Artemis – Andy Weir

Não li o famoso Marciano de Andy Weir. Nem vi o filme. Apesar da curiosidade inicial, a excessiva fama levou-me a afastar da história durante uns tempos para não ir com excessiva expectativa. Apesar de ser do mesmo autor, este Artemis ainda não tem um grande histórico de fama, pelo que me resolvi a experimentá-lo.

Fluído e divertido, centra-se na personagem ideal – Jazz, alguém de bons princípios que seguiu um percurso à margem da lei, desviada pelas circunstâncias da vida e as más companhias. Ainda assim não se safa mal e gere o contrabando da cidade lunar, Artemis, tendo como objectivo acumular uma soma que a deixará confortável.

O livro começa com uma cena movimentada em que Jazz tenta regressar à cidade com toda a rapidez, depois de ter um problema técnico com o seu fato. Conseguiu-se salvar mas chumba o exame que lhe permitiria servir de guia para turistas, uma ocupação que lhe concediria uma maior remuneração.

Frustrada, continua com a ocupação legal de transporte de mercadorias que lhe permitem camuflar o contrabando – e é nessa altura que lhe propõem um outro tipo de trabalho, algo mais arriscado mas também com uma margem de lucro muito superior. Algo que a irá colocar no caminho de mafiosos que, felizmente, não têm agentes suficientes em Artemis. Ainda.

Demasiado centrado numa única personagem, muito inteligente e de imenso potencial, Artemis é uma leitura movimentada e divertida que nos leva à primeira cidade fora da Terra, com todos os constrangimentos que esta existência terá na sua construção e nos seus habitantes. O espaço escasseia, o ar é controlado, os possíveis incêncios são a prioridade máxima da cidade e a comida é sobretudo uma tentativa de reconstrução terrestre ou uma gosma de mau sabor.

É neste contexto que Artemis explora, com competência, as características do espaço (falta de atmosfera, pouca gravidade ou recursos locais) para nos levar por uma história de acção onde existem vilões relativos e bonacheirões prejudiciais. Existe uma tentativa constante de nos fazer simpatizar com a personagem principal (Jazz, a rapariga inteligente que se deixou levar por maus caminhos) que comigo nem sempre resultou – mas nem precisou de resultar para se tornar uma leitura absorvente.

Artemis foi publicado pela Topseller.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (4)

140 – O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado – Uma série de contos de ficção especulativa, com elementos de ficção científica, fantasia e horror, que apresentam personagens com diferentes sexualidades e nas quais a sexualidade é parte da história, como algo natural. Estes contos podem servir de ponto de partida para discussões mais profundas sobre dinâmica de género ou de relação, ou podem ser simplesmente apreciados conforme se apresentam;

141 – Cicatriz – Sofia Neto – Enquadrado no género da ficção científica, apresenta um futuro em que a o sociedade é dividida. Alguns escolheram permanecer dentro das cidades, com acesso a todas as componentes tecnológicas, enquanto outros ficam nos campos. Duas realidades fechadas, alimentando rumores sobre a outra metade que é demonizada sobre os aspectos mais propícios. Uma leitura interessante e inesperada ainda que saiba a pouco a incursão neste mundo;

142 – Tatuagem – Hernán Migoya e Bartolomé Seguí – Adaptação de um romance policial, apresenta alguns clichés do género, fazendo piada sobre estes mesmos aspectos comuns a tantas outras obras de ficção policial. A personagem principal é um homem que não perde a oportunidade de se aproximar de mais uma donzela, aliás, algo que partilha com o homem de quem procura a identidade;

143 – O jogo – Carmo Cardoso e José Machado – Trata-se de um dos mais recentes contos de ficção científica publicados na colecção Barbante que nos apresenta a situação limite de uma vida dependente do resultado de um jogo.

Seis drones – Novas histórias do ano 2045 – António Ladeira

Infelizmente não compareci ao lançamento na livraria Barata, nem falei com ninguém que tivesse comparecido, mas parece-me que o autor sabe bem que pode ser enquadrado no género de ficção científica e não o esconde. Refere-se ao género na sinopse, e nas referências literárias que apresenta, com Orwell, Bradbury ou Philip K. Dick.

Também não li o outro volume do mesmo autor, Os Monociclistas e outras histórias do ano 2045 (mas já o acrescentei à lista de encomendas), mas o livro pode ser lido isoladamente sem interferir na interpretação do leitor. O que encontramos são seis contos que parodiam a tecnologia e a obsessão por segurança, dois elementos que, em conjunto, possibilitam a criação de sociedades altamente seguras (ou inseguras), controladas e claustrofóbicas.

No primeiro conto, que empresta o título ao livro, Seis Drones, encontramos um homem que se vê sem drones a meio de um percurso pedonal. Nada que nos pareça muito grave excepto quando a personagem tenta perspectivar como chegar a casa sem os drones – é que sem eles facilmente é alvo de publicidade ou de controlo estatal, podendo, até levar com um míssil. A sua salvação advém de uma jovem que aceita em acompanhá-lo, coisa rara naqueles dias.

Em O Objecto os livros, como os conhecemos, desapareceram. Temos conhecimento desta realidade através de um idoso editor. Qualquer história clássica foi adaptada, não só pela difícil linguagem antiga, mas pelas referências que se tornaram irreconhecíveis. Moby Dick, por exemplo, reconhece estar errado na sua caça pela baleia, e termina os seus dias defendendo os cetáceos. As adaptações estão a cargo de uma série de trabalhadores do estado e ai de quem tente saber a versão original da história – é extremamente proibido.

Não são só os livros que se transformaram. Também o automóvel, sendo que já não é suposto saber conduzir um carro, mas sim informar a rede do destino e deixar-mo-nos conduzir. Se o nosso percurso for autorizado. Há que dar espaço aos que trabalham, sendo que quem deseja apenas passear será considerado menos prioritário. Que dizer então de quem está reformado? Usar o automóvel para passear? Em rota livre? Que ideia tão absurda.

Em A Agência o protocolo para viajar torna-se tão complexo que surgem cidades inteiras para possibilitar que o indivíduo viaje. As ameaças terroristas servem como justificação para ir aumentando o protocolo até que se termina com a criação de uma força muito especial.

Quando tudo em nosso redor responde à tecnologia, desde a abertura da porta de casa, à roupa, torna-se possível uma verdadeira guerra tecnológica – guerra esta que leva a que alguns seres humanos escapem das cidades e permaneçam em cavernas, caçando.

No último conto, A Falésia, um casal afasta-se das suas ocupações profissionais para se dedicar a perceber o mistério por detrás da janela nublada – uma janela que aparenta algum defeito que não conseguem depreender inicialmente, mas que mais tarde percebem dever-se a uma nebulosidade localizada.

Sem se afastar muito da época em que vivemos e usando possíveis desenvolvimentos tecnológicos (ou utilizações para tecnologia já existente) António Ladeira constrói uma série de pequenas distopias que castram as liberdades individuais para o bem de toda a comunidade, tendo como mote fazer com que os indivíduos não se apercebam do que estão a perder. Ou arranjando forma para que escolham, eles próprios, essa castração.

O  resultado é uma série de bons contos com pontinhas de ironia relativamente à tecnologia e à forma como a dependência total pode dar mal resultado. Mesmo que a maioria dos indivíduos que se encontrem nesta sociedade não se apercebam.

Não falta algum nonsense nem a criação de realidades imaginadas (levando-se à questão dickiana de, até que ponto é real o que nos rodeia), nem a alusão ao Fahrenheit 451 (ainda que menos quente) ou a Orwell (pelo controlo extremo das populações fazendo-as crer na preocupação pelo seu bem-estar).O resultado é de leitura leve e agradável, carecendo de sentido crítico e irónico do leitor para a sua compreensão.

Seis Drones – novas histórias do ano 2045 foi publicado pela editora Onyva.

O jogo – Carmo Cardoso & José Machado / O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira

Eis os mais recentes contos publicados na colecção Barbante! Tratam-se de duas histórias de ficção científica, a primeira uma história com traços de horror, na perspectiva de um prisioneiro que joga sabendo que o preço a pagar pela derrota é a vida. Decorrendo no futuro, é um malicioso jogo gerido por alguém que detém todo o poder.

O segundo conto foi o que mais me cativou (tanto que falei dele na palestra sobre ficção científica portuguesa no Sci-fi LX). Nesta história um homem visita um amigo, mas tendo viajado pelas estrelas apenas umas semanas encontra-o velhote, pois, para ele, passaram décadas. O conto usa a relatividade do tempo. O tema não é novo mas é tratado de forma envolventee provoca uma certa nostalgia no leitor.

A colecção Barbante é publicada pela Imaginauta e lança pequenas histórias enquadradas nos géneros da ficção especulativa neste pequeno formato, permitindo a disponibilização bastante acessível (50 cêntimos) de boas histórias. A colecção encontra-se aberta a submissões e, claro, os autores publicados não têm de pagar nada pela publicação das suas histórias.

Resumo de leituras – Julho de 2018 (4)

120 – Love Star – Andri Snae Magnason – O que pretendia ser o paraíso tecnológico dos seres humanos, uma companhia fascinante e economicamente bem sucedida, facilmente se torna numa distopia controladora. Não que este controlo seja directo. Mas através da pressão social (sobre como encaixar melhor na sociedade e demonstrar ser bem sucedido) instigam-se as pessoas a consumir determinador produtos. Catastrófico e muito pouco amoroso, Love Star surpreendeu por ser tão corrosível;

121 – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont – Não li o livro de Tabucchi. Infelizmente. Mas a adaptação permite absorver a história sem maiores introduções (apesar de deixar a curiosidade por ler o livro). A história passa-se durante o Estado Novo, em torno de um jornalista que se deixa corromper pelo ajudante revolucionário. Inicialmente preso nos seus hábitos, por desgosto e comodidade, o jornalista revolta-se e faz o pouco que pode pela revolução;

122 – Espero por ti na próxima tempestade – Robert Yves O género romance não é o meu tipo de leitura, mesmo quando possui alguns detalhes de surrealidade. Ainda assim, já conhecia o autor de outras andanças e gostei da história que teceu – uma história de encontros e desencontros, de simulações e dissimulações;

123 – One-punch man vol.3 – No terceiro volume este herói anti cliché regista-se oficialmente como herói. A componente interessante deste volume encontra-se na forma como contrasta com os restantes heróis, de posturas dramáticas e carregados de uma suposta importância, mas de capacidades que não se comparam às no One-Punch que dá cabo de qualquer monstro só com um murro.

Os mundos decadentes de Jeff Vandermeer

Jeff Vandermeer – foto retirada do site oficial http://www.jeffvandermeer.com/

Jeff Vandermeer é o autor da trilogia Área X, do qual o primeiro volume, Aniquilação, foi adaptado recentemente para filme. Vencedor de vários prémios (World Fantasy Award, BSFA, Locus, Nebula ou Shirley Jackson Award), Jeff Vandermeer é, para além de escritor, editor e organizador de várias antologias de ficção especulativa e bem como crítico, publicando regularmente as opiniões em diversos jornais e revistas.

Desde a maravilhosa cidade de Ambergris carregada de esporos à cidade sem nome de Borne, em que as ruínas se tornam nichos ecológicos para construções biotecnológicas, grande parte da ficção de Vandermeer decorre em cenários de corrupção crescente, seja por acção humana, seja por circunstâncias histórias e ecológicas anteriores aos acontecimentos que acompanhamos.

Se em Venice Underground nos é apresentado um local transformado pela biotecnologia em que se esmorece a fronteira entre animais e humanos, dando origem a novos seres mas, também, baixando o valor do humano, num desenvolvimento que se enquadra no género New Weird (para quem desconhece, foi um sub-género da ficção especulativa que, aqui há uns anos originou trabalhos como Perdido Street Station de China Miéville ou The Etched City de K. J. Bishop onde se sobrecarrega a realidade com elementos estranhos levados ao extremo e que, nalguns casos provocam hostilização e inquietação no leitor), em Borne, os elementos estranhos são enquadrados de forma a parecerem quase normais, levando o leitor a empatizar com as novas criaturas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim, em Borne, temos uma criatura que, não sendo humana, quer ser uma pessoa, mas a sua natureza fagocítica impele-o a comportamentos inclusivos pouco sociáveis. Por sua vez, em The Strange Bird, segue-se um pássaro com resquícios de humano, que cruza elementos de vários animais e é um ser pensante. As suas características especiais levam-no a ser usado por vários seres humanos com objectivos distintos, objectivos dos quais se vinga sorrateiramente. Esta segunda história, mais pequena, fornece alguns detalhes que tinham sido omitidos (sem desproveito da narrativa) em Borne, dando novos sentidos irónicos a alguns acontecimentos.

Tal como seres refeitos de partes de outros, a imagem de Urso é comum. Em Borne um dos novos seres é um urso enorme, um constructo com proxies à sua imagem, que ameaça toda a realidade. Já em The Situation  a imagem do urso tinha sido marcante, desta vez uma representação metafórica de um trabalhador num ambiente profissional corrosivo. Trata-se de um conto carregado de elementos representativos onde se destaca o ambiente claustrofóbico provocado por um líder incompetente que desagrega a equipa. O resultado é a transformação das personagens consoante o estado psicológico.

Ainda não localizei o terceiro volume da trilogia depois das mudanças… Nem esse nem outros que tenho do autor…

A corrupção do mundo encontra-se, também, presente na trilogia Area X. O primeiro livro, Aniquilação, apresenta uma bolha na realidade descrita, uma descontinuação que é de difícil exploração pelo homem e onde decorrem uma série de fenómenos inexplicáveis – fenómenos que parecem iteracções fractais de vários elementos. A trilogia prossegue, num tom bastante diferente, conferindo perspectivas totalmente opostas da fornecida no primeiro volume. O ambiente é inóspito e propositadamente confuso para os seus visitantes (e, consequentemente, para os leitores) destacando-se alguns cenários não presentes directamente na adaptação cinematográfica como a torre invertida, inspirada na Quinta da Regaleira.

Desde City of Saints and Madmen (Ambergris) a Borne, Jeff Vandermeer leva o leitor a passear por realidades impossíveis – realidades que constrói povoando de detalhes estranhamente coerentes e personagens peculiares, duas componentes que possibilitam o envolvimento absoluto do leitor.

Mas o espírito criativo de Jeff Vandermeer não se fica pela escrita. Conjuntamente com a esposa, Ann Vandermeer, tem organizado várias antologias que ficam para a história da ficção científica. Recordo, por exemplo, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas onde uma série de autores cria novas e fantásticas doenças. Trata-se de um manual totalmente ficcional, publicado em português com doenças inéditas por autores portugueses, e que já foi encontrado na secção de medicina da FNAC como se fosse um livro académico.

Recordo, também, os belíssimos manuais Steampunk, livros de mesa que reúnem as mais maravilhosas referências do género, ou, mais recentemente, The Big Book of Science Fiction que pretende conter histórias representativas de todos os géneros.

Alguns livros publicados pela Livros de Areia, entre eles, no topo, um pequeno livro com histórias de Ambergris, a cidade dos fungos!

Em Portugal ainda é um autor pouco publicado. Para além do almanaque de doenças ficcionais referido acima, mais recentemente foi lançada a trilogia da Área X (aproveitando a adaptação cinematográfica) e houve, há vários anos, uma pequena parte da história de Ambergris publicada pela Livros de Areia – A transformação de Martim Lake & Outras histórias – numa belíssima edição.

Outros artigos sobre livros de Jeff Vandermeer

Eventos: Sci-fi LX 2018

Cartaz da autoria de Edgar Ascenção

A menos de uma semana do evento (gratuito) vou começar a divulgar algumas componentes já anunciadas para o próximo fim de semana no Instituto Superior Técnico!

Isaque Sanches vem falar da relação entre a construção de narrativas e os videojogos

António de Sousa Dias apresenta uma homenagem a um dos mais prolíficos cineastas e escritores do Fantástico português. Conheçam a obra e o percurso de António de Macedo (1931-2017).

Entre os workshops disponibilizados este ano (em que se podem inscrever aqui) encontra-se um de Impressão 3D (dado por Artur Coelho) de Crochet, Amigurimi, pintura de miniaturas, desenho manga, criação de marcadores, como escrever um conto apocalíptico (por Pedro Cipriano) e de escrita criativa em Como Matar Personagens (de Bruno Martins Soares e Pedro Cipriano).

Resumo – 2º trimestre de 2018

Se o primeiro trimestre já tinha começado bem, este segundo permitiu a consolidação das novas vertentes do Rascunhos, apesar dos contratempos pessoais (mudança de casa e novos projectos profissionais). As visualizações ultrapassaram as 26 000 mantendo a tendência do primeiro trimestre, e continuei com a nova vertente do Rascunhos na rádio (na Voz Online, onde falei sobre livros, sozinha e acompanhada, bem como de eventos como o Sci-fi LX – os programas encontram-se disponíveis também na Mixcloud). A componente de jogos de tabuleiro prosseguiu mais lentamente, mas estabeleci a minha primeira parceria de jogos (A Floresta Misteriosa).

EVENTOS

O evento que marcou este segundo trimestre foi definitivamente o Festival Contacto. Apesar de ter decorrido apenas numa tarde em Benfica (num local priveligiado, o Palácio Baldaya) forneceu grande momentos de diversão para todas as idades, com a Escape Room da Liga Steampunk, jogos de tabuleiro diversos, lançamentos de livros, lutas de sabres – entre outros. De destacar o espaço ao ar livre e a existência de um bar de apoio que permitiu a permanência no evento durante toda a tarde.

Este trimestre foi, também, a minha estreia no Lisboacon (sobre este evento falarei mais detalhadamente nos próximos dias). Trata-se de um evento focado exclusivamente em jogos, sobretudo em jogos de tabuleiro (tendo, também, RPG’s) onde se pode experimentar uma enorme diversidade de jogos e adquirir outros tantos a preço mais acessível do que é comum nas lojas. Outro evento que marcou o trimestre foi o breve retorno do Sustos às sextas (ao qual não pude comparecer).

Alguns dos jogos disponíveis no Lisboacon

Mas os últimos trimestres também prometem! Aproximam-se o Sci-fi LX e a Comic Con Portugal, e começaram a ser anunciadas algumas novidades para o último trimestre do ano – Fórum Fantástico e Festival Bang!

LIVROS E BANDA DESENHADA – Portugueses 

Com o mesmo número de leituras do trimestre passado (cerca de 60) destaco, de autoers portugueses, Comandante Serralves – Expansão, The Worst of Álvaro e Han Solo. O primeiro é uma continuação da primeira antologia Serralves, contendo contos Space Opera de vários autores num mesmo Universo. Esta antologia destaca-se pelos elementos portugueses na sua narrativa, desde o humor às expressões e alguns detalhes culturais das personagens.

 

 

 

 

 

 

 

 

The Worst of Álvaro apresenta as piores tiras de Álvaro, num  conjunto divertido que começa com uma paródia certeira às seitas religiosas que realizam espectáculos de diversão (e engodo) nas suas cerimónias. Han Solo de Rui Lacas destaca-se pela expressividade das personagens, criando uma história envolvente com poucas palavras.

LIVROS

 

 

 

 

 

 

 

Este ano tem sido marcado por bons lançamentos de ficção especulativa (não em grande quantidade, mas o que tem havido é de qualidade) e este trimestre li, sobretudo, as novidades publicadas no mercado português. A Cavalo de Ferro surpreendeu com o lançamento de um clássico de horror de Shirley Jackson, A Maldição de Hill House. Não sendo a melhor leitura desta autora, apresenta uma história claustrofóbica que nunca se afimar sobre a origem dos supostos detalhes sobrenaturais, deixando a possibilidade de várias interpretações para o autor.

Num tom bastante diferente, Os Humanos é um relato divertido de um alienígena que tem de se integrar como humano para limpar as pistas de uma importante descoberta científica. Proveniente de uma sociedade bastante diferente, onde os indivíduos são imortais e poderosos, a perspectiva do alienígena é, simultaneamente, perspicaz e cómica.

 

 

 

 

 

 

 

 

Tendo no título a palavra Love, Love Star corre o risco de ser incluído na secção de romance fofinho e cor de rosa (como já o vi). Não poderia ser uma classificação mais enganadora. Love Star apresenta uma sociedade onde a tecnologia se aliou à publicidade com a perspectiva de responder a todas as necessidades de consumo da população, apresentando produtos inovadores como a disposição de corpos humanos em foguetes para serem incinerados automaticamente quando entrem novamente na atmosfera. Trata-se de uma história interessante carregada de reviravoltas irónicas, carregadas de crítica social.

O Poder é outro dos grandes lançamentos deste ano. Bastante aclamado no estrangeiro, apresenta uma reviravolta no equilíbrio de poder nas sociedades humanas – e se as mulheres tivessem a capacidade de electrocutar? O poder surge sobretudo em situações de violência física e psicológica contra mulheres, resultante numa reviravolta interessante. Deste surgir por necessidade ao exercício de poder, a história apresenta novos equilíbrios e desequilíbrios.

 

 

 

 

 

 

 

 

Amatka é, também, um lançamento inesperado para o mercado português, contendo uma sociedade distópica onde os objectos têm de ser constantemente marcados para manterem a sua forma e funções. Quem teme a morte de Nnedi Okorafor não é uma leitura deste ano (li-o em inglês em 2015) mas é um grande lançamento em Portugal. Trata-se de um dos grandes exemplos de afrofuturismo que não teme tratar de temas como o controlo das mulheres através da castração ou como a luta entre populações através das violações que visam diluir o sangue dos vencidos.

 

 

 

 

 

 

 

 

Em inglês, destacou-se The Tangled Lands, um livro de fantasia pouco optimista em que o exercício de magia tem um preço muito elevado e onde o destino das personagens nunca é o programado, com contratempos e reviravoltas difíceis. Já The Martian in the Wood é um dos contos da TOR.com e centra-se num mundo pós Guerra dos Mundos de H. G. Wells, mostrando a vida dos que sobreviveram e como tentam lidar com o desaparecimento dos familiares – mas… nem todos os alienígenas conseguiram abandonar a Terra!

BANDA DESENHADA

A colecção Novela Gráfica ainda agora começou e já proporcionou duas das melhores leituras dos últimos meses, Os Guardiões do Louvre de Taniguchi e Aqui mesmo de Tardi. O primeiro centra-se no Louvre, enquanto museu e espaço que sofreu alterações, falando de alguns autores que influenciaram artistas japonses. Trata-se de um trabalho a cores que dá grande representação a algumas obras clássicas captando o seu próprio estilo. Não sendo dos trabalhos favoritos do autor em termos narrativos, fascina pelo grafismo.

Aqui mesmo (que ainda não tive oportunidade de comentar detalhadamente) é um trabalho excelente que pode ter interpretações políticas (ainda que o autor, na sua introdução descarte grande parte delas), centrando-se numa personagem demasiado agarrada ao passado, traumatizada com as guerras entre famílias e por isso, decidida a manter a sua posição desconfortável, nem que para isso deixe de ter vida própria.

Não tendo lido o romance original no qual se baseia, Afirma Pereira é um fascinante retrato da sociedade portuguesa antes do 25 de Abril mostrando como se exercia influência, poder e medo sobre a população e, neste caso, sobre a classe jornalística portuguesa.

Outra das colecções lançadas pela Levoir foi a colecção Bonelli em que se lançaram álbuns representativos das colecções italianas da editora Bonelli. Em geral são álbuns que dão especial destaque à narrativa, bastante movimentados e centrados em heróis peculiares. Dragonero foi dos meus favoritos contendo referências às mais clássicas séries de Fantasia. Já este volume de Dylan Dog, Os Inquilinos Arcanos, destaca-se pela introdução de Filipe Melo e contém uma diversidade interessante das histórias deste herói com um grafismo competente onde não se podem esquecer os efeitos sobrenaturais e fantásticos.

Próximos tempos? Espera-me o Sci-fi LX, com duas palestras, uma sobre ficção especulativa nacional e outra sobre robots (com João Barreiros), muitos livros e muitos jogos de tabuleiro!

O Rascunhos em Rádio

Esta é a novidade deste ano, um novo formato para o Rascunhos que passa a ser, também, um programa de rádio na Voz Online. O primeiro programa foi lançado no dia 21 de Fevereiro, mas como me encontrava fora do país não tive oportunidade de divulgar. À semelhança do blogue, o programa ira centrar-se em ficção científica e banda desenhada e o próximo programa, que foca o Festival Contacto 2018, irá passar na próxima quarta-feira, dia 14, pelas 21h.

The Gods Themselves – Isaac Asimov

A grande novidade em The Gods Themselves é conseguir apresentar personagens alienígenas, provenientes de outro Universo, com preocupações, raciocínios e perspectivas muito próprias mas, ainda assim, fazer-nos sentir mais empatia e reconhecimento por estas personagens do que por algumas das personagens humanos que acompanhamos.

O livro decorre em três componente diferentes, partindo da perspectiva humana e passando à de outro Universo, para retornar aos humanos numa última componente. O livro começa quando um cientista se questiona sobre a presença de Tungsténio na sua secretária. O incidente não é de todo inocente e com este tungsténio obtêm-se instruções para a construção de uma máquina que irá fornecer energia ilimitada ao ser capaz de agir como condutor entre os dois Universos.

O ter-se questionado foi o que provocou a descoberta das instruções para a máquina, mas o cientista,  mediano, não se fica por receber estes louros e tenta captar para si a capacidade de inventar a máquina, obscurendo as circunstâncias que levaram à sua construção. A partir daqui usa o poder obtido para evitar questões e estragar a carreira de todos aqueles que ousam esclarecer a origem da máquina, ou, até, duvidar da sua estabilidade e segurança.

Pois é. É que um cientista do seu instituito percebeu que a conclusão de que, dada a troca de massa e energia, o sol só explodiria daí a largos milhares de anos, poderia ter partido de premissas erradas. E corrigindo as premissas todo o sistema solar estará em perigo eminente. Embatendo frontalmente com o seu chefe percebe que os egos e o conforto da energia a custo 0 são mais importantes do que a segurança de todo planeta, e assim acaba na lista negra e impedido de publicar em ciência.

No outro Universo temos uma diferente realidade. A história começa por nos apresentar um trio de seres que constituirá uma unidade familiar capaz de produzir novos bebés. O trio é composto por três seres de diferentes capacidades: Dua, central e emocional, Odeen, esquerda e científica, Tritt, direita e parental. Os elementos dos trios são denomiados por Os Moles em contraste com os Duros, uma outra espécie que habita o mesmo mundo, mais muduros e intelectualmente mais desenvolvidos.

Dua é uma central estranha – ao contrário dos outros elementos do seu género não tem prazer na conversa oca e nas longas horas ao sol em grupo. Ao invés disso questiona-se como se fosse um intelectual. É, também, uma central excessissivamente etérea, o que contrabalança em termos sociais a sua inesperada racionalidade. É pelas suas características especiais que estabelece um relacionamento mais forte com Odeen, que tem um intelecto desenvolvido até para os do seu género.

Odeen vai ensinando Dua o suficiente para ela perceber a construção da nova bomba de energia e das implicações que poderá ter para o mundo (a Terra) que se encontra no outro lado. A partir daí aproveita-se da capacidade de se evaporar para fazer passar mensagens de perigo para o outro mundo.

A terceira parte decorre na Lua mostrando as diferenças entre os seres humanos que cresceram nos dois planetas. As diferenças de gravidade comprometem a fisionomia e seres humanos que tenham nascido na Lua nunca poderão pisar o solo terrestre. Já o contrário é possível e é assim que um cientista terrestre, ostracizado por questionar a nova fonte de energia, encontra, na Lua, uma comunidade pronta a recebê-lo e e deixar trabalhar.

Para além de tentar provar as teorias sobre a nova fonte de energia, este cientista encontra uma Intuitiva, uma mulher geneticamente modificada com fortes capacidades de intuição que consegue encaminhá-lo no sentido de uma grande descoberta científica.

Com esta disposição, Isaac Asimov consegue explorar e apresentar problemas diferentes. Na componente humana assistimos ao problema dos egos nas carreiras científicas, problema que impede muitas vezes grandes progressos por mentes medianas incapazes de progredir e de cooperar, captando para si o trabalho dos outros. Para além disso percebemos que, face a grandes benefícios e conforto, a maioria dos seres humanos prefere ignorar as consequências.

Na componente central encontramos os alienígenas que, com as suas características próprias conseguem captar a nossa empatia e atenção, apresentando problemas de género que aqui se encontram no contexto diferente. A diferença pode trazer algo positivo e neste caso mostra-se como pode conferir capacidade evolutiva à espécie.

Na última componente, de volta aos seres humanos, voltamos a encontrar problemas títpicos das civilizações humanas, com descriminação entre pessoas de origem diferente ou a necessidade de singrar por meios ilícitos. Por outro lado quem detém poder nem sempre tem os interesses do conjunto em mente, dando mais importância às suas motivações do que ao destino dos restantes.

Low – Vol.4 – Remender, Tocchini e McCaig

Low continua a ser uma das minhas séries favoritas do ponto de vista visual, mas pela perspectiva narrativa tem perdido algum interesse. Comecei esta série na mesma altura que Descender, e se a última tem crescido (apesar de alguns momentos mais parados), Low parte de uma premissa interessante para não ter, até agora, grandes pontos de inovação.

Alternando entre as várias cidades submersas e concedendo a cada uma, um visual diferente que torna o volume fascinante, Low apresenta um mundo em apocalipse onde o fim da humanidade parece tão próximo que acaba com o positivismo de qualquer pessoa  e mesmo quando surgem notícias de um outro mundo passível de colonização parece preferível ceder à tragicidade do fim.

Neste volume exploram-se rivalidades numa sucessão de episódios de acção, sem o tom introspectivo ou filosófico dos volumes anteriores. Algumas das personagens principais não sobreviveram até aqui, resultando na tensão acumulada que justifica o ritmo frenético e explosivo.

Centrando-se no que de pior a espécie humana tem para oferecer, este quarto volume afasta-se bastante do espírito que encontrei nas primeiras páginas, onde me sentia irritada pelo excessivo optimismo de uma das personagens – optimismo que impeliu uma série de eventos carregados de esperança que tem sido esmagada a cada volume.

Oscilante em tom e equilíbrio, até ao momento é uma série estranha e inconstante, que vai deixando linhas narrativas em aberto que espero que sejam recuperadas nos próximos volume. Reitero que um dos aspectos positivos é o visual que cruza cenários conhecidos (o fundo do mar) com tecnologia futurista criando uma série de imagens improváveis mas fascinantes.

À espera de … (lançamentos internacionais)

É nesta altura do ano que se começo a antecipar alguns lançamentos, imaginando estes novos livros na minha biblioteca.

Vencedora de dois prémios BSFA no mesmo ano para categorias diferentes, Aliette de Bodard tem lançado várias histórias de ficção científica e fantasia com elementos culturais diferentes do usual. De origem vietnamita e francesa, a autora fala diversas vezes sobre os elementos que encontra noutras fantasias em que se assume que os hábitos ocidentais são gerais ao restante planeta Terra (como o comer pão ao pequeno almoço) e em formas de evitar tal generalização ou de tornar os hábitos descritos lógicos ao habitat em que ocorrem. Depois do sucesso que tem feito com a trilogia iniciada com The House of Shattered Wings, a autora lança agora uma  ficção científica que parece ter detalhes orientais:

Welcome to the Scattered Pearls Belt, a collection of ring habitats and orbitals ruled by exiled human scholars and powerful families, and held together by living mindships who carry people and freight between the stars. In this fluid society, human and mindship avatars mingle in corridors and in function rooms, and physical and virtual realities overlap, the appareance of environments easily modified and adapted to interlocutors or current mood.

A transport ship discharged from military service after a traumatic injury, The Shadow’s Child now ekes out a precarious living as a brewer of mind-altering drugs for the comfort of space-travellers. Meanwhile, abrasive and eccentric scholar Long Chau wants to find a corpse for a scientific study. When Long Chau walks into her office, The Shadow’s Child expects an unpleasant but easy assignment. When the corpse turns out to have been murdered, Long Chau feels compelled to investigate, dragging The Shadow’s Child with her.

As they dig deep into the victim’s past, The Shadow’s Child realises that the investigation points to Long Chau’s own murky past… and, ultimately, to the dark and unbearable void that lies between the stars…

Catherynne M. Valente já venceu diversos prémios no área do fantástico, tendo sido publicada em Portugal uma das suas obras premiadas (A menina que circum-navegou o reino encantado num barco que ela mesma fez – infelizmente com falhas de tradução e de revisão que tornam o livro pouco legível nalgumas partes). Inicialmente conhecida pela série The Orphan’s Tales, a autora tem-se distinguido com várias outras obras e uma extensa publicação de contos. Aqui dá todo um novo sentido ao termo Space Opera:

IN SPACE EVERYONE CAN HEAR YOU SING

A century ago, the Sentience Wars tore the galaxy apart and nearly ended the entire concept of intelligent space-faring life. In the aftermath, a curious tradition was invented-something to cheer up everyone who was left and bring the shattered worlds together in the spirit of peace, unity, and understanding.

Once every cycle, the civilizations gather for Galactivision – part gladiatorial contest, part beauty pageant, part concert extravaganza, and part continuation of the wars of the past. Instead of competing in orbital combat, the powerful species that survived face off in a competition of song, dance, or whatever can be physically performed in an intergalactic talent show. The stakes are high for this new game, and everyone is forced to compete.

This year, though, humankind has discovered the enormous universe. And while they expected to discover a grand drama of diplomacy, gunships, wormholes, and stoic councils of aliens, they have instead found glitter, lipstick and electric guitars. Mankind will not get to fight for its destiny – they must sing.

A one-hit-wonder band of human musicians, dancers and roadies from London – Decibel Jones and the Absolute Zeroes – have been chosen to represent Earth on the greatest stage in the galaxy. And the fate of their species lies in their ability to rock.

Paolo Bacigalupi é o autor de uma das minhas obras de ficção científica favoritas, The Windup Girl. Conhecido por publicar obras em que se expressa a preocupação ecológica, apresentou neste volume um futuro pós-apocalíptico em que a subida das águas provoca uma crise energética e de alimentação, com a extinção da grande maioria das espécies vegetais comestíveis. No seu novo livro estabelece uma parceria com Tobias S. Buckell para escrever um livro de fantasia:

From award-winning and New York Times bestselling authors Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell comes a fantasy novel told in four parts about a land crippled by the use of magic, and a tyrant who is trying to rebuild an empire – unless the people find a way to resist.

Khaim, The Blue City, is the last remaining city in a crumbled empire that overly relied upon magic until it became toxic. It is run by a tyrant known as The Jolly Mayor and his devious right hand, the last archmage in the world. Together they try to collect all the magic for themselves so they can control the citizens of the city. But when their decadence reaches new heights and begins to destroy the environment, the people stage an uprising to stop them.

In four interrelated parts, The Tangled Lands is an evocative and epic story of resistance and heroic sacrifice in the twisted remains surrounding the last great city of Khaim. Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell have created a fantasy for our times about a decadent and rotting empire facing environmental collapse from within – and yet hope emerges from unlikely places with women warriors and alchemical solutions.

Um momento na história acompanhado por um alienígena que deveria manter-se como mero observador da tragédia. Mas o saber do desenrolar não será capaz. Trata-se do primeiro livro de um novo autor publicado na Angry Robots, uma das principais editoras anglo-saxónicas do género.

In medieval Italy, Niccolucio, a young Florentine Carthusian monk, leads a devout life until the Black Death kills all of his brothers, leaving him alone and filled with doubt. Habidah, an anthropologist from an alien world racked by plague, is overwhelmed by the suffering. Unable to maintain her neutrality, she saves Niccolucio from the brink of death. Habidah discovers that neither her home’s plague nor her assignment on Niccolucio’s ravaged planet are as she’s been led to believe. Suddenly the pair are drawn into a worlds-spanning conspiracy to topple an empire larger than the human imagination can contain.

 

Depois de A Súbita Aparição de Hope Arden, a autora já publicou um romance que me parece bastante diferente (mas apetecível) The End of the day onde explora a figura da morte. 84K será o título que tem planeado para 2018, centrado num auditor criminal, responsável por garantir que os culpados por um crime pagam a dívida na totalidade à sociedade.

Theo Miller knows the value of human life – to the very last penny.
Working in the Criminal Audit Office, he assesses each crime that crosses his desk and makes sure the correct debt to society is paid in full.
But when his ex-lover is killed, it’s different. This is one death he can’t let become merely an entry on a balance sheet.
Because when the richest in the world are getting away with murder, sometimes the numbers just don’t add up.

 

Cory Doctorow tem escrito vários livros distópicos envolvendo a tecnologia actual e a excessiva vigilância do estado. Um dos seus livros mais conhecidos é Little Brother (publicado por cá com o mesmo título pela Editorial Presença) onde se faz uma analogia a 1984, mas nos tempos modernos e contendo como jovens as principais personagens. Por sua vez, Charles Stross é conhecido por livros de ficção científica pura e dura, com uma grande pitada de humor (como The Atrocity Archives). Este humor não é característico apenas dos livros, verificando-se, também, nas apresentações que tive oportunidade de assistir do autor. Juntos, criam este livro que, pelo título e pela premissa, parece, no mínimo engraçado:

Welcome to the fractured future, at the dusk of the twenty-first century.

Earth has a population of roughly a billion hominids. For the most part, they are happy with their lot, living in a preserve at the bottom of a gravity well. Those who are unhappy have emigrated, joining one or another of the swarming densethinker clades that fog the inner solar system with a dust of molecular machinery so thick that it obscures the sun.

The splintery metaconsciousness of the solar-system has largely sworn off its pre-post-human cousins dirtside, but its minds sometimes wander… and when that happens, it casually spams Earth’s networks with plans for cataclysmically disruptive technologies that emulsify whole industries, cultures, and spiritual systems. A sane species would ignore these get-evolved-quick schemes, but there’s always someone who’ll take a bite from the forbidden apple.

So until the overminds bore of stirring Earth’s anthill, there’s Tech Jury Service: random humans, selected arbitrarily, charged with assessing dozens of new inventions and ruling on whether to let them loose. Young Huw, a technophobic, misanthropic Welshman, has been selected for the latest jury, a task he does his best to perform despite an itchy technovirus, the apathy of the proletariat, and a couple of truly awful moments on bathroom floors.

Acadie – Dave Hutchinson

 

Envolvente e imaginativo, Acadie traz-nos um mundo colonizado por engenheiros genéticos que criaram um sistema política peculiar. Fugidos da justiça da Terra por terem ideias demasiado radicais para a evolução dos seres humanos, fundaram uma colónia num planeta sem grandes recursos minerais e por isso pouco provável de ser explorado pelos terrestres.

Para além dos engenheiros genéticos a colónia é composta por algumas pessoas que se encontravam na nave roubada a quem foi dada a possibilidade de se juntarem, bem como uma nova geração de seres humanos geneticamente modificados, de inteligência extrema, mas vidas mais curtas.

“They were just hardwired to see all the angles of a situation, all at once, in nitpicking detail. Some of the early generations had been shy, borderline Asperger-ish, but most of the more recent ones were fully socialized and you could have a normal conversation with them, even though you knew that, in their heads, they were simultaneously analyzing all the possible outcomes. It could be a bit spooky, if you let it get to you.”

A personagem principal é o presidente – a pessoa que menos se interessou pela política e que, por isso, acabou eleito. O gabinete que lhe é atribuído é o menos bem localizado, e o trabalho é chato mas simples. Pelo menos até ao dia em que aparece uma sonda terrestre que, quase de certeza, lhes denunciou a posição.

Com uma reviravolta final que não é totalmente original, Acadie consegue apresentar uma perspectiva interessante num contexto peculiar – uma colónia fundada por geeks
que se conseguem alterar morfologicamente, e que criam uma nova geração de seres humanos muito inteligentes, capazes de grandes revoluções tecnológicas.

I sighed and shook my head. This was what happened when a bunch of Tolkien geeks fot the power of life and death over an entire solar system, and I was almost exactly the wrong generation to appreciate it.

The line of figures moving along the white path resolved themselves into about a dozen elves dressed in silver armour and carrying bows and swords.

Sem ser uma leitura excelente, é uma história que escorre facilmente e que cruza engenharia genética com inteligência artificial, em que não faltam alguns detalhes geek para compor o conjunto.