Assim foi: Recordar os Esquecidos – Novembro de 2016

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A sessão de Novembro contou com a presença de Nuno Camarneiro e Nuno Costa Santos, bem como a habitual moderação de João Morales.

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A primeira escolha de Nuno Camarneiro vai para A Vida Modo de Usar, de Georges Perec, o romance mais romance deste autor pois normalmente os seus livros são desafios e puzzles. Por um exemplo, num dos seus livros descreve uma praça central de Paris, ao detalhe, quer as pessoas, quer os edifícios que o compõem.

Neste, A vida Modo de Usar, toda a história se passa num prédio, ao longo dos vários quartos, sendo que nunca se retorna à mesma divisão. Ao longo da narrativa vai-se explorando a vida de todas as personagens que lá moram. Por exemplo, um dos habitantes é um excêntrico que vai contratando as várias pessoas que lá moram, para executarem tarefas que se complementam. Para conseguir contar esta história circulando pelos quartos, sem se repetir, o autor tinha um mapa fictício das divisões.

Sem serem livros necessariamente profundos, são divertidos, centrando-se bastante nos objectos, a partir das quais as pessoas surgem, como que por arrasto. Órfão muito cedo, “há qualquer coisa de um menino que aprendeu a brincar dentro da própria cabeça”(Nuno Camarneiro).

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A primeira escolha de Nuno Costa Santos foi Remington de Jorge Listopad. O autor terá nascido em Praga no ano de 1921 e passado pela resistência aos nazis. Já em França, conheceu Sartre, Beckett, entre outros nomes conhecidos. Entre a realidade e a ficção, Listopad brinca, apresentando vários episódios cujos possíveis detalhes ficcionais não se distinguem da realidade.

Homem de flashes e de iluminações, demonstra a dor de quem fugiu à guerra, com as marcas de um clandestino que todas as noites tinha de procurar azilo e que acaba por pertencer a parte alguma. Entre as fábulas anedóticas em que consegue brincar com a sua própria tragédia, apresenta episódios como a presença de Hitler na ópera Salomé que terá lançado as sementes para o anti-semitismo (no seguimento de um episódio de bondade de Alma, interpretado como humilhação), ou quando terá recebido, de Sartre, uma máquina de escrever com uma história mirabolante.

Este foi um dos livros que corri a adquirir no final da sessão. O outro é o próximo, mas infelizmente, parece esgotado.

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A segunda escolha de Nuno Camarneiro foi Ovelha Negra e outras fábulas de Augusto Monterroso. Autor de literatura fragmentada, escreve sobretudo contos, biografias imaginárias e é o autor conhecido por ter o conto mais pequeno do Mundo. Pelo menos na época em que o escreveu. A propósito deste autor, leu-se a opinião de Isaac Asimov:

“Os pequenos textos de A ovelha negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. Não por outro motivo são eficazes. Depois de ler “O macaco que quis ser escritor satírico”, jamais voltei a ser o mesmo.”

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Nuno Costa Santos segue recordando Giovanni Papini, primeiro com Um Homem Liquidado. Autor que o marcou pela coragem e frontalidade com que interpelava o leitor, terá estado ligado ao futurismo. Apesar de ter sido anti-cristão, mais tarde converteu-se e tornou-se menos interessante. Marginalizado pelas opiniões políticas, terá sido dos primeiros a dirigir-se directamente ao leitor, algo pouco usual para a época.

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Um dos primeiros livros de Aquilino Ribeiro, autor difícil e antiquado quando muitos já tinham apanhado o comboio do modernismo (que ele não quis seguir), possui muitos regionalismos difíceis, muito territoriais já para a época e que terão caído em desuso entretanto. Anti clericais, mas não de uma forma óbvia, sem ser poético nem romantizado, este Jardim das Tormentas apresenta-se telúrico, com o pensamento encantatório sobre o passado que não se deixa espartilhar pela Igreja.

Recuperando algum classicismo, apresenta o maravilhoso profano pagão, com erotismo muito selvagem. Este Jardim das Tormentas apresenta vários contos que poderão ser considerados esboços do que veriam a ser os livros seguintes. De destacar um dos contos que é passado num pós apocalipse.

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Nuno Costa Santos recorda, em seguida, Rui Knopfli com Obra Poética. Autor que terá vivido em fronteiras perdidas (como diz Agualusa), que terá uma escrita agreste e emocional. A este propósito destacou-se O Monhé das Cobras (que representa o lado dos episódios africanos) e O Escriba Acocorado.

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O próximo esquecido é Sá de Miranda, por Nuno Camarneiro. Pouco se sabe sobre este poeta, um dos maiores antigos poetas portugueses que trouxe o soneto para Portugal bem como outros mecanismos poéticos.

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Para fechar a sessão Nuno Costa Santos recorda dois autores açorianos, Emanuel Félix e José Martins Garcia. De Emanuel Félix destacou-se a Viagem Poesia, com a leitura de As Raparigas lá de casa. De José Martins Garcia destacou-se O Medo, um romance sobre a guerra colonial, passado na Guiné, um dos lugares mais violentas da guerra, com um tom depressivo, sublimado pelo sarcasmo.

2 pensamentos sobre “Assim foi: Recordar os Esquecidos – Novembro de 2016

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