Evento de lançamento: O Rasto de García Lorca – Carlos Hernández e El Torres

Vai decorrer esta terça, na Fundação Saramago, o lançamento de novo livro da colecção Novela Gráfica.

 

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A metamorfose e outras fermosas morfoses – Rui Zink

Este livro publicado pela Teodolito é uma pequena antologia de contos da autoria de Rui Zink. A maioria destes não pertencem explicitamente ao género da ficção especulativa, ainda que façam alusão ao género e deambulam entre a fronteira da ficção e da realidade.

O primeiro conto do conjunto, A Metaformose, retrata o quotidiano de uma família enquanto aguarda que Gregor Samsa se transforme. Talvez numa barata ou talvez noutro insecto, mas decerto que se transformará, fazendo finalmente a fortuna da família que outrora já foi rica e que, agora, lhe cobra esta transformação.

Já em O Jogo Literário um escritor disserta sobre o impacto que tem, para o seu trabalho, o corte da luz.  Principalmente quando o computador está ligado e o escritor ausente, sem possibilidade de o guardar devidamente antes do corte. E que respeito terão os trabalhadores da obra para com o seu trabalho quando pensam em desligar, assim, repentinamente, o computador?

Monzeit é uma história sobre uma personagem (será ficcional, será real) que estará por detrás de todos os grandes espaços e de todas as grandes publicações que residem na memória do narrador com grande saudade. Trata-se do episódio de encontro com esta personagem, numa longa conversa que poderá, ou não, ter existido.

Aquashow demonstra a diferença de classes perante um fenómeno natural. Alguns, mediante o pagamento de bilhete, assistem de lugar privilegiado, com todas as mordomias possíveis, podendo vivenciar do espectáculor por inteiro. Já os restantes, amontoam-se no local possível, gratuitamente, sendo alvo dos comentários dos que lá abaixo, de copos na mão, aguardam o evento.

Largar Kristeva, por sua vez, é um diálogo sobre amores e desamores, listando motivos para afastamento e proximidade. A este diálogo sucede-se Pandora Boxe que acompanha os primeiros dias de um casal na nova casa. Sem luz, sem água e sem electricidade, afastam-se progressivamente do convívio civilizado, embirrando um com o outro, pela falta destes elementos. A compilação termina com um pequeno episódio, A Gaivota e o Peixe, em que um homem é persuadido a alimentar uma gaivota, mas a cena não se desenvolve dentro dos parâmetros da normalidade.

Se, nalgumas histórias de fala da ficção como realidade, aguardando a sua concretização como se de uma profecia se tratasse, noutras historias fala-se de possibilidades e imaginações em narrativas fechadas e auto-contidas. Tratam-se, sobretudo, de jogos de ideias e de conceitos, deambulações quase circulares em que cada iteracção se aproxima cada vez mais do seu fecho. O conjunto é de leitura agradável e ralaxada, ainda que não se possa dizer, da maioria, que explora a narrativa. Algumas fazem-no de forma episódica, outras são deambulações, pensamentos que se vão expondo.

Novidade: A Febre de Urbicanda – Schuiten e Peeters

O terceiro volume da Colecção Novela Gráfica é um livro de Cidades Obscuras, uma das fabulosas criações de Schuiten e Peeters:

Esta quinta-feira, dia 18 de Julho, em banca o terceiro volume da colecção Novela Gráfica “A Febre de Urbicanda” de Schuiten e Peeters, um dos títulos mais emblemáticos da série Cidades Obscuras, premiado em Angoulême em 1985, esgotado em Portugal há mais de 20 anos e que agora regressa  numa edição definitiva que, para além de um dossier final sobre a lenda da Estrutura, inclui também a história A Última Visão de Eugen Robick, feita em 1997 para o número final da revista (A Suivre), onde a série nasceu.

François Schuiten é um dos nomes mais importantes da BD mundial, com um percurso ímpar, justamente galardoado em 2002 com o Grande Prémio da Cidade de Angoulême pelo conjunto da sua obra. Escritor, ensaísta, professor universitário, cineasta e um dos maiores especialistas mundiais na obra de Hergé, Benoît Peeters é também argumentista. Juntos, Schuiten e Peeeters, criaram ao longo de mais trinta anos a série As Cidades Obscuras, uma designação inventada por Jean Paul Mougin, director da (A Suivre). Um universo que é constituído por uma série de cidades fantásticas, verdadeiros protagonistas de histórias fascinantes que têm como pano de fundo as relações entre a arquitectura, as emoções e o poder.

Eugen Robick, o urbitecto responsável pelo plano de urbanização que pretende restituir a simetria à cidade de Urbicanda, é confrontado com a descoberta de um misterioso cubo, feito de uma matéria desconhecida, cujo crescimento geométrico vem perturbar e transformar profundamente a imagem da própria cidade e a vida dos seus habitantes. O que irá acontecer à utopia urbana de Robick, agora que a cidade está desestabilizada pelo cubo, e o próprio arquitecto transtornado pela irrupção do amor na sua vida tão regrada?

 

O Tesouro do Cisne Negro – Guillermo Corral e Paco Roca

No fundo do mar escondem-se tesouros. Montanhas de moedas de ouro e prata. Mas mais do que isso, a história de civilizações e detalhes de eventos importantes que podem ser recuperados com os barcos afundados por tempestades ou confrontos militares. E ainda mais do que isso, os restos mortais de seres humanos que têm a sua própria história de vida, um propósito que se esconde com eles no fundo mar.

Quando a empresa Ithaca Deep Sea diz ter descoberto um tesouro com o respectivo barco, cabe aos organismos oficiais espanhóis descobrirem se se trata de um navio espanhol e qual deles. Esta é a única forma de poderem reclamar os tesouros nacionais. Não só pela riqueza propriamente dita, mas sobretudo porque esta empresa actua como verdadeiros piratas, destruindo rapidamente o que não for metal precioso.

Esta descoberta resulta numa intensa batalha legal, com direito a chantagens políticas, ameaças e alguma espionagem. A empresa Ithaca Deep Sea estará associada a alguns organismos muito poderosos que tentam dissuadir o grupo de prosseguirem com a reclamação do tesouro. O resultado é uma história com algumas reviravoltas e mais acção do que seria de esperar da premissa.

Com o desenho característico de Paco Roca, mas com o enredo de Guillermo Corral (baseado na sua própria experiência com uma situação semelhante) é um volume de agradável leitura que se afasta do tom íntimo que costumam ter as histórias de Paco Roca. Apesar de conseguir ter alguns episódios mais pessoais da personagem principal, a história centra-se sobretudo nos eventos presenciados pela personagem, enquanto membro do grupo que tenta reclamar o tesouro descoberto do fundo do mar.

Novidade: Até que a morte nos separe – Mauro Marcheselli, Tiziano Sclavi e Bruno Brindisi

O segundo volume de Dylan Dog tem andado desaparecido das bancas, mas deverá retornar à distribuição, com a presença, nas próximas semanas, na FNAC e na Wook. Este segundo volume traz-nos uma história pouco típica do herói:

Criado por Tiziano Sclavi, DYLAN DOG é o célebre investigador do paranormal, o detective dos pesadelos, uma das mais conhecidas personagens de BD de sempre, cujas aventuras ao mesmo tempo aterradoras, inquietantes e melancólicas, têm encantado leitores – e leitoras – em todo o mundo.

Antes de ser o detective do pesadelo, Dylan Dog era apenas um agente da Scotland Yard que vai descobrir o amor com Lillie Connoly, uma jovem activista irlandesa. Uma história de amor trágica, considerada como uma das melhores histórias de sempre de Dylan Dog, que marcará de forma indelével o nosso herói.

Oriundo de uma família de artistas, Bruno Brindisi entra na Sergio Bonelli Editore em 1990, com apenas vinte cinco anos, desenhando alguns episódios de Nick Raider, até entrar na equipa de Dylan Dog, série onde se vai estrear com a aventura Il Male, escrita por Tiziano Sclavi. Bruno Brindisi é hoje um dos mais representativos desenhadores de Dylan Dog, tendo realizado alguns dos mais importantes episódios da série. Se há adjectivo que caracteriza o seu Dylan Dog, seria naturalmente a beleza, complementada com alguma dose de ironia, tudo servido por uma linha clara, capaz de transmitir as paixões, os amores e desamores do herói.

Mauro Marcheselli é uma das mais influentes personalidades nos fumetti italianos. Nascido em 1953, torna-se redactor da Sergio Bonelli Editore em 1986, e começa a escrever para Dylan Dog a partir de 1992, assinando algumas das melhores histórias do detective do pesadelo, entre as quais poderíamos mencionar Johnny Freak (já publicada em Portugal pela Levoir) e este Até que a Morte vos Separe. Foi editor da série até 2009, passando a ocupar o posto de Director Editorial de toda a SBE entre 2010 e 2015. Dylan Dog absorveu na totalidade trinta anos da vida de Marcheselli, podendo ser hoje considerado, depois de Tiziano Sclavi, como o mais importante autor da série.

Ao contrário dos super-heróis, que têm uma origem bem definida, a origem de Dylan Dog tem sido contada aos poucos, em edições especiais, como é o caso do #121, que coincide precisamente com o décimo aniversário da série. Foi aí que saiu esta aventura, que explora o passado de Dylan enquanto agente da Scotland Yard, antes de se estabelecer como investigador privado. Uma história baseada em factos concretos e bem reais, relacionados com a luta armada pela independência da Irlanda do Norte, luta pela que causou dor e sofrimento dos dois lados da barricada, e que Dylan acompanha enquanto polícia de giro da Scotland Yard, Um jovem polícia, que vê um colega morrer ao seu lado, despedaçado por uma bomba do IRA e que, ainda assim, acaba por se envolver com uma activista do IRA, a bela Lillie Connolly, o primeiro grande amor de Dylan, que marcou também os leitores.

Novidades: O Velho que Lê – Fabio Celoni, Tiziano Sclavi e Angelo Stano

O Velho que Lê marcou o regresso de Dylan Dog ao mercado português (depois das publicações pela Levoir em parceria com o jornal Público).  Este volume será o primeiro de uma nova colecção da G Floy e que já conta com outra história desta personagem da banda desenhada italiana:

Criado por Tiziano Sclavi, DYLAN DOG é o célebre investigador do paranormal, o detective dos pesadelos, uma das mais conhecidas personagens de BD de sempre, cujas aventuras ao mesmo tempo aterradoras, inquietantes e melancólicas, têm encantado leitores – e leitoras – em todo o mundo.

Dylan Dog investiga o desaparecimento de Ozra, um velho obcecado por livros, e irá mergulhar num mundo fantástico, povoado de personagens literárias, pesadelos e horrores bem reais. Para além desta história maior escrita e desenhada por Fabio Celoni, este volume inclui ainda A Pequena Biblioteca de Babel, um divertimento ao estilo “de Borges” sobre o misterioso destino de uma aldeia na Cornualha, que em pouco mais de uma dezena de páginas mostra um exemplo espantoso do universo surreal de Dylan Dog.

Fabio Celoni é um dos grandes criadores de fumetti, a banda desenhada italiana, e um dos maiores mestres do preto e branco, um exemplo da qualidade superior que a produção da Sergio Bonelli, a célebre casa editorial de Tex e Dylan Dog, entre tantas outras séries, consegue atingir mês após mês, nas suas revistas de c. 100 pgs a p/b. Diplomado pela famosa Scuola del Fumetto di Milano, vai tornar-se aos 19 anos no mais jovem desenhador a ser publicado na revista Topolino (Mickey), da Disney Itália. Desde então construiu uma notável carreira como artista de BD. É um dos poucos autores que simultaneamente escreve e desenha as suas histórias na Bonelli, e com este O Velho que Lê, venceu o prestigiado Galeone d’Oro di Cravenroad7 em 2009, o prémio que distingue a melhor história de Dylan Dog publicada em cada ano.

O estilo de Celoni é único, perfeitamente identificável, vibrante e potente. O Velho que Lê é disso perfeito exemplo, no seu tom onírico ou na mistura de diferentes realidades, fruto de uma sensibilidade criativa como poucas, numa história que é também uma grande homenagem a histórias clássicas da BD clássica, como por exemplo Mort Cinder, de Oesterheld e Breccia.

Como suplemento, os fãs poderão encontrar uma maravilhosa – se bem que perturbadora e genuinamente assustadora – história escrita por Tiziano Sclavi – criador da série – A Pequena Biblioteca de Babel, com arte de Angelo Stano. O autor aqui homenageado é, claro, Jorge Luís Borges, e este pequeno conto macabro e cheio de humor negro é um bom exemplo dos muitos aspectos que as histórias de Dylan Dog podem revestir.

Se Dylan Dog é um herói fascinante, Tiziano Sclavi, o seu criador, não o é menos. Personagem torturada, afectada por depressões e bloqueios criativos que o levaram mesmo a tentar o suicídio, Sclavi é uma figura envolta numa aura de mistério. Mistério para o qual muito contribuiu o facto de quase não aparecer em público, raramente dar entrevistas, e muito menos se deixar fotografar. Numa dessas raras entrevistas, ficou célebre a resposta que deu quando lhe perguntaram se se identificava com Dylan Dog: “Nem com Dylan, nem com Groucho” disse, “eu sou os monstros”.

 

Os Engonços da Quionga / A loja do desejo agridoce – Rhys Hughes

Ainda que a maioria dos contos da antologia Winepunk sejam de autoria nacional, existem dois de Rhys Hughes que decorrem no mesmo Universo. Na primeira história um estrangeiro explora as origens da sua estranha casa, percebendo que a casa viajou vários milhares de quilómetros. No segundo conto parte este mesmo estrangeiro para salvar uma donzela, utilizando-se elementos narrativos criados no primeiro conto.

Quem conhece o autor percebe o seu fascínio por culturas não ocidentais. Não é, assim, de estranhar, que o autor tenha situado os dois contos em África, começando com os conflitos armados que aí decorriam. Nostálgicos pela terra natal e sem querer largar as suas casas, seguem um inventor louco que cria um mecanismo capaz de viajar longas distâncias, transportando, numa plataforma, todas as casas de quem deseja regressar. A convivência permanente dos viajantes e os trios amorosos resultam em conflitos difíceis de resolver. Os viajantes acabam por se separar de forma inesperada.

Num segundo conto, o mesmo estrangeiro explora as lojas locais e encontra uma de desejos agridoce onde se fala de árvores de bochechas e outros eventos improváveis. A compra de uma poção leva-o à praia, onde encontra uma garrafa com uma mensagem de socorro. Ainda sob o efeito da poção, o estrangeiro parte para salvar uma donzela, sem saber que será uma viagem de reviravoltas inesperadas.

Ainda que as duas histórias possuam um ambiente algo diferente do resto da antologia, são dois contos imaginativos e fantásticos, de leitura divertida pela forma como jogam com ideias mirabolantes.

Outros contos da antologia Winepunk

Ricochet Robots – Alex Randolph

Eis um puzzle infinito! Tendo vários tabuleiros que se podem conjugar e várias posições iniciais para cada um dos robots, Ricochet Robots permite ter, a cada jogo, resoluções diferentes para se concretizarem os objectivos! A cada jogada é mostrado um local a que se tem de chegar com o robot da côr correspondente, podendo ser usados outros robots para facilitar as jogadas.

O jogo vem com X tabuleiros diferentes, indicando-se, em cada um, a que robot corresponde. Para montar o tabuleiro final deve existir um tabuleiro correspondente a cada robot, garantindo-se assim que estão disponíveis todos os tabuleiros possíveis. A cada jogada vira-se um token diferente que corresponde a um objectivo diferente. Em seguida, os jogadores tentam perceber em quantos movimentos conseguem levar o robot ao objectivo. O primeiro que chegar a uma solução indica-a em voz alta – inicia-se então a contagem de tempo com a ampulheta, durante a qual os restantes tentam chegar ao mesmo objectivo em menos jogadas.

Os robots devem mover-se sempre em linha recta, mudando de direcção apenas quando chocam contra uma parede, outro robot ou uma diagonal de ricochet. Estas diagonais levam o robot a prosseguir o movimento num ângulo de 90ºC. Dado que o movimento do robot também pára quando bate noutro, várias das soluções são conseguidas movendo os outros robots. Mas atenção! A diagonal tem ainda uma particularidade – o robot que for da mesma côr que a diagonal consegue atravessá-la.

Trata-se de um jogo que pode acomodar um número quase infinito de jogadores (tantos quantos os que caibam em torno da mesa). Cá em casa nem sempre jogamos com a ampulheta, permitindo que novos jogadores consigam, a seu tempo, chegar a soluções competitivas. Para quem gosta de puzzles este permite diferentes níveis de dificuldade (existem tabuleiros sem diagonais).

Ricochet Robots foi publicado em Portugal pela Devir.

Novidade: Frango com Ameixas – Marjane Satrapi

Está nas bancas o segundo volume da colecção Novela Gráfica! Trata-se de Frango com Ameixas, um livro da autora de Persépolis. Deixo-vos com a sinopse e algumas páginas disponibilizadas pela editora:

Marjane Satrapi nasceu no Irão, filha de uma família de uma camada ocidentalizada da sociedade iraniana. Os pais politicamente activos, eram contrários à monarquia do Xá, pela crescente repressão das liberdades civis e as consequências da política iraniana na vida dos cidadãos. Quando o Irão passou a ser governado pelos fundamentalistas muçulmanos, os pais sentindo-se ameaçados partiram para o exílio na Áustria, Marjane voltou mais tarde para o Irão para estudar belas-artes, teve uma educação que combinou a tradição da cultura persa com valores ocidentais e de esquerda.

Frango com Ameixas, embora tendo uma carga política, é uma história de amor de um homem pelo tar, o seu instrumento musical, que o celebrizara como um dos maiores músicos do país e que numa discussão com a sua mulher esta o quebra.

Nasser Ali Khan, tio-avô de Marjane, vivia em Teerão, 1958, inicia a busca por um novo instrumento, mas nenhum tem o som tão perfeito como o que ele herdara na juventude, durante a sua formação. A angústia, o desespero e a perda de esperança levam a que este homem desista de viver e morra de tristeza.

Frango com Ameixas, já foi adaptado ao cinema e conta com a portuguesa Maria de Medeiros no elenco.

Uma história para reflectir sobre o que acontece quando o ser humano se condena a viver no passado e não segue em frente.

“É importante poder morrer de amor, crer que estes tipos de coisas possam acontecer. Isso não existe no mundo de hoje, no qual há menos poesia, menos amor pela arte e pela beleza. Pode ser que necessitemos de mais imaginação e menos de realidade”, assegura a autora.

Resumo de leituras: Julho de 2019 (2)

 

49 – Mar de Aral -José Carlos Fernandes e Roberto Gomes – Um conjunto de pequenas histórias da dupla. Com o humor peculiar de José Carlos Fernandes, as histórias oscilam entre ficção científica, horror ou fantasia, existando, também, as mundanas que retratam vidas menos especulativas. Um conjunto excelente que está disponível em diversos idiomas;

50 – Lenguluka – Onofre dos Santos – Uma ficção científica passada em Lisboa que traça um cenário de crescimento económico através de parcerias com países orientais e africanos. Sendo as parcerias recentes, existem novos focos populacionais de vincadas tradições que nem sempre possuem a mesma percepção sobre as mesmas práticas. Aquilo que começa por ser um mero caso de uma noite acaba como motivo de ruptura cultural e, talvez, até, económica;

51 – Andromeda – Zé Burnay – Belíssimo volume coordenado pelo autor através de Indiegogo. O volume, de capa dura, apresenta uma sucessão de histórias pós-apocalípticas, num mundo quase deserto excepto por monstros. Reconhecem-se elementos fantásticos de horror com fortes detalhes mitológicos;

52 – Duke – Vol.1 – Hermann e Yves H. – No velho Oeste imperava a violência como forma de estabelecer poder e riqueza. Não é, assim, de estranhar, que quem explorava os outros tinha, a soldo, uma série de pistoleiros que faziam cumprir ordens e inspiravam temor. A história começa com a morte de uma mulher e uma criança, sendo este episódio que irá iniciar a necessidade de vingança e mover a história.

Andromeda – Zé Burnay

Andromeda foi um dos projectos que esteve o ano passado em Indiegogo para financiamento colectivo – um projecto de Zé Burnay  que foi financiado e se concreticou conforme o esperado, fornecendo a quem participou um belíssimo volume de banda desenhada, em capa dura e excelente qualidade de impressão. Para além da qualidade do volume, destaca-se, também, a qualidade do trabalho de Zé Burnay, que já tinha constatado no pequeno livro A House on the Horizon.

De poucas palavras, a história cruza elementos míticos e mitológicos, com uma aura permanente de horror fantástico. Por entre paisagens fantásticas carregadas de elementos estranhos, que me recordam mundos pós-apocalípticos, seguimos um homem que vai enfrentando várias bestas e várias divindades.

A história começa com o confronto com um minotauro prosseguindo com a exploração de uma casa para a qual é atraído. Uma casa aparentemente acolhedora mas que esconde vários segredos e da qual a personagem terá de fugir para ganhar nova perspectiva e passar à próxima fase de exploração.

No final podem encontrar arte que decorre no mundo imaginado de Zé Burnay de vários autores de banda desenhada conhecidos como Mike Magnola, Frans Boukas, Matt Smith, Aaron Conley, Simon Roy, John Kenn Mortensen, Artyom Trakhanov e Christian Degn.

Este livro, e outros do autor, podem ser adquiridos na página oficial.

In Vino Veritas – João Ventura – Winepunk

Pegando na frase em Latim, João Ventura dá-lhe um novo significado integrando um novo tipo de vinhas combatentes que são capazes de ter uma acção determinante contra forças inimigas.  O conto ganha especial interessante por usar figuras históricas da época, integrando-as de forma coerente.

A premissa do conto é simples e João Ventura trabalha-a de forma consistente e elegante, transformando-se numa história imaginativa, interessante e de bom ritmo. A história mostra o novo tipo de vinhas combatantes, mas consegue focar-se em várias localizações para dar uma visão maior dos conflitos entre o Norte e o Sul do país.

Outros contos da antologia Winepunk

Jogos ao Sábado – Twin Tin Bots – Philippe Keyaerts

Adquirido em leilão, este foi daqueles jogos que nos conquistou em pouco tempo. Sim, a capa é desenxabida e passa despercebida entre outras, mais coloridas e de desenhos mais sólidos. Trata-se de um jogo de programação em que os movimentos indicados ao nosso bot podem ser perpetuados jogada após jogada.

O jogo tem como objectivo a entrega de cristais no centro de cada jogador. Para tal, temos dois bots que podemos programar, distribuídos pelo tabuleiro. Existem vários mapas iniciais que permitem que, independentemente do número de jogadores, os bots estejam distribuídos de forma semelhante pelo tabuleiro.

A cada jogada podemos adicionar / retirar / substituir uma instrução ou limpar a programação de um bot e existem várias instruções disponíveis: apanhar ou largar cristal, rodar para a esquerda ou para a direita, avançar uma ou duas casas e dar um choque eléctrico. Este último permite fornecer uma instrução a outro bot e estragar o jogo do adversário. Existem, ainda, instruções especiais que podem ser adquiridas com a entrega dos cristais azuis (que valem menos). Estas instruções especiais permitem, por exemplo, saltar, empurrar mais do que um objectivo, dar choques maiores ou esticar os braços e captar cristais a maior distância.

Ainda que o jogo seja aparentemente simples, é necessário projectar a perpetuação dos movimentos pelas próximas jogadas (se não se alterarem as instruções, as mesmas mantém-se nas jogadas seguintes), mas essa projecção pode ser facilmente estragada pelos choques, pelos obsctáculos ou ao empurrarem os nossos bots. Para além do tabuleiro base existem estruturas que se podem adicionar, como portais ou poças de lama, que conferem um maior grau de dificuldade.

Este jogo está indicado para maiores de 13 anos (ainda que na página do boardgamegeek esteja a indicação de 10), mas constatámos que se podem envolver crianças bastante mais pequenas, jogando com o tabuleiro base (sem portais, nem poças de lama). Trata-se de um jogo de 2 a 6 jogadores, sendo que as instruções indicam, para cada número de jogadores, diferentes tabuleiros, disposições iniciais e número de cristais. Este detalhe torna-o equilibrado para quase toda a variação do número de jogadores, ainda que a 2 haja espaço suficiente para que cada um possa fazer as suas jogadas isoladamente.

Twin Tin Bots não é o melhor jogo de programação que cá temos em casa, mas é suficientemente bom e adaptável para já o termos jogado diversas vezes com diferentes grupos que oscilam entre jogadores experientes e novatos (quer de idade, quer de experiência). Diria até, que é o mais jogado neste género.

Eventos: O Museu da Lua

O Museu da Lua chega a Portugal! Neste seguimento, vão decorrer festividades nos próximos dias no Palácio do Marquês de Pombal e estaremos presentes para apresentar um conto de João Barreiros sobre o viver na Lua e as consequências que tal teria para o corpo humano e para a criação de cidades sustentáveis. A leitura decorrerá a três vozes, alternando entre João Barreiros, Carlos Silva e eu.

Mas o programa é bastante mais extenso, contemplando apresentações e música, em torno da ciência e da Lua.

Isola – vol.1 – Brenden Fletcher e Karl Kerschl

Com um visual curioso e uma descrição fantástica, Isola é uma das últimas séries da Image que iniciei a leitura, esperando algo talvez dentro das linhas de Monstress, pelos toques orientais que me parece ter a arte. O resultado tem elementos interessantes mas é, no conjunto algo desapontante – uma história com detalhes que poderiam ser explorados de melhor forma, um visual que tem dificuldades em expressar os saltos temporais e um excessivo foco na personagem principal que retira qualquer possibilidade de percepcionar uma história global. Passo a detalhar.

A história decorre num mundo fantástico onde uma rainha se transformou num tigre. Desconhecemos como ou porquê, mas acompanhamos uma soldado, Rook, que permanece fiel à sua rainha e que a acompanha, afastando-a da cidade por saber que se lá entrarem o tigre será, decerto, morto. Sabemos que a soldado é a capitã da guarda da rainha, mas mesmo assim é difícil de percepcionar a razão para tal nível de dedicação – que se pode dever apenas a honra e a responsabilidade, mas não existem pistas suficientes sobre tais razões. A história é, basicamente, isto. Uma viagem das duas, tigre e capitã da guarda, pelas montanhas, tentando encontrar uma solução para a situação.

Em relação aos toques orientais, estes encontram-se presentes. Para além de alguns detalhes na arte encontramos, também, a dedicação da soldado à rainha (ainda que, novamente, ficamos sem perceber se existe algo mais no seu relacionamento e a questão da dedicação não seja totalmente explícita). Também o aparecimento abrupto de alguns grupos de malfeitores recorda algumas aventuras de anime ou mangás.

Já a narrativa é quase linear, excepto por alguns saltos temporais que nem sempre são percepcionados devidamente. O foco de toda a história é a dupla soldado / rainha, mas dando mais protagonismo à soldado do que à rainha. Sem outras perspectivas ou a apresentação de episódios decisivos que expliquem como a dupla chegou a esta situação, este primeiro volume torna-se meio desapontante. Existe, ainda, uma outra personagem que parece ter o papel de guia mas que, também, não convence.

No final fica-me a sensação de falta de plano global para a história. Ou uma falha em planear devidamente o crescer da expectativa ao leitor, ou o deixar pequenas pistas que poderiam ajudar a revelar os mistérios. Existem alguns obsctáculos mas todas as circunstâncias parecem mais fantásticas do que reais, fazendo com que não me tenha sentido absorvida com este mundo. Conclusão? Talvez leia o segundo volume mas existem, de momento, várias séries mais interessantes pelas quais nutro bastante mais interesse. Achei que em qualidade gráfica o volume é razoável (as páginas conseguem apresentar excelentes gravuras, ainda que tenha problemas com a forma como a luz se propaga nalgumas delas) mas que é em termos narrativos que precisa melhorar.

Novidade – All-Star Superman – Vol.2

Chega às bancas, no dia 06 de Julho, o segundo volume de All-Star Superman:

A premissa que guia All-Star Superman é o último dia de vida do Kryptoniano e como Lex Luthor, no primeiro volume, consegue arrastar o Homem de Aço para uma armadilha mortal, forçando-o a absorver mais radiação solar do que aquela que o seu corpo pode processar. A partir deste ponto de partida viveremos uma história épica cheia de episódios dos mais estranhos, atingindo o seu apogeu de loucura com a viagem do Superman ao Subverso povoado por bizarros e Zibarro. Os Bizarros serão uma espécie de praga assustadora, zumbis impossíveis de serem detidos.

Zibarro, é o único “bizarro” normal num mundo em ruínas, com seres extremamente limitados. A narrativa é tocante, belíssima mesmo.

O desenho de Frank Quitely não é de fácil absorção para o leitor, o seu Superman é gigante, bem diferente daquilo a que o leitor está habituado. No entanto, apesar da estranheza inicial que o desenho causa, ele acompanha muito bem o texto épico – mitológico mesmo – que Morrison cria. Superman é grande por que ele é maior do que a vida. Um verdadeiro deus entre os homens, mas um deus benevolente, de carácter ilibado e acções altruístas mesmo diante do seu inevitável fim.

Para All-Star Superman, a DC escolheu a dupla Grant Morrison e Frank Quitely. Quitely, na verdade, foi uma imposição de Morrison. “O Super-Homem é o melhor super-herói, Frank é o melhor ilustrador. Tinha de ser ele”, declarou o argumentista numa longa entrevista concedida ao site Newsarama.

 

 

 

Novidade: A Companhia Negra – Glen Cook

A mais recente grande aposta da Saída de Emergência já tem data marcada para o lançamento! O primeiro livro da série As Crónicas da Companhia Negra, de Glen Cook está agendado para 02 de Agosto! Até lá, deixo-vos com a sinopse:

BEM-VINDO AO LADO MAIS REALISTA, OBSCURO E VIOLENTO DA FANTASIA.

Durante incontáveis gerações, a Companhia Negra, a mais famosa e temida irmandade de mercenários, serviu grandes senhores. Mas os dias de glória há muito que ficaram para trás. A trabalhar para o governador de uma ilha insignificante, estes veteranos limitam-se a fazer aquilo para que são pagos, enterrando com os seus mortos o desencanto que os atormenta.
Entretanto, depois de séculos de enclausuramento, a Senhora ressurgiu. Alguns acreditam que ela é a única que mantém o mundo a salvo de um mal maior. Outros, temem que ela seja a encarnação desse mesmo mal.
Quando surge a profecia de que, algures, nasceu uma jovem que irá livrar o mundo da Senhora e dos seus exércitos impiedosos, a Companhia Negra terá de escolher um lado.

E assim começa uma das sagas de fantasia mais originais e disruptivas de sempre.

 

No Caderno de Tangerina e Tangerina – Rita Alfaiate

Eis um duo curioso. Se a leitura do primeiro livro, No Caderno  de Tangerina nos faz pensar que estamos perante uma engraçada leitura juvenil, com detalhes semelhantes a outras aventuras de crianças que envolvem monstros e projecções monstruosas que resultam de elementos no seu quotidiano, o segundo livro, Tangerina faz-nos repensar o que lemos no primeiro e perceber que à mesma história podem ser dadas interpretações diferentes consoante os detalhes que nos são mostrados – e que, neste caso, a história pode ter uma versão bastante mais monstruosa do que inicialmente nos parece.

Os verdadeiros monstros andam entre nós, percepcionados apenos por poucos. Para os restantes serão pessoas normais, senão exemplares. No primeiro livro, No Caderno de Tangerina, uma rapariga passa as aulas a desenhar um monstro que terá escapado dos seus sonhos – um monstro com o qual terá vários encontros tenebrosos, encontros estes onde, por vezes, também estará presente o seu colega de carteira, um rapaz que, curioso, se aproxima de Tangerina.

Tangerina, uma rapariga com alguns problemas, mostra episódios agressivos para com este rapaz e uma dualidade de comportamentos que a levam a ser percepcionada de determinada forma pelo próprio leitor (e que a autora facilita pela forma como dispõe os acontecimentos e pela forma como mostra, apenas, alguns detalhes). Já no segundo volume, o acrescentar de mais alguns episódios (na prática de alguns vinhetas) leva-nos a repensar as nossas percepções e interpretações do primeiro e a relê-lo.

Isoladamente, o primeiro volume é engraçado. De leitura rápida apresenta a história da nova aluna da turma, Tangerina, que vai passar pelos óbvios problemas de integração. Não é, assim, de estranhar que a vejamos afastada dos restantes colegas, concentrada nos seus desenhos e deambulando sozinha pelos montes. Por sua vez, o colega de carteira tenta aproximar-se e acaba por se cruzar com o monstro que Tangerina desenha.

Já a conjugação com o segundo volume faz do conjunto uma reviravolta inteligente conferindo maior profundidade à história apresentada, bem como um lado negro e bastante mais arrepiante. Ainda que aparente ser uma história simples, a combinação dos dois volumes torna-a bastante interessante.

No Caderno de Tangerina e Tangerina foram publicados pela Escorpião Azul.

Novidade: O Tesouro do Cisne Negro – Paco Roca e Guillermo del Corral Van Damme

Começa no próximo dia 4 (quinta-feira) a nova colecção Novela Gráfica que é publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público. Esta colecção traz algunas autores já conhecidos do púbico português. Eis o alinhamento da colecção, bem como alguns detalhes do primeiro volume, O Tesouro do Cisne Negro:

  1. O Tesouro do Cisne Negro de Paco Roca e Guillermo del Corral Van Damme, 4 de Julho
  2. Frango com ameixas de Marjane Satrapi, 11 de Julho
  3. A Febre de Urbicanda, Benoit Peeters e François Schuiten,18 de Julho
  4. O rasto de García Lorca, El Torres e Carlos Hernández, 25 de Julho
  5. Monika de Guillem March e Thilde Barboni, 1 de Agosto
  6. Gorazde: Zona Protegida de Joe Sacco, 8 de Agosto
  7. Flex Mentallo: Herói do Mistério de Grant Morrison e Frank Quitely 15 de Agosto
  8. Dias sombrios de Juan Escandell e Lluís Ferrer Ferrer, 22 de Agosto
  9. Como uma luva de veludo forjada em Ferro de Daniel Clowes, 29 de Agosto
  10. As Serpentes Cegas de Bartolomé Seguí e Felipe Hernández Cava, 5 de Setembro
  11. O Número: 73304-23-4153-6-96-8 de Thomas Ott, 12 de Setembro
  12. Neve nos bolsos de Kim, 19 de Setembro
  13. Café Budapeste de Alfonso Zapico, 26 de Setembro

Neste primeiro volume, O Tesouro do Cisne Negro, Paco Roca, ilustrador e Guillhermo Corral, diplomata de carreira e escritor, contam a história de La Merced, um barco espanhol naufragado no século XIX, encontrado por “piratas” americanos no século XXI, e recuperado pelo estado espanhol depois duma longa batalha judicial.

Esta apaixonante aventura marinha teve o seu início em Maio 2007, quando a principal empresa norte-americana de caça de tesouros e barcos naufragados, captou a atenção da opinião pública ao anunciar a descoberta no fundo do mar do espólio de um barco que fazia a rota entre Espanha e as colónias na América Latina. O tesouro era composto por 500 mil moedas em ouro e prata, lingotes de cobre e estanho, caixas de ouro… um total de 17 toneladas.

Segundo a limitada informação difundida pela empresa a descoberta corresponde a uma misteriosa embarcação, o Cisne Negro. No entanto há indícios que apontam para outro navio, o espanhol Nuestra Señora de las Mercedes, no livro apresentado como La Merced, que foi afundado pelas tropas inglesas quando viajava de Montevideu para Cádis, a 5 de Outubro de 1804 na Batalha do Cabo de Santa Maria. A partir desta revelação, inicia-se uma fascinante batalha jurídica e política entre os tribunais dos EUA e de Espanha. Quem era o proprietário do tesouro? Espanha reclama-o como propriedade do património espanhol.

Paco Roca e Guillermo Corral fazem uma homenagem às aventuras clássicas, e resgatam a nossa história mais recente do esquecimento.