.  Uma listagem de conteúdos pode ser consultada no site oficial da editora.

Beyond Armageddon é o primeiro livro de uma colecção com o mesmo nome, onde se incluem outras obras como Last Man (Mary Shelley) ou The Queen of Springtime (Robert Silverberg). O livro em questão é um conjunto de contos de diversos autores em torno de uma única premissa – a vida depois de uma guerra nuclear. Entre os autores dos contos podemos encontrar Poul Anderson, Carol Emshwiller, Ballard, Michael Swanwick ou Ray Bradbury.

Chegamos então à secção de BD’s e Comics, The Complete Maus, Joker e o terceiro volume de Dark Tower. Maus retrata a luta pela sobrevivência do pai de Spiegelman durante o Holocausto e todas as personagens são representadas por animais (por exemplo, os judeus são ratos).

Estrela Distante – Roberto Bolano

Estrela distante é um dos livros escrito por Roberto Bolano, autor chileno que após a morte parece ter-se tornado uma celebridade em ascensão, com a publicação do seu romance incompleto, 2666. Se este último é um calhamaço de 1000 páginas, Estrela distante é exactamente o oposto – um livro fino que não chega a contar as 160.

A história centra-se na observação de um aspirante a poeta, um auto-didacta que comparece a encontros de poetas que se torna amigo apenas dos membros do género feminino, principalmente das gémeas Garmendia: Alberto Ruiz-Tagle. Personagem dúbia, Alberto destaca-se por parecer um homem culto e talvez talentoso, cujos poemas se caracterizam como impessoais e distantes.

Com o desenrolar da história, observador e observado separam-se, mas através de relatos de amigos é-nos revelada uma outra face de Alberto, um homem de crenças obscuras e múltiplas capacidades, a quem são atribuídos alguns dos actos mais hediondos praticados durante o Regime de Pinochet.

Estrela distante é mais do que um romance em torno de uma personagem complexa, é também o relato indirecto da vida sob o regime ditatorial chilena e a permanência dos fugitivos e exilados na Europa, chegando a ser, até uma crítica ao Chile.

Este é, no mínimo, um livro estranho, onde a par com a observação de uma personagem dúbia se relatam pequenos episódios cuja ironia apenas poderia ser captada por um bom observador – como um maluco que poderia ter fugido no momento certo, não fosse maluco. Talvez por ser um livro tão pequeno, gostei, mas não me fascinei – ficou a curiosidade em ler algo mais do autor.

The Girl with Glass Feet – Ali Shaw

Já deram por vocês a  ler um livro pela premissa?

Na realidade, o que me fez pegar no livro foi a capa. Ainda que num ecrã de computador não pareça nada de espectacular, ao vivo, o alto relevo da tinta preta destaca-se da capa azul clara e branca, criando um contraste atraente.

Depois li a sinopse, que me recordou a premissa de vários livros de Haruki Murakami, Ray Bradbury ou Roadl Dahl: num determinado local ocorrem vários estranhos fenómenos que poucos questionam. Neste caso, entre pequeno gado voador, uma alta frequência de animais albinos e anémonas que brilham no oceano; os pés de Ida transformam-se lentamente em vidro.

Ida procura uma cura, pistas para descobrir que doença será esta que lhe torna os pés pesados e cristalinos. Procura mais especificamente Henry, um homem que terá conhecido antes e lhe terá falado de homens transformados em vidro.  Deambulando cautelosamente pela floresta, Ida conhece Midas, um tímido e jovem fotógrafo que ficará obsecado em fotografar o aspecto monocromático e frágil de Ida.

Ainda que possua vários elementos fantásticos, a história não possui a estranheza da prosa dos autores referidos anteriormente, e a semelhança fica-se pelo peculiar encontro de fenómenos típicos do local onde decorre a acção. É, em suma, um romance, uma pequena história de amor, um desenrolar de encontros e desencontros ao longo dos anos, que com o encontro de Ida e Midas são conhecidos e percebidos.

O livro não é mau, mas também não é excepcional – simples e de leitura rápida, mas com interessantes elementos surreais e personagens peculiares que parecem subaproveitadas no cenário onde se encontram.