É oficial. Kingfisher entrou para a lista oficial de autores favoritos. The Hollow Places tinha sido uma leitura agradável (e curiosa) com vários elementos lovecraftianos e uma abordagem diferente. Nettle and Bone, um dos mais recentes livros da autora, tinha surpreendido muito positivamente tornando-se numa das melhores leituras dos últimos tempos ao apresentar uma demanda fantástica com personagens improváveis (ou menos comuns) como motores narrativos.

What moves the dead, a mais recente obra da autora (pelo menos publicada, já que existem pelo menos outras duas já planeadas para 2023), não sendo uma história tão longa quanto Nettle and Bone, é contida, sem elementos desnecessários, e com uma premissa interessante, que está nos limites do fantástico e do horror, enquanto se aproxima do New Weird de Jeff Vandermeer, mas num estilo mais limpo e linear.

Não que as histórias anteriores apresentassem elementos desnecessários, mas, por exemplo Nettle and Bone, apresenta uma demanda à qual se juntam várias personagens e, como tal, é necessário explicar como se juntam os restantes membros do grupo. Neste caso, em What Moves the Dead, a história é centrada numa só personagem, sem grandes reviravoltas. Mesmo as revelações que existem são expectáveis (e contextualizáveis), mas nem por isso menos impactantes.

Tal como outros livros da autora, What Moves the Dead centra-se numa personagem pouco tradicional, um militar do reino Gallatian que, ao receber uma carta de uma amiga, se resolve a visitar a casa dos Usher. Um militar, ou uma militar. Percebe-se que no reino de origem a distinção entre homens e mulheres nem sempre é muito clara, sobretudo para aquelas que se juntaram ao exército. Mas este detalhe vai sendo explorado ao longo da narrativa, sempre que tal é apropriado.

A militar chega à casa e logo repara nalguns detalhes perturbantes. Não que seja uma pessoa facilmente perturbável, mas é impossível não reparar nos estranhos cogumelos que vivem ao redor do lago, ou na casa degradada e em queda física, ou no próprio lago sombrio. Mas é exactamente na paragem ao lado do lago que há-de encontrar uma especialista de fungos que procura descobrir novas espécies.

Após estas primeiras impressões pouco auspiciosas, a militar prossegue, descobrindo que, dentro da casa, o ambiente é ainda mais tenebroso. A luz é escassa, o ar é pesado, e Madeline Usher apresenta um aspecto frágil e cadavérico. Mas mais inquietante do que tudo isto, é o comportamento de alguns animais em torno do lago.

A reviravolta final é, conforme já referi, expectável, mas nem por isso menos impactante. Por um lado, já conhecemos o desenrolar da história (sendo um recontar de The Fall of The House of Usher, com bastantes diferenças nos detalhes), e por outro, todos os episódios são lógicos ou preparados com antecedência. Diria que o ponto menos positivo na narrativa, será a escassez de personagens, fazendo com que o encontro com a senhora que estuda os fungos, pareça demasiado sortudo.

A semelhança com a história de Edgar Allan Poe é notória e propositada, ou não fosse esta história um recontar do clássico de horror. Ainda assim, é uma história autónoma que não precisa de leitura prévia do clássico e que consegue cativar o leitor por si própria. Notam-se, no entanto, os detalhes em comum, bem como o ambiente da história.

Para além das semelhanças com o clássico que inspirou esta história, não deixei de comparar com outros livros de fantasia que também usam fungos como elemento fundamental – o clássico de Jeff Vandermeer, City of Saints and Madmen, ou o mais recente livro de Silvia Moreno-Garcia, Mexican Gothic. Tal como em Mexican Gothic, mistura-se fantasia com elementos de ficção científica, tentando usar factos e elementos científicos para explicar o fenómeno fantástico e sobrenatural.

Tal como outros livros de Kingfisher, as personagens principais não são as habituais. Nem o soldado é o exemplar masculino supremo, nem a pessoa experimente e conhecedora é um homem de idade. E entre a apresentação das personagens e o demonstrar do seu percurso, tocam-se levemente nas questões de género

I was a pretty doll for my mother to dress up and for men to look at, and then she died and eventually I came here, where there were no men to look at me.

Conclusão

What moves the dead é uma história mais curta do que a anterior desta autora. Menos complexa também, com menos personagens e menos momentos emocionantes. Trata-se, no entanto, de uma adaptação de um clássico de horror , The Fall of the House of Usher, em que a autora usa os contornos da história principal para preencher com elementos e personagens interessantes e pouco usuais. O resultado é muito bom e convenceu-me a encomendar ainda mais livros desta autora.