Depois de ter feito uma lista das melhores leituras (não BD), eis que é a vez da BD. Se consultarem o resumo das estatísticas das leituras do ano, verificam 343 leituras de banda desenhada, onde se inclui muita mangá, havendo uma predominância dos idiomas inglês e português. Em termos de género, quase metade das leituras são do género fantástico (novamente, por influência da mangá, já que a maioria das séries se incluem nesta categoria).

Obras Portuguesas

O mais recente livro de Luís Louro volta a surpreender, apresentando uma narrativa dura, centrada em personagens jovens que tentam sobreviver entre os efeitos da Guerra e o frio intenso. Para tal, terão de ultrapassar os limites da decência e da humanidade. Mas quem os pode culpar? Os Filhos de Baba Yaga é uma leitura pesada e brutal, acompanhada pelos desenhos fabulosos de Luís Louro.

Uma das grandes novidades deste ano foi Tales from Nevermore de Pedro N. e Manuel Monteiro. A dupla criou uma colectânea de banda desenhada que reúne algumas histórias sombrias narradas por um corvo, numa estrutura mais clássica do género de horror. De história em história conhecemos circunstâncias macabras, onde as maldições e as mortes se cruzam, com detalhes sobrenaturais. Apesar da estrutura mais clássica de algumas histórias, é uma leitura que usa as tecnologias modernas na sua apresentação, o que confere uma dimensão adicional à leitura.

O primeiro volume de Macho-Alfa apresentou-se como uma genial perversão dos super-heróis, rodeada de humor – uma leitura agradável. A série viria a exceder esta primeira impressão e a surpreender com o terceiro volume que lhe garantiu o lugar no pódio de uma das melhores séries de BD portuguesas. A história encontra-se carregada de acção, mas vai evoluindo para uma análise às circunstâncias e consequências de um herói com supre poderes, com uma abordagem inteligente que revela calma e contenção no desenvolvimento e nas reviravoltas. O resultado é sólido e brilhante.

Tal como em O Penteador e Elviro, a mais recente obra de Paulo J. Mendes, O Atendimento Geral, leva-nos para uma realidade semelhante à nossa, que usa referências gerais para tecer uma paródia bem humorada. A história centra-se num solteirão que, tendo saído em desgraça da casa da tia, nunca mais retornou à terriola onde costumava passar férias. No entanto, circunstâncias laborais levam-no a ser destacado para abrir um novo escritório na localidade. O regresso traz memórias e conhecidos, construindo uma narrativa carregada de reviravoltas mirabolantes e divertidas, ainda que o final me tenha agradado um pouco menos do que o dos livros anteriores.

Menções honrosas

Fojo, de Osvaldo Medina, é um livro a preto e branco que retrata o ambiente opressivo de uma aldeia, no interior português, rodeada de neve, onde ocorre um assassinato. Entre as mezinhas da bruxa e as rezas do padre, o ambiente opressivo e o isolamento, criam tensões palpáveis, ao mesmo tempo que se descobrem segredos há muito enterrados. O resultado é uma história bem cadenciada e desenvolvida que usa elementos ruais para criar um ambiente desconfortável.

Num tom bastante mais ligeira, Amável – O pugilista gentil é uma história mirabolante com traços de várias narrativas dos anos 80, entre demandas por métodos de luta, pais que deixam legados duvidosos, ensinamentos filosóficos duvidosos e ringues de lutadores estereotipados. A história pega em vários clichés e usa-os de forma cómica, conseguindo surpreender pela desenvoltura com que os ultrapassa. É, sobretudo, uma leitura divertida e bem disposta, com momentos visuais engraçados.

Por último, Danificada é uma história de ficção científica que recorda romances como Never let me go. Neste caso, trata-se de uma clone, entre tantas outras, que começa a sonhar com algo mais do que o quotidiano repetitivo. Estes sonhos constantes agonizam e provocam a acção, diferenciando-a das restantes semelhantes.

Ficção Especulativa

Ao invés de secções separadas para ficção científica e fantasia, este ano optei por juntar as duas numa secção de ficção especulativa. Isto porque existem narrativas com elementos de ambos os géneros.

A Bela Casa do Lago baseia-se numa premissa já conhecida, mas consegue conceder-lhe uma maior dimensão psicológica, com questionamentos existenciais e situações eticamente complexas. Um alienígena aproxima-se da humanidade e faz-se passar por humano, para, de seguida se iniciar o plano de extermínio. É neste momento que este alienígena coloca na casa perfeita um grupo de amigos que possuem capacidades diversas.

Eis que fecha a fabulosa série O castelo dos Animais, com este soberbo quarto volume. Após o escorraçar dos porcos do clássico Animal Farm de George Orwell, um novo regime déspota é instituído pelo boi, convencendo os restantes animais que existe um preço a pagar para manter os humanos fora de portas e os lobos longe da quinta. Neste regime encontramos todos os mecanismos clássicos de instalação e manutenção de uma ditadura, desde o medo da ameaça física ao medo de um inimigo hipotético, com manipulações e mentiras. A narrativa usa animais para representar os diferentes aspectos de uma sociedade onde todos são mantidos em cativeiro sob a aura de uma falsa liberdade, demonstrando que existem valores mais altos que se elevam mesmo nas piores circunstâncias. Para além do retrato de uma ditadura, a narrativa surpreende pelo desenvolvimento de personagens fortes, mas com falhas, o que as torna alvo de empatia e compreensão.

Quando me deparei com Thorgal pensei, erradamente, que iria deparar-me com uma série fantástica de contornos clássicos mas conteúdo datado. Enganei-me redondamente. Os primeiros volumes cruzam elementos de ficção científica e fantasia, ao mesmo tempo que exploram personagens pouco típicos que se afastam bastante das expectativas iniciais. O último volume lançado em Portugal, Adeus Aaricia, mostra-nos um Thorgal envelhecido e enfraquecido pela perda recente da sua companheira de vida, levando-o ao início da sua existência e ao confronto com alguns episódios decisivos para o desenvolvimento da sua personalidade. É uma história carregada de acção, mas também de introspecção, apresentando uma sequência agridoce e nostálgica.

Agora sim, num tom mais clássico, os dois volumes de Fábulas das Terras Perdidas apresentam uma estrutura mais tradicional, ainda que surpreendam pelo desenvolvimento. O primeiro volume começa com uma história mais contida que corresponde às expectativas, mas depois as histórias ganham contornos mais negros e menos inocentes (e heróicos), com perspectivas mais maduras e caminhos mais tortuosos.

A série As 5 Terras conta já com seis volumes lançados em Portugal. Ainda que a sinopse prometa uma Guerra dos Tronos, e exista, efectivamente muita traição familiar, não senti estar no mesmo ambiente. Não sendo uma série propriamente original em tema, formato e concretização, é uma série fantástica com uma boa componente visual que, ao longo dos seis volumes tem mostrado reviravoltas impensáveis, várias tramas políticas e uma sucessão de mortes que é, por vezes, irónica. A narrativa oscila entre várias personagens de perspectivas diferentes, entre assassinos, amantes e guerreiros, alguns em missões desesperadas. A série tem-se consolidado como uma leitura brutal que corresponde às tendências Grimdark da fantasia.

Aconselhada pelo Dário Duarte, este Dimwood apresenta uma história de horror com contornos victorianos, onde o ser humano começa a apresentar uma postura mais científica para com o que o rodeia. Mas tal como noutros clássicos do género, a curiosidade e a vontade de conhecimento excessiva do ser humano levam a consequências trágicas. Neste caso, leva à corrupção e à degradação, existindo fungos com um papel central na narrativa. Ainda que o visual não encaixe totalmente no meu gosto (sobretudo pelo aspecto tosco), cria um ambiente fascinante e grotesco, onde até o final é dúbio.

Menções honrosas

Tendo adorado O Vento nos Salgueiros, peguei neste O Vento nas Areias com algumas expectativas – e apesar de apresentar algumas diferenças, adorei. Este segundo afasta-se da narrativa mais tradicional, apesar de usar algumas das características principais das personagens para tecer novas e estranhas aventuras, levando-os a confrontarem-se com outras culturas. Apesar do que os rodeia, a amizade e a lealdade continuam a estar no centro do grupo, o que confere uma aura simpática, agradável e envolvente.

Vertigéo apresenta uma história pós-apocalíptica, com a construção de uma sociedade distópica, com alusão ao eterno quotidiano dos trabalhadores, cujo permanente sacrifício é exigido em prol de algo maior. Trata-se de uma história relativamente simples, com um desenvolvimento dentro das expectativas, mas que surpreende pelo aspecto visual que a acompanha. E mais nesta vertente que se torna uma leitura que vale a pena, apresentando extraordinários cenários.

Como já referi várias vezes, O Mercenário é daquelas séries que, inicialmente parecia simples e datada. A continuação tem surpreendido pela positiva, com a apresentação de aventuras estranhas e fascinantes. O mais recente volume, o oitavo, surpreende pela apresentação de uma vertente mais vincada de ficção científica, com a viagem involuntária para uma mundo paralelo onde a tecnologia terá ditado o fim da humanidade.

Western

Dentro do Universo Tex, este Minstrel Show destaca-se por abordar várias vertentes para construir uma visão da época. A narrativa demonstra como, mesmo depois de terminada a Guerra Civil, o ambiente está instável, havendo alguns grupos que não aceitam o resultado do confronto e que assim justificam a perseguição à população afro-americana, mesmo depois de libertos. A narrativa está impregnada de referências históricas (quer nos cenários, quer nas personagens).

Usando rumores e factos históricos, Dakota 1880 apresenta sete curtas histórias sobre um Lucky Luke mais jovem e mais realista, baseado em detalhes da época. Nestas pequenas aventuras o herói vai poder demonstrar algumas das características morais que já lhe conhecemos, quebrando-se alguns estereótipos pelo caminho. Em pano de fundo apresenta-se o Faroeste, carregado de perigos e fora-da-lei, onde os mais fracos são muitas vezes maltratados e eliminados.

Demonstrando também o lado mais africano da história americana, Lucky Luke terá, em este Um Cowboy no negócio do algodão, enfrentar não só o preconceito, como organizações como o KKK, por forma a poder distribuir a propriedade que herdou por aqueles que nela trabalham. Claro que a narrativa se encontra envolta em episódios mirabolantes, ainda que siga caminhos menos lineares do que é usual. Ainda assim, destaca-se pelas referências e por apresentar uma história com preocupações pouco habituais na série.

Ficção

Entre os melhores álbuns do ano encontra-se em Dom Quixote de La Mancha. Tal como em O Inferno de Dante, a dupla de autores consegue captar a essência da história, transmitindo o espírito demente e aventureiro do cavaleiro e mostrando-nos as suas ilusões. A história mostra também a preocupação dos que o rodeiam e tenta proteger de si mesmo, bem como aqueles que sofrem com as desventuras e se deixam levar pelo espírito de aventura. A maioria das páginas apresenta-se a preto e branco, com grande nível de detalhe e realismo, ainda que existam, também, algumas páginas a cores, principalmente nas passagens mais surreais. A narrativa consegue a proeza de fluir com facilidade, transmitindo o essencial, mas mantendo o espírito do clássico.

Na cabeça de Sherlock Holmes é visualmente esplendoroso e imaginativo, mostrando-se tão labiríntico quanto o pensamento do famoso detective. As páginas mostram mapas mentais e fluxos complexos, exigindo que o leitor siga pistas visuais e faça associações. Em termos de desenho é uma experiência inovadora, que transforma a dedução em experiência visual.

Depois de ter adorado os anteriores volumes de Mikael, Giant Bookblack, considero que este Harlem se sobrepõe a ambos. O primeiro conseguiu surpreender pela reviravolta narrativa no final, o segundo é mais pesado em apresentar o caminho criminoso de alguém que cresceu desamparado – mas este terceiro apresenta uma maior dimensão narrativa, ao se centrar na figura história, mas conseguindo também apresentar episódios mais próximos de algumas personagens. Baseada na mulher que existiu e que tinha de ser esmagada, a narrativa mostra como uma mulher negra de sucesso e orgulhosa quebra os supostos limites culturais e sociais. E é previsível que tal quebra, tal postura desafiante não pode sobreviver incólume.

Menções honrosas

Buena Gente é uma leitura formidável pela forma como usa a ironia da ganância para transformar o quotidiano da vila no caos. O conceito é um pouco semelhante a O homem que corrompeu Hadleyburg, explorado aqui numa vertente mais cómica e também mais actual em concretização. As personagens assumem-se caricaturescas. Também elas de trejeitos exagerados, alegrias e tristezas desmesuradas, capazes de feitos excessivos, mesmo em situações que poderiam ser simplesmente rotineiras. O resultado possui traços quase de horror, sob o aspecto de excessiva normalidade, até de boa vontade.

Estes dias que desaparecem é uma narrativa envolvente que nos faz sentir os desafios da personagem principal, sendo nesse sentido uma leitura simultaneamente trágica e nostálgica que explora os limites da mortalidade e da existência consciente. A narrativa explora a relação entre memória e identidade. Mas, também o conceito de valor em sociedade. A personagem principal apresenta duas personalidades distintas que dão valores diferentes a aspectos distintos da existência – uma, mais romântica, que dá valor às artes e às amizades, enquanto a segunda se revela calculista e prefere a rota da produção de dinheiro.

Menos surpreendente que Sou o seu silêncio, Sou um anjo perdido centra-se na figura caricata e mirabolante de Eva que surpreendeu e cativou no volume anterior. Este facto, determinante para criar empatia para com o leitor, é explorado como condutor da linha narrativa – até porque a direcção da história é regida pelas vontades e ideias curiosas de Eva, fazendo com que a história ganhe contornos extravagantes e delirantes.

Não Ficção

O meu irmão é, sem dúvida, um dos grandes lançamentos de 2025, e uma das melhores leituras independentemente da categoria ou do género em que o queiramos colocar. Neste livro o autor coloca a sua experiência mais pessoal com a perda de um familiar de tenra idade, em circunstâncias traumáticas. É uma leitura necessária que apresenta a fragilidade humana, um testemunho onde o autor se expõe e assume a perda do irmão.

Em Ginseng Roots, o autor de Habibi explora os vários aspectos da criação do Ginseng, interligando-a com a história da família e como a sua experiência na cultura do Ginseng. É uma leitura pouco linear, por vezes saltitante, que requer concentração pela sua densidade. O autor vai criando interligações entre diferentes partes da obra, o que confere um entendimento mais vasto de alguns acontecimentos, mas que requer mais atenção e foco.

Bobigny 1972 é uma leitura importante, que permite ajudar a perceber o que significa a descriminação do aborto para as mulheres, sobretudo para as mais pobres ou com menos acesso a cuidados médicos. Aqui apresenta-se uma jovem, acusada do crime do aborto. Ainda que a gravidez tenha resultado de um abuso sexual, as raparigas são tratadas como indigentes. Algumas são enviadas para casas de apoio que são mais casas de correção, de condições miseráveis e maltratados. E é neste contexto que a jovem Marie-Claire se tem de submeter ao juízo de quatro homens completamente alienados da condição feminina.

Menções honrosas

Isaac Sánchez tem livros de temas muito diversos. Neste Baños Pleamar apresenta uma narrativa mais pessoal onde recorda o negócio de família e os momentos de infância passados na casa familiar perto da praia. Ainda que seja, aparentemente, uma história simples, memórias pela perspectiva da criança que era o autor, vamos percebendo que existem nuances, perspectivas e detalhes que dão novas interpretações aos acontecimentos. Trata-se de uma história mais pausada e mais íntima, onde o autor não só recorda a figura paterna, mas tenta conversar com o pai já falecido.

Também com uma perspectiva mais pessoal, em Não eras tu que eu esperava, o autor conta o choque de descobrir que a filha tinha trissomia XXI, apesar de terem tomado todas as previdências para um diagnóstico mais precoce. O autor expõe-se na narrativa, conferindo proximidade e empatia à história, revelando sentimentos e pensamentos difíceis de assumir naquela situação. Constrói-se assim um percurso pessoal que nos envolve pela sua frontalidade. O resultado é uma excelente leitura.

Bastante mais relaxado em tom e conteúdo, Aii! A dor também se trata com humor mostra como os seres humanos têm lidado com a dor ao longo dos séculos. Trata-se de uma abordagem cómica que proporciona uma leitura divertida e, ao mesmo tempo, informativa. A narrativa usa episódios históricos, envolvendo-os em exagero e caricaturas para criar uma aura cómica e mais lúdica.

Manga

Eis uma das melhores leituras do ano. Um homem em declínio, adaptação do romance autobiográfico de Osamu Dazai, não é propriamente uma leitura agradável. A personagem segue um percurso doloroso e incómodo, ao mesmo tempo que põe a nu detalhes sobre a sociedade e interacções que podem transtornar. Fala-se de vício (em várias vertentes), da instrumentalização dos relacionamentos e da sexualidade. Apresentam-se estereótipos, seja da sociedade, seja dos géneros, e, no meio desta representação crua e distante, tecem-se deambulações existenciais que não são suaves. É, no entanto, uma excelente leitura, levantando questões sobre interacções sociais, laços familiares e amizade, mas também sobre expectativas e perspectivas de futuro.

Hitler adapta a vida do ditador para o formato de banda desenhada, começando com os momentos em que era pintor anónimo e mostrando-nos como se iniciou o seu envolvimento com a política. Segue-se o percurso que já conhecemos, onde se destacam os acessos de raiva, mas também os últimos episódios, de queda e descompensação. A abordagem mostra Hitler como uma figura ridiculamente perigosa.

Em O meu marido dorme no congelador, uma rapariga farta-se dos constantes mal tratos do marido ao ponto de o matar. O que não espera é que, no dia seguinte, ele apareça para tomar o pequeno almoço como se não fosse nada. Quando verifica o congelador ele ainda lá se encontra – o que será afinal este marido que lhe parece mais afável e confiável? A narrativa debruça-se sobre uma relação abusiva, onde a personagem lida com o trauma psicológico e com o sentimento de culpa, ao mesmo tempo que tenta ganhar algum controlo sobre o seu quotidiano.

O Preço da Desonra apresenta sete histórias relativamente simples onde um cobrador de dívidas procura a liquidação de dívidas contraídas por guerreiros samurais afim de evitarem a morte no campo de batalha. As dívidas contraídas são de volumes exorbitantes, e cada guerreiro, ao ser confrontado com a dívida, apresenta reacções diferentes, tentando fugir, ludibriar ou lutar com o cobrador. Apesar da relativa simplicidade, são histórias pesadas, densas e dramáticas, expressas num traço realista e visceral, tanto na representação dos cenários como das expressões. Os finais são, quase sempre, deprimentes, expondo a consequência da desonra dos guerreiros – o terem pago para se salvarem é uma desonra, o não pagarem a dívida e tentarem matar o cobrador, também.

Entre as séries publicadas em Portugal, destaca-se esta, Astra Lost in Space, que consegue fechar em cinco volume, feito raro para Mangá. A história começa de forma simplista, apresentando um grupo de jovens que vai passar um marco decisivo na sua vida com uma expedição num planeta, mas que acabam num vórtex que os coloca a vários anos luz, e no meio do espaço. Felizmente uma nave encontra-se perto e entre as diferentes capacidades de cada um, conseguem iniciar o caminho de volta. Nada é, no entanto, ao acaso, e volume a volume, a história vai-se compondo, tornando-se mais complexa, mesmo do ponto de vista psicológico, apresentando questões éticas sobre avanços tecnológicos e científicos.

Gannibal é outras das séries lançadas em Portugal que se tem destacado pela positiva. Num tom mais negro, até de horror, a história centra-se num polícia que assume um novo posto numa vila remota do Japão, levando a família. Mas o que parecia a introdução para uma vida mais pacata revela um ambiente opressivo, de secretismo, uma família parece impor respeito e medo nos restantes. Em paralelo, o polícia vai encontrar ecos que correspondem às afirmações perturbadoras do anterior polícia, de que existiram canibais na vila. De volume a volume o ambiente torna-se cada vez mais pesado, com ameaças e confrontos perigosos.

Após The Promised Neverland, procurava uma série engraçada que fosse mais interessante do que os Shonen normalmente publicados em Portugal. Comecei por encontrar Magus of the Library, uma série que se destaca quer pelo fabuloso desenho, quer pelo mundo construído e pelas personagens que vai desenvolvendo. A narrativa começa de forma relativamente simples, apresentando uma realidade alternativa, de contornos medievais, onde cada cidade possui uma biblioteca. Na cidade onde se encontra Theo a biblioteca é de acesso controlado, sendo que o seu amor pelos livros e pela leitura é impedido por ser pobre e de origens mistas.

Nos volumes seguintes, a história mostra como o seu espírito positivo e heróico lhe vai garantir o acesso à biblioteca e, para além disso, tentar ser bibliotecário. Com a progressão, a história torna-se mais complexa, focando-se noutras personagens e apresentando um mundo de camadas várias, onde se exploram as questões políticas, religiosas e culturais. Uma leitura que começou como aconchegante e que se tem tornado cada vez mais desafiante – sempre acompanhada por páginas fabulosamente detalhadas.

The Apothecary diaries é outras das séries que se tornou, com a progressão, viciante. A narrativa oscila de forma equilibrada entre acção / mistério e desenvolvimento de personagens, havendo espaço para a criação de empatia e para o desenvolvimento de raciocínios inteligentes. A história centra-se numa jovem farmacêutica que é raptada e vendida para trabalhar no palácio Imperial. Mas os seus conhecimentos e curiosidade levam-na a destacar-se, passando a ser protegida por um dos poucos homens que acedem ao Palácio, e que parece ter a confiança do Imperador. A corte vai apresentando diferentes desafios, com alianças políticas, assassinatos e conspirações, onde a jovem vai ter um papel relevante pelos seus conhecimentos em fármacos.

Ascendance of a Bookworm é uma leitura mais aconchegante, começando com uma jovem que, depois de morrer subterrada em livros, ressuscita como criança num mundo de contornos medievais e raros detalhes mágicos. É, sobretudo, uma criança doente, que não pode fazer grandes esforços, mas que tem necessidade de recuperar alguns dos elementos que tinha na sua anterior existência – destacam-se, claro, os livros, inacessíveis à classe em que se encontra. A sua apetência para as letras e números, a par com as invenções que vai produzindo (alinhados com os que existem no nosso mundo) fazem com que gradualmente se destaque.

Finalmente, Witch Hat Atelier é uma leitura mais menos confortável, remetendo-nos para um mundo onde a magia é exercida por um conjunto controlado de famílias de bruxos. Uma jovem, fascinada com a magia, acaba por ter acesso indevido a um livro com feitiços, invocando um proibido. É aqui protegida e levada por um bruxo que a transforma em aprendiz. Apesar do ambiente positivo de aprendizagem, com outras aprendizes de personalidades bastante diferentes, a história vai ganhando contornos cada vez mais negros, com praticantes de magia proibida que tentam contaminar as novas mentes em geração. Em termos de construção de mundo, a história ganha valor pelo sistema mágico (fácil de perceber, com elementos concretos) e pelo desenvolvimento de personalidades distintas que correspondem a formas diferentes de praticar a magia deste mundo.

Melhores Leituras de Anos Anteriores