Decorre anualmente, no Fórum Fantástico, um painel onde um grupo de pessoas apresenta as melhores leituras do ano. Inicialmente este painel tinha como figura central João Barreiros. Nos últimos anos o autor de ficção científica não tem podido apresentar os seus livros favoritos, pelo que os seus “sobrinhos” se continuam a juntar para apresentar as melhores leituras do ano: Artur Coelho, Cristina Alves (eu), João Campos e Rogério Ribeiro. Para os interessados, deixo-vos o link para todas as leituras que foram apresentadas.

Este ano a sessão iniciou-se com três sugestões de leitura enviadas por João Barreiros, Whalefall de Daniel Kraus, Eu Sou o Peregrino de Terry Hayes (lançado em português pela TopSeller há cerca de 10 anos) e Gagner la Guerre de Jean-Philippe Jaworsky.

Pela minha parte comecei com o segundo volume de Winepunk, que se destaca (como seria de esperar) pela qualidade dos contos no Universo ficcional, como pela qualidade da edição, com apresentação de introduções, cronologias e mapas. É, do ponto de vista de edição, um dos melhores livros que podem encontrar de autoria portuguesa.

De seguida, referi a série Murderbot. O primeiro volume da série foi lançado em Portugal pela Relógio d’água. Não tendo a editora portuguesa prosseguido com a série, adquiri os restantes em inglês. A qualidade nem sempre é constante (há histórias muito boas e outras boas), mas tratam-se (quase sempre) de pequenas novelas que contam uma aventura do Murderbot. Ainda que os livros tenham continuidade entre si, apresentam arcos narrativos com um fim próprio. A narrativa destaca-se pelo tom irónico e pela humor negro, sendo que o Murderbot é um grande crítico dos seres humanos.

Segue-se uma sugestão mais cómica. Ainda que, em termos de escrita, não seja uma obra prima, How to become the Dark Lord and Die Trying centra-se numa pessoa que se vê num mundo fantástico onde é levada a unir os exércitos contra as hordas de orcs. Caso morra, ressuscita no mesmo local, e é novamente incentivada a tornar-se um herói. Depois de várias mortes tortuosas, a personagem resolve mudar o rumo, e tornar-se o próximo Dark Lord. A narrativa encontra-se carregada de humor negro, bem como de episódios onde as capacidades de liderança motivacional serão importantes.

Eis um dos mais recentes e famosos lançamentos de Grimdark – The Devils de Joe Abercrombie. A narrativa decorre numa espécie de Europa de contornos medievais, onde existem criaturas como Elfos Negros e vampiros, não faltando maldições e necromantes. Na realidade aqui descrita a Igreja Católica tem um imenso poder e apesar de considerar todas as criaturas heréticas, a verdade é que tem um grupo preso que liberta para missões perigosas.

Neste caso, o grupo é encarregue de colocar a sucessora no Trono Imperial. Cada personagem é pior do que a outra, mas entre defeitos lá se vão entendendo. A história está carregada de acção e de humor negro (sim, já é o terceiro livro seguido com esta característica) destacando-se episódios como o levantar de mortos lineares pelo Necromante (digamos que não estão muito inteiros) ou uma lobisomem que resolve fornicar à vontade com quem encontra pelo caminho. O livro (apesar de enorme e de pensar que poderia sobreviver bem com menos 100 páginas) tem passagens geniais de tão macabras.

Every heart a doorway parece, à primeira vista uma leitura fofinha. Desenganem-se. A história apresenta uma premissa comum a tantas outras onde várias crianças encontram portas que as levam para um mundo diferente do nosso. Mas nem todos estes mundos são fofinhos. Alguns estão repletos de vampiros ou de demónios, mundos onde não se pode respirar ou deter cor. Mas, de alguma forma, algumas crianças voltam ao mundo original, passando os dias a pensar num regresso. São estas crianças que são colocadas num colégio interno de inadaptados – e para além dos detalhes mórbidos que vão partilhando, a narrativa apresenta uma série de homicídios macabros que terão de ser resolvidos pelos próprios jovens.

Segue-se um livro que me surpreendeu pela positiva e que me convenceu a ler a trilogia. Emily Wilde’s Encyclopaedia of Faerie centra-se numa académica que tem como objectivo máximo publicar a próxima enciclopédia féeria. Um projecto ambicioso que não lhe dá margem para mais nada. Apesar de catalogado como Romantasy, o romance é completamente tangencial apesar de servir a narrativa para dar perspectivas únicas para as criaturas. A personagem principal é muito boa em perceber as regras dos mundos féericos, mas uma desgraça a interagir com humanos. Para além disso, as criaturas são peculiares e caprichosas, por vezes perigosas e amaldiçoadas, levando a uma narrativa carregada de tensão.

Volatile memory de Seth Haddon é outra daquelas pequenas leituras que surpreende, apesar de usar uma premissa relativamente comum a outras leituras. A narrativa leva-nos para um futuro distante onde os humanos habitam vários planetas e onde alguns subsistem recolhendo e vendendo pedaços de tecnologia que encontram. O que é diferente nesta narrativa? Bem, neste futuro, os humanos possuem máscaras que os ajudam a ligar-se à tecnologia que os rodeia, bem como aos dados e créditos. Mas estas máscaras também desenvolvem capacidades mentais e físicas. A personagem possui uma máscara barata de coelho. Mas quando encontra a máscara de um predador, a sua existência vai ter uma reviravolta furiosa.

Eis uma das melhores leituras do ano – The River has roots. O livro é também pequeno, apresentando palavras milimetricamente escolhidas para passar todas as mensagens que precisa. Aliás, as próprias palavras escolhidas criam um mundo fantástico e curioso, uma existência simultaneamente poética e prática que nos situam numa realidade incerta.

It lasts forever and then it’s over é outro dos livros que mais me surpreendeu, usando uma premissa que quase enjoa de tão batida – a dos zombies. Mas, e se o apocalipse zombie fosse contado na perspectiva do próprio zombie que, tendo o corpo a apodrecer, vai sofrendo degenerescência das suas capacidades mentais? Esta recomendação foi, também, apoiada pelo João Campos.

Passando às melhores leituras de banda desenhada, começo com Fojo, um livro a preto e branco que retrata o ambiente opressivo de uma aldeia no interior português, rodeada pela neve, onde as mezinhas da bruxa têm tanto peso quanto as rezas do padre. Neste caso, o quotidiano adquire contornos sobrenaturais quando decorre um assassinato.

A Bela Casa do Lago começa por nos apresentar um grupo de amigos que se viu convidado a passar o fim de semana numa casa idílica que contém tudo aquilo de que possam precisar. Os primeiros momentos são agradáveis. Até se aperceberem que a restante humanidade se está a desfazer lentamente, através de vídeos nas redes sociais. O grupo de amigos é, portanto, o grupo de sobreviventes, numa casa que parece funcionar como uma espécie de Big Brother, mas onde os espectadores são alienígenas. A narrativa desenvolve-se lenta e misteriosamente.

Já vi referências à série As 5 Terras como sendo A Guerra dos Tronos em banda desenhada. Não concordo totalmente apesar de perceber os pontos em comum – várias personagens e perspectivas (que dão uma visão alargada sobre os acontecimentos) bem como tramas políticas, traições e mortes sucessivas. A história começa por nos mostrar um rei moribundo que não deixa herdeiro claro do trono. Tal origina uma sucessão de mortes, onde os reinos são de curta duracção.

Este ano tenho explorado séries Mangá. Depois de ter descoberto a Promised Neverland, este ano aconselho Magus of the Library. Na realidade aqui descrita cada cidade possui uma biblioteca que é, para além de fonte de livros, uma espécie de sede de poder, existindo uma biblioteca central que tem um papel bastante relevante na sociedade. A história vai apresentando detalhes sobre o mundo, alterando entre descrições de religiões e culturas, mas também fazendo referências a livros que não existem – como o que se encontra na capa, Kafka of the Wind.

A última sugestão em modo único (já explico) é The Carrier Bag Theory of Fiction. Quase tudo o que Ursula Le Guin escreve é formidável. Neste pequeno livro a autora põe de parte um pouco a narrativa centrada no percurso do herói e explora outra perspectiva para a construção de boas histórias.

Então agora, o que falta? As recomendações conjuntas. É que, curiosamente, este ano, houve algumas sobreposições entre recomendações. Eis quais foram.

Gostei de tal forma do primeiro, The Butcher of the Forest, que corri a acrescentar todos os livros da autora à lista de futuras aquisições. A história centra-se numa mulher que já não é jovem e que carrega no corpo as mazelas de anteriores aventuras. Mesmo assim vai ser forçada a entrar numa floresta amaldiçoada para resgatar os filhos do déspota local. A história explora dever e trauma, num ambiente sombrio e pouco optimista. A recomendação é partilhada com João Campos.

Sofia Samatar já me tinha surpreendido há alguns anos com A Stranger in Olondria, e repete o feito com este pequeno livro de ficção científica, The Practice, the horizon and the chain. A história apresenta-nos uma sociedade com estratos sociais, destacando-se por nos mostrar como, apesar de todos habitarem na mesma nave, a realidade a que têm acesso é tão distinta. A recomendação é partilhada com João Campos.

A última recomendação em comum é o mais recente livro de Pedro Medina Ribeiro, uma colectânea de contos, A Serpente no sotão. A recomendação é partilhada com Rogério Ribeiro e Artur Coelho. É, tal como a anterior colectânea do autor, uma recomendável compilação de histórias, destacando-se por apresentar histórias quer de horror de contornos góticos, como histórias que se aproximam mais do thriller.

Entre as recomendações dos meus colegas de painel, eis as que me mais me cativaram. City of last Changes de Adrian Tchaikosvky (recomendado pelo Rogério Ribeiro) parece retratar uma cidade fantástica onde a vida parece tudo menos simpática – entre invasores, criminosos e maldições. Aproveito para reproduzir o anúncio de Rogério Ribeiro – o autor virá à Eurocon 2027! Já Vajra Chandrasekera tinha-me captado interesse com o seu anterior livro, mas não o encontro à venda há algum tempo. Este Rakesfall (indicado pelo João Campos) já cá está na estante.

A Short Stay in Hell (sugestão de Artur Coelho) possui uma premissa curiosa onde alguém que morreu e tinha a religião errada, poderá, mesmo assim, ir parar ao paraíso – se conseguir encontrar numa imensa biblioteca, o livro da sua vida. Finalmente, A Frog in the Fall destaca-se pelo visual e pela premissa, recordando, à primeira vista, o segundo volume de O Vento nos salgueiros, denominado O Vento nas Areias.

Entretanto, o Artur Coelho já partilhou o seu parecer ao painel de Leituras do ano, e o João Campos falou da sua experiência no Fórum Fantástico, bem como das suas escolhas.