Resumo de Leituras – Novembro de 2018 (2)

 

196 – Andromeda – A house on the horizon – Zé Burnay – Cativa pelo visual, de desenhos a preto e branco cujo detalhe das texturas confere toda a cor necessária e apresenta uma história com traços apocalípticos e elementos míticos;

197 – Histórias de livros perdidos – Giorgio Van Straten – Livro curto, é composto por pequenos capítulos em torno de livros desaparecidos e respectivos autores. Os motivos pelos quais mais ninguém poderá ler estes livros são diversos – queimados pelos seus autores, roubados ou desaparecidos com a morte do autor; os casos são diversos! Uma óptima leitura que sabe a pouco!

198 – Watchers – Luís Louro – O livro tem duas versões sendo que a minha é a vermelha. Trata-se de uma sátira aos tempos actuais, com a construção de ídolos, o seguir de personalidades de objectivos desconhecidos na internet, e o imediatismo nas notícias que deixam de ter carácter informativo e passam a forneceder momentos de choque e emoção a quem as lê / vê. De realçar os múltiplos detalhes no texto e no desenho que hei-de detalhar em entrada própria;

199 – O Resto é paisagem – Antologia organizada por Luís Filipe Silva que reúne várias histórias de teor fantástico que aproveitam a paisagem rural como palco. Nas histórias encontramos toques de lendas locais e superstições, elementos sobrenaturais e naturais! Trata-se de um conjunto de histórias diverso que tem como objectivo entreter o leitor.

Novidade: O Elmo do Horror – Victor Pelevin

Victor Pelevin é um conhecido autor russo de ficção científica e fantástico, com vários livros publicados no mercado anglosaxónico, livros que têm ganho alguma notoriedade como S.N.U.F.F ou Empire V. Este O Elmo do Horror faz parte de uma colecção de histórias míticas adaptadas, na qual a Margaret Atwood também participou com The Penelopiad. Por sua vez, The Penelopiad foi publicado há alguns anos pela Editorial Teorema e mais recentemente também pela Elsinore com o título A Odisseia de Penépole.

Sobre este, que já tenho mas ainda não li, deixo-vos a sinopse:

«Construirei um labirinto onde possa perder-me, juntamente com todos aqueles que tentem encontrar-me – quem disse isto e a que se referia?»

Ariadne, Teseu e um grupo de sete jovens, o mesmo número que, segundo o antigo mito grego, deveria todos os anos ser sacrificado ao Minotauro, estão prisioneiros num estranho labirinto no interior da Internet, confinados a um chatroom, procurando a todo o custo sair deste labirinto virtual e regressar ao mundo real. Aos poucos, à medida que o diálogo avança, torna-se evidente que uma força oculta, um misterioso monstro e o seu temido Elmo do Horror, manipula o conteúdo das mensagens, controlando o destino de todos.

Ligando a antiga Grécia a Freud e aos horrores do subconsciente, e as narrativas tradicionais ao modo como comunicamos no século XXI, Pelevin reinventa o passado e interpreta o futuro da literatura num empolgante jogo de sombras e reflexos.

 

Novidade: PatoAventuras Vol.3

O terceiro volume desta série chegou ontem às bancas! A série é publicada em Portugal pela Goody, num formato maior do que o tradicional para as histórias Disney:

Detalhe de conteúdo

  • Bem-vindo à ilha dos Metralhas
  • A Borboleta Gigante da Patolância
  • Não Há Nada Como Uma Cidade Fantasma
  • A Pedra da Verdade!
  • Um Monstro na Administração
  • O Sono (Sonâmbulo) da Morte

 

 

 

Novidade: Wolverine Arma X Vol.1 – Jason Aaron e Ron Garney

A G Floy anuncia novo livro de Wolverine!

Há muitos anos, Wolverine foi submetido a uma série de experiências pelo Programa Arma X, uma misteriosa organização militar do governo. Com o objectivo de criar a arma viva perfeita, os cientistas cobriram o seu esqueleto e as suas garras com adamantium, um metal inquebrável que é o complemento perfeito para o factor de cura mutante que ele possui. Wolverine acreditava que tudo isso estava no passado, e que ele podia esquecer esses tempos…

 

Mas agora, Wolverine vai descobrir que as experiências que foram aperfeiçoadas no seu corpo estão de novo a ser feitas, desta vez por uma empresa privada, para criar um exército mercenário perfeito e imparável. Conseguirá ele enfrentar um grupo de soldados implacáveis e psicopáticos – e pior, soldados que possuem os mesmos poderes e habilidades que ele? Preparem-se para uma das mais tremendas e furiosas batalhas de sempre!

 

Jason Aaron é um dos mais aclamados escritores de comics actuais (Thor, Scalped, Southern Bastards), e Wolverine Arma X foi a primeira série em continuação que escreveu para a Marvel, e, juntamente com Scalped, uma das que lhe granjeou maior sucesso. Foi também nesta história que trabalhou pela primeira vez com Ron Garney, um famoso desenhador de comics de super-heróis, uma colaboração que foram continuando ao longo dos anos seguintes, pelo gosto que têm em trabalhar juntos. Isso ocorreu, p.ex. numa parte da primeira fase de Thor que Aaron escreveu, e mais tarde numa série independente creator-owned que a G. Floy já editou em Portugal, Men of Wrath/Má Raça. Ron Garney é um dos mais míticos artistas de comics, com uma imensa obra na Marvel, de que se destaca uma fase de grande sucesso do Capitão América.

Jason Aaron pensou esta série “Arma X” como uma espécie de Marvel MAX, uma série de histórias talvez um pouco mais violentas do que o costume, e quase completamente separadas do universo Marvel e da sua cronologia regular (mesmo que ocasionalmente apareçam outra personagens). É uma série que é portanto ideal para leitores e fãs dos super-heróis da Marvel mais causais. A série durou 16 números, que a G. Floy irá editar em 3 volumes; os próximos dois volumes sairão ao longo de 2019: Demente da Mente (com arte de Yannick Paquette) e O Amanhã Morre Hoje (com arte de novo por Ron Garney, com uma aparição especial de Esad Ribic).

 

WE3 – Grant Morrison e Frank Quitely

WE3 foi das obras de banda desenhada cuja leitura mais me satisfez nos últimos dias.  Não por ser uma obra introspectiva, mas por estar a precisar de uma leitura carregada de acção, rápida e divertida, mas onde o absurdo ganha forma e nos leva à famosa suspensão da realidade.

A premissa de WE3 é simples, mas carregada de prejuízo – animais foram transformados e adaptados para se tornarem armas perigosas, de grossas armaduras e portadores de grandes e poderosas armas. Estes animais estarão ao controlo do laboratório que os gerou mas quando um político decide terminar o programa (e exterminar os exemplares) alguém solta os animais.

Sucede-se, então, uma perseguição por longos territórios, uma perseguição carregada de máximo prejuízo onde se sucedem os episódios de chacinas perpetuadas pelos animais quando os tentam parar. Os animais procuram, na verdade, uma casa, alguém que cuide deles mas, naquele estado transfordo torna-se difícil encontrar um local onde possam ser aceites.

A descarga de adrenalina que se encontra em WE3 é fortalecida pelo forte desenho e quantidade de perspectivas, trabalhadas intensamente pelos autores. De realçar, também, o detalhe mecanizado dos animais, as estruturas robóticas às quais se ligam e que quase os transformam em monstros – mas quem será o monstro? O animal transformado e capaz de falar, ou os humanos que dele se servem para os seus fins bélicos?

Transformados à medida das necessidades dos humanos, os animais deixam de estar adaptados à natureza – não que deixem de ser capazes de caçar e de se alimentar, mas porque se destacam e diferenciam desta de forma gritante. As suas diferenças transformam-nos em monstros e nem os humanos que os criaram como ferramentas os querem depois de usados.

Movimentado e carregado de violência, mas também possibilitando alguns pensamentos sobre a forma como os humanos usam os animais, WE3 permite uma leitura sem grandes neurónios, mas geradora de grande satisfação para quem gosta de uma boa sucessão de episódios fortes.

WE3 foi publicado na colecção de 25 Anos da Vertigo lançada pela Levoir em parceria com o jornal Público.

Histórias de Livros Perdidos – Giorgio Van Straten

Dentro da categoria livros sobre livros, surgiu recentemente, no mercado português, pela Elsinore, este Histórias de Livros Perdidos. Nele, o autor reflecte sobre manuscritos que nunca chegaram a ver a impressão massiva, seja porque o manuscrito se perdeu ou porque o próprio autor o destruiu. Nalguns casos, perde-se o autor e, com ele, o manuscrito.

Aproveitando o manuscrito o autor apresenta alguns elementos sobre os escritores, falando sobre os seus hábitos e problemas, justificando a perda do manuscrito, e dando algumas possibilidades de recuperação. Existem manuscritos perdidos de todos os tipos: os que foram guardados em diversas paredes pelos autores, no seguimento de uma invasão; os que foram roubados; os que foram queimados propositadamente ou por engano.

De destacar a história de Bruno Schulz, o autor de Lojas de Canela, cuja morte fez desaparecer uma das suas grandes obras – sendo judeu numa altura complicada foi morto por um nazi. Mas não por ser judeu, simplesmente porque estava a cargo de um nazi rival e, como quem tira uma coisa, se mata um judeu.

Livro curto de capítulos, também, curtos, Histórias de Livros Perdidos sabe a pouco. O conjunto de pequenas histórias resulta num conjunto conciso e curioso, onde algumas são quase pessoais, por terem decorrido dentro do círculo de amizades do autor, e outras resultam de investigação sobre os autores e as suas possíveis obras perdidas.

Histórias de livros perdidos foi publicado em Portugal pela Elsinore.

Resumo de leituras – Novembro de 2018 (1)

192 – Roughneck – Jeff Lemire – Uma história que decorre numa terra fria e dura, onde os meios de sobrevivência são poucos! O hóquei é uma boa forma de escapar, mas para isso é necessário saber gerir uma carreira no hóquei. Neste caso, o ex-jogador volta ao ciclo de violência do qual tentou fugir, tal como a irmã que foge agora do marido abusador. Uma boa história com o estilo particular de Jeff Lemire;

193 – Essex County – Jeff Lemire – Essex County, escrito antes de Roughneck, apresenta a mesma dura realidade, mas aqui saltanto entre várias gerações de famílias  e mostrando a forma como se entrelaçam os destinos. Excelente;

194 – Livro Sagrado – Santo – Uma sucessão de histórias engraçados que tocam nas criaturas tradicionais portuguesas e em histórias religiosas. Apesar de ter gostado da leitura considero que existem detalhes que carecem de melhor edição;

195 – WE3 – Grant Morrison e Frank Quitey – Uma loucura de adrenalina violenta, em que três animais, transformados em armas, fogem do controlo humano e procuram uma casa.

Livro Sagrado – Santo

Visualmente catita, este Livro Sagrado apresenta várias histórias curtas que misturam história e contos tradicionais, com elementos de ficção especulativa, ora de ficção especulativa ora de fantástico.

Encontramos assim a dama pé de cabra numa história actualizada que se alonga por várias décadas e que influencia fortemente a história de Portugal, marcando a sua génese e provocando vários episódios decisivos.

Para além desta história encontramos várias outras que usam figuras mitológicas que misturam elementos portugueses e estrangeiros, não faltando os gambozinos e os lobisomens que correm fado todas as noites.

O sagrado mistura-se com a fantasia, numa série de histórias imaginativas e cómicas que oscilam entre o profano e o absurdo, resultando numa leitura agradável e divertida que peca nalguns elementos visuais: tipo de letra de difícil leitura, páginas demasiado pequenas para o detalhe apresentado e cores demasiado carregadas nalgumas histórias.

Ainda assim é um trabalho aconselhável que cumpre o papel de divertir o leitor e de deixar algumas fortes imagens de diversão, principalmente aquelas em que profana temas religiosas, com toques irónicos.

Eventos: Jantar dos Devoradores de Livros

Decorre na próxima quinta feira, dia 15 de Novembro, mais um jantar de Os Devoradores de Livros que terá como convidado Luís Louro, o autor de banda desenhada que recentemente publicou Watchers, um livro publicado em duas edições, cada uma com o seu final.  Os Devoradores de Livros costumam iniciar-se com uma conversa com o convidado na Livraria Tigre de Papel, prosseguindo-se então para jantar.

Podem consultar mais detalhes sobre o evento na página oficial.

 

 

 

Jogos ao Sábado – Arraial

De visual peculiar e relaxado, Arraial aproveita um mecanismo de encaixe de peças semelhante ao do clássico jogo de computador Tetris para nos levar a fazer combinações com as quais atraímos visitantes e pontuamos. Apesar das peças terem as formas conhecidas do Tetris, não podem ser rodadas livremente, havendo um limite de rotação e de peças a escolher, bem como um limite do espaço que podemos usar para atrair um tipo específico de visitantes.

A cereja no topo do bolo é podermos escolher as peças disponíveis ao próximo jogador, colocando, propositadamente, peças que não combinam com o seu tabuleiro. Ainda, existe uma fasquia que limita o  nosso espaço e que determina uma forma adicional de pontuar (completando linhas). Estas três variáveis (rotação / colocação, espaço disponível e escolha de peças para o próximo jogador) são as que temos de gerir para conseguir a maior pontuação enquanto garantimos que o adversário pontua pouco.

Porque considero que Arraial tem um visual peculiar? Por um lado porque tem um tema tipicamente português, pretendendo reflectir as festas de Verão com grelhados (sobretudo sardinhas) e música popular. Por outro lado, porque o desenho é de Nuno Saraiva, no estilo que lhe é tão característico, fornecendo às peças um cunho específico apesar do formato Tetris conhecido – e mesmo as peças de formato igual possuem desenhos diferentes resultando numa boa diversidade gráfica.

Os desenhos peculiares e as diferentes cores das peças resultam num visual divertido e colorido, havendo apenas a referir como ponto menos positivo o acabamento da face não visível das peças (a branco). Ainda que goste bastante do aspecto da caixa, considero que pode não se destacar entre outras caixas de cores mais carregadas.


Arraial joga-se bem a 2, 3 ou 4 jogadores, mas a 3 ou 4 jogadores adicionamos uma regra nova que inverte a ordem na segunda ronda. Esta inversão tem por objectivo diminuir a total dependência de um mesmo jogador anterior, bem como dissipar a inexperiência de alguns jogadores. Em relação à idade adequada para o Arraial (acima de oito anos) considero que facilmente pode ser adaptado para idades inferiores, retirando variáveis como a fasquia limitadora de espaço e a escolha das peças do jogador seguinte.

Independentemente destas adaptações, Arraial é um jogo de jogadas rápidas que possibilita a integração fácil de novos jogadores, e que permite alguma interacção, mas obriga à adaptação de estratégia consoante o que o jogador anterior nos disponibiliza. É um jogo divertido de gestão de espaço que ultrapassa outros de encaixe de peças Tetris como o Ubongo, por obrigar a fazer combinações e a pensar na proximidade de algumas peças.

Outros Jogos ao Sábado

Evento: O que vamos ler em 2019? As Receitas dos Tradutores

Decorre, no dia 22 de Novembro, um dia dedicado ao papel de tradutor “Não perca um estimulante debate à volta do papel do tradutor na intepretação da palavra escrita do escritor e em simultâneo fique a par das novidades literárias das principais editoras nacionais.”.

O evento tem os seguintes debates marcados:

Programa
Tema 1 – O ofício de tradutor: percursos pessoais e profissionais
Tema 2 – O tradutor e o autor: uma interpretação de risco?
Tema 3 – Tendências de futuro, que papel para o tradutor?
Tema 4 – “Receitas” para 2019, as recomendações dos tradutores
Debate aberto ao público

Para saberem mais sobre o evento, podem consultar a página oficial.

 

 

 

 

 

Novidade: O Comboio dos Órfãos – Ciclo 2

O segundo volume de O Comboio dos Órfãos sai finalmente em português! Trata-se de uma série francobelga lançada pela Arcádia que retrata a vida das crianças abandonadas nas grandes cidades americanas nos anos 20. Estas crianças eram levadas para o interior do território americano onde lhes arranjavam famílias de acolhimento. Mas se algumas famílias tratam estas crianças como membros das suas famílias, noutras são uma espécie de escravos, habitantes de segunda categoria sem condições nem possibilidades de educação.

No primeiro volume (que, tal como este, reúne duas histórias) conhecemos a história de dois rapazes cujo destino foi trocado, sendo que um deles, com esta troca, perde a irmã. Os irmãos, ainda que não sejam órfãos, são abandonados pelo pai que não tem condições para os educar. Apesar da situação trágica em que se encontram as crianças, os episódios são envoltos em pequenos detalhes cómicos e apresentam pequenos diálogos quase inocentes que refletem a visão infantil, menos prática, mas mais pura dos acontecimentos. A dura realidade percebe-a o leitor que sabe algo do destino que os espera.

Deixo-vos a sinopse do segundo volume, bem como algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Kansas — 1991.

Há festa na quinta do velho Jim que acaba de casar com a doce Bianca. À mesa, a única sombra é a cruel ausência de Joey, o seu irmão mais novo, o qual perdera de vista depois da sua adoção, há 70 anos.

Cowpoke Canyon — 1991.

Apesar da idade e da doença, Lisa decidiu ir à reunião anual dos Orphan Train Riders. Ela insiste para que Joey a acompanhe, mas o seu amigo de longa data tem fobia aos comboios.

Middle West — 1920.

Para escapar ao casamento que Effron lhe quer impor, a jovem Lisa foge na companhia do pequeno Joey, acabando ambos por chegar a Nova Iorque onde têm esperança de encontrar o seu irmão, Jim.  Os primeiros dias em Nova Iorque são difíceis.

Mas o futuro parece ser promissor quando os dois amigos dão de caras com Mr. Coleman, cujo jogo duplo ignoram…

Rascunhos na Voz Online – Miguel Jorge

O convidado desta semana foi Miguel Jorge!

Miguel Jorge, ilustrador que trabalha para várias revistas e jornais, como Correio da manhã ou o Expresso, é, também, autor de banda desenhada. Mais recentemente lançou o projecto Apocryphus, um projecto que envolve vários autores de banda desenhada e que conta já com três volumes, de temas distintos! Miguel Jorge esteve à conversa connosco falando dos desafios enquanto autor de banda desenhada e enquanto editor da Apocryphus.

Ligação para o programa na Mixcloud.

Listagem de programas Rascunhos.

Eventos: Fórum do Futuro – Margaret Atwood

Margaret Atwood estará em Portugal no seguimento do evento Fórum do Futuro para falar sobre a sua obra, numa palestra com o tema Mitos na minha obra, em que rejeita os rótulos que lhe aplicam, como sendo feminista ou de ficção científica. Como leitora de Margaret Atwood reservo-me o direito de considerar The Handmaid’s Tale como ficção científica, mais especificamente distopia, até porque nem toda a ficção científica tem de ter naves e alienígenas, e de colocar os livros ao lado de outros clássicos do género.

Para quem ande no Porto, o evento é gratuito, apesar de ser necessário reservar lugar. Se pretendem mais informações sobre o evento, podem consultar a página oficial.

Roughneck – Jeff Lemire

Jeff Lemire é conhecido por vários estilos de histórias, criando histórias futuristas de ficção científica ou histórias mais introspectivas e familiares. Quando li este Roughneck ainda não tinha lido o famoso Essex County, mas o que encontrei em ambos foi uma caracterização de um Canadá rural em que as duras condições de vida fazem com que pouco os habitantes das zonas isoladas procurem o hóquei como meio de fuga ou se  refugiem na bebida e na violência.

Derek já foi, em temos, um bom jogador de hóquei, que fugiu, durante alguns anos, ao meio onde cresceu, um meio caracterizado pela violência doméstica e pela morte da mãe na sequência de um acidente. Mas nem assim escapou totalmente. Uma lesão leva-o a retornar, procurando a bebida nos bares e a violência com quem se cruza, justificando-se com a mínima provocação.

O quotidiano problemático de Derek quebra-se com o retorno da irmã, também ela tendo fugido do pesado ambiente familiar na adolescência e fugindo agora de um companheiro violento e controlador. A irmã não carrega apenas uma dura vivência nas ruas, mas um pesado vício em drogas que Derek ajuda a controlar, levando-a para um local isolado no meio da floresta gelada.

O mundo de Derek e da irmã é violento. O clima que vivenciaram na infância contaminou a sua existência de forma diferente, mas levando-os a cair numa repetição de maus hábitos, usando o vício para alguma libertação mental, mas usando-o também para cair no mesmo padrão de violência e abuso. No caso de Derek usou, durante algum tempo o hóquei para descarregar esta energia extra. No caso da irmã, acaba por cair nas mãos de alguém que lhe deu atenção e, simultaneamente, a isola e agride.

A vida de ambos parece a continuação da violência dos pais – a repetição de vícios e a acomodação a estes episódios perpétuos, seja na forma de quem perpetua a violência, seja na forma de a receber. Até que algo novo surge, o significado de um futuro, o motivo para uma tentativa de quebrar o padrão.

O ambinete de Roughneck contrapõe a calma do ambiente envolvente (o inóspito da paisagem, o frio que tudo faz parar) com o peso desta família, entre a violência e a sucessão de desgraças ou episódios negativos. A falta de dinheiro ou de outros recursos causa uma amargura difícil de extinguir, uma amargura contaminante que cada geração tenta quebrar.

A narrativa vai contrapondo a actualidade decadante, tão inóspita quanto o ambiente, com as memórias de tempos passados, mais coloridos e vividos, às quais ambos, Derek e a irmã se agarram. Tratam-se, sobretudo de relacionamentos que ficaram mal resolvidos e que, por esse motivo, marcam o presente e justificam o retorno aos antigos vícios.

O resultado é uma história que dá grande dimensão às personagens, apresentando o seu passado e perspectivas, as suas contradições e vícios. Se, inicialmente, vemos Derek sem contexto, a não ser um episódio rápido de agressão, com a progressão da história passamos de uma personagem plana a uma personagem com complexidade e diferentes perspectivas.

Por tudo isto, Roughneck é uma excelente leitura, mesmo para quem não leu Essex County, apesar de todas as comparações que podem ser feitas entre ambas as obras.

Eventos: CompeptCon 2018

COMCEPT, Comunidade Céptica Portuguesa, é uma associação sem fins lucrativos que tem como objectivo a promoção da ciência, cepticismo científico e pensamento crítico na sociedade (definição retirada da página da comunidade). Esta comunidade pretende informar de forma isenta, com base em conhecimentos científicos actuais, afastando-se dos argumentos baseados na fé ou no misticismo.

Neste sentido a comunidade tem organizado um evento que pretende promover o seu objectivo, e este ano dedica-se à fronteira entre ciência e ficção científica.

Novidade: Angola Janga – Marcelo D’Salete

A Polvo Editora divulga o lançamento de novo livro de Marcelo D’Salete. O autor estará no evento Amadora BD, com sessões de autógrafos planeadas para o fim de semana:

Angola Janga, “pequena Angola” ou, como dizem os livros de história, Palmares. Por mais de cem anos foi como que um reino africano dentro da América do Sul. E, apesar do nome, não era tão pequeno como isso: Macaco, a capital, tinha uma população equivalente à das maiores cidades brasileiras da época. Formada no fim do século XVI, em Pernambuco, a partir dos mocambos criados por fugitivos da escravidão, Angola Janga cresceu, organizou-se e resistiu aos ataques dos militares holandeses e das forças coloniais portuguesas. Tornou-se o grande alvo do ódio dos colonizadores e um símbolo de liberdade para os escravizados. O seu maior líder, Zumbi, transformou-se numa lenda e inspirou a criação do Dia da Consciência Negra.

Angola Janga e Marcelo D’Salete arrebataram no Brasil, em 2018, os prestigiados troféus HQMix, nas categorias “Edição Especial Nacional”, “Desenhista Nacional” e “Roteirista Nacional” e ainda o prémio Grampo. O livro foi igualmente nomeado para o mais importante prémio literário brasileiro, o Jabuti, na categoria “Histórias em Quadrinhos” (a atribuir em Novembro de 2018). Com 432 páginas é, provavelmente, o maior romance em banda desenhada já publicado por um autor brasileiro.

 

 

Resumo de Leituras – Outubro de 2018 (4)

188 – O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami – Os cães, enquanto animais de estimação, são tratados de forma bastante diferente ao longo da sua permanência nas famílias – recebidos com alegria pelos mais novos nos primeiros dias, passam a ignorados ou negligenciados passados os dias em que constituem novidade. Aqui se conta o relacionamento peculiar entre um cão e o pai, um homem calmo e ponderado que vê desvanecer os restantes laços familiares;

189 – Lisboa Oculta – Guia TurísticoVários autores – Visualmente surpreendente, este livro reúne várias histórias em que se cruza o fantástico com os locais históricos para  construir uma cidade fantástica, carregada de pequenos mistérios;

190 – Os regressos – Pedro Moura e Marta Teives – Uma jovem retorna à aldeia onde viveu a infância com a avó, separada dos pais devido a problemas mentais. Restabelece alguns laços antigos, mas não são só as recordações de uma infância que retornam, também as figuras que via nas árvores e que não são explicáveis pela lógica dos adultos;

191 – Saga – Vol. 7 – O sétimo volume continua a acompanhar a família mais estranha de todo o sempre, com um período de calma num planeta onde Hazel faz alguns amigos. Mas a fuga da família ainda não terminou – novos assassinos a soldo são contratados para os eliminar!

Divulgação de resultados – Na Imensidão do Universo

Foram escolhidos os contos que irão integrar a antologia de Space Opera Na Imensidão do Universo,  organizada pela Editorial Divergência em parceria com o Rascunhos. A antologia irá integrar contos dos autores portugueses escolhidos, bem como autores internacionais. Eis os escolhidos:

  • AMP Rodriguez
  • João Luís Mesquita de Avelar Nobre
  • João Pedro Marques Morgado Ferreira de Oliveira
  • Jorge Borbinha
  • Pedro Lucas Martins
  • Sara de Athouguia Filipe

A antologia está prevista para 2019!