Como tem sido tendência nos últimos anos, voltei a ultrapassar o número de leituras do ano anterior, com 416 leituras (podem consultar a entrada no blogue onde faço uma análise mais estatística do que li). De realçar que este número se deve muito a ter explorado Mangá, cujos volumes costumam ser de maior rapidez de leitura, o que ajudou, sem dúvida, a atingir este número. Esta foi sem dúvida a tendência em 2025. No Francobelga li sobretudo o que foi lançado em Portugal (com algumas, poucas excepções em espanhol ou francês). Também peguei nalgumas séries da Image que me chamaram à atenção, mas em número reduzido. Em 2026 espero manter esta tendência, ainda que veja a exploração de Mangá a diminuir, sobretudo porque acho que já descobri o tom que mais aprecio.
Na componente não BD, peguei nalguns livros de autoria nacional e em vários livros ingleses de grande sucesso lançados sobretudo em inglês. Curiosamente, vários destes volumes foram publicados pela Tor.com. Para 2026, espero continuar algumas destas séries. Espero, também, ler menos livros, mas como maior número de páginas – pretendo ler Katabasis da Kuang, Water moon de Sotto Yambao, os livros de fantasia da Martha Wells, e investir mais em Emily Tesh. Também adquiri alguns de Grimdark – volumes enormes que deverei ler mais lentamente.
Focando-me apenas na componente não BD para esta entrada de melhores do ano (haverá uma dedicada mais à frente para banda desenhada), eis as melhores leituras do ano.
Literatura Nacional
Este foi um ano em que consegui voltar a investir mais em autores portugueses, lendo alguns lançamentos recentes.



Alguns anitos após o lançamento do primeiro Winepunk, eis que surge, finalmente a tão esperada segunda antologia, WInepunk, Ano 2, A república Contra-ataca. E se a Monarquia do Norte tivesse durado três anos? Esta antologia foca-se sobretudo no ano 2 desta possibilidade, destacando-se pelo cuidado visual (com páginas que vão apresentando esquemas e desenhos), com uma cronologia final e uma introdução ao mundo. Os contos são cuidados, com alguns mais emocionantes e outros mais voltados para os factos, desenvolvendo possibilidades. Como esperado, é uma antologia com qualidade acima da média.
Este ano marcou, também, o retorno de Pedro Medina Ribeiro, de quem não se via algo publicado há algum tempo. Serpente no sótão é uma colectânea de contos, sobretudo de horror. O tamanho dos contos vai oscilando entre as 3 e as 40 páginas e vão explorando as várias vertentes do género, com alguns a distanciarem-se, outros a apresentarem-se com maior acção e opondo-se aos de narrativa mais pausada que desenvolvem personagens. O resultado é, como seria de esperar, bastante bom, ainda que não muito homogéneo em formato e desenvolvimento.
Cidadão sem sombra é outra colectânea, desta vez de João Ventura. Ainda não tirei um momento para falar do livro, mas será uma aquisição obrigatória para quem gosta de metaliteratura ou jogos de palavras e conceitos. Algumas das histórias são micro-contos, outras são mais desenvolvidas, mas quase todas apresentam trocadilhos, com uma construção inteligente e concisa.
Menções honrosas



Sem qualquer expectativa definida, peguei neste A Bússola e o Labirinto, de Sebastião Alves, tendo ficado positivamente agradada com o resultado. Aliás, diria que, por pouco, não faz parte da lista de melhores. Trata-se de um livro de ficção científica que nos mostra uma sociedade onde predomina uma espécie de ditadura de cores, onde um grupo específico de pessoas foi demonizado no passado. Contra todos os conselhos um académico resolve fazer a tese sobre esse grupo, acordando terrores sociais antigos que são aproveitados pela comunicação social para criar uma situação de pânico e, consequentemente, fazer subir os partidos populistas.
De Luís Corte Real, fui, também, surpreendida com este Reinos Bastardos que se afasta em tom e construção de outras narrativas do mesmo autor. A história apresenta uma fantasia arisca mas envolvente, com uma mitologia muito própria. É uma leitura fantástica fluída e cativante, que me surpreendeu sobretudo pelo desenvolvimento da personagem principal – uma humana criada no meio de Orcs.
Em A Conversão dos nus Nuno Ferreira afasta-se dos géneros da ficção especulativa com uma narrativa mais centrada na ficção histórica, apesar de alguns elementos fantásticos. É uma história movimentada e tensa, que mistura religiosidade com crenças, resultando num romance de leitura fluída com algumas passagens mirabolantes.
Ficção Científica
Eis uma escolha que foi bastante difícil este ano. Dos quase 30 livros que li em 2025 de ficção científica, vários foram excelentes, fazendo com que a lista de potenciais melhores tivesse 10 candidatos.



Julgo que, sem surpresas, a lista de melhores leituras de ficção científica do ano aparece encabeçada pelo mais recente livro de Sofia Samatar, The Practice, the Horizon and The Chain. A história apresenta-nos uma sociedade com estratos sociais, destacando-se por nos mostrar como, apesar de todos habitarem na mesma nave, a realidade a que têm acesso é tão distinta. É um pequeno livro surpreendente e conciso, contendo apenas o essencial, mas brutal pela forma como se apresenta.
Num tom bastante diferente, Automatic Noodle de Annalee Newitz, pertence à mais recente onda de narrativas confortáveis (onde se enquadrava Café das Lendas), mas decorre num ambiente de ficção científica, futurista e pós-guerra, onde os robots lutaram pelo seu estatuto, com algumas vitórias. Existe um forte paralelismo com a escravidão de seres humanos, ao mesmo tempo que as entidades tentam desenvolver uma identidade própria que permita criar a sua própria fatia de clientela. A autora já tinha estado entre numa lista de melhores do ano, com o The Terraformers.
A grande surpresa aparece no final do ano, numa das últimas leituras com This is how you lose the time war, livro que ainda não tive oportunidade de falar no blogue. A beleza da escrita de Amal El-Mohtar já a tinha percebido com The River has Roots (que, sem surpresa, estará na lista de melhores no género fantástico). De Max Gladstone julgo que não tinha lido nada. Neste volume, duas entidades de facções opostas tentam manipular várias linhas temporais numa guerra que ultrapassa os limites espaço-temporais. As duas entidades começam a corresponder-se – primeiro como uma extensão da sua oposição, mas entre o reconhecimento e a empatia que se cria, na segunda abordagem como uma história de amor impossível.
Menções honrosas



Em Solaris a humanidade confronta-se com a sua própria definição do que será inteligência e consciência quando encontra uma entidade alienígena que ocupa todo um planeta sob a forma de um oceano mutável. A história leva ao questionamento mas não fornece propriamente resposta, apresentando-se sob uma perspectiva introspectiva e contrapondo autenticidade com memória.
De Premee Mohamed, The Annual Migration of Clouds é o primeiro volume de uma trilogia que nos apresenta um mundo pós-apocalíptico. Após o colapso repentino da civilização, seguimos uma pequena comunidade que subsiste pela cooperação. A história foca-se nos acontecimentos passados que marcaram as personagens, bem como na perspectiva de um futuro individual que parece opor-se ao da comunidade. Apesar de ter adorado este história, o volume não se encontra entre os melhores porque não desenvolve o suficiente para tal – precisarei de ler a continuação para perceber o quão excepcional ou decepcionante se pode tornar.
A última menção honrosa é mais uma série do que um volume individual. Depois de ter lido o primeiro volume de Murderbot em português (lançado pela Relógio d’Água), e de ter visto a primeira época da série, resolvi-me a ler as restantes histórias já publicadas. A série vai apresentando oscilações, com maior foco nas interacções entre entidades artificiais (que são as minhas favoritas) ou maior foco na estupidez humana, o que resulta em passagens carregadas de acção e de ironia.
Da primeira lista de dez primeiros escolhidos, constavam ainda Template de Matthew Hughes, Rose / House de Arkady Martine, e Volatile Memory de Seth Haddon.
Dada esta lista, não é assim de estranhar que para 2026 já tenha outro livro de Annalee Newitz para ler (The future of another timeline) e de Sofia Samatar (Tender), bem como a continuação de The Annual Migration of Clouds. Aguardo o lançamento do próximo volume de The Murderbot de Martha Wells, e de Seasons of Glass and Iron de Amal El-Mohtar.
Fantasia
Se a escolha tinha sido difícil para a ficção científica, para a fantasia não foi muito melhor. A primeira lista tinha 14 escolhas.



A primeira escolha não é surpreendente para quem siga o blogue. Ou para quem tenha lido a lista das melhores leituras de ficção científica, acima. Amal El-Mohtar consegue a proeza de aparecer em duas secções diferentes, com The River has roots para a fantasia. Independentemente do conteúdo, a sua escrita poética, mas certeira e concisa é formidável. Quando olhamos para o conteúdo encontramos também valor no que é apresentado. Neste caso trata-se de uma alusão às histórias mais clássicas com um mundo fantástico e curioso.
Premee Mohamed tinha aparecido também referida na secção de ficção científica, nas menções honrosas, com The Annual Migration of Clouds. The Butcher of the forest é o livro que lhe garante a inclusão na selecção da fantasia. A história explora dever e trauma, num ambiente sombrio e pouco optimista, centrando-se numa mulher que já não é jovem e que carrega consigo as mazelas (físicas e psicológicas) de demandas anteriores. Ainda assim, é forçada a entrar na floresta amaldiçoada para resgatar os filhos do déspota local.
A short stay in hell foi um dos livros recomendados pelo Artur Coelho no fórum fantástico. O título é decerto irónico, dado que de curta a estadia tem pouco. A hipótese que coloca é simples. E se quem não seguir a religião certa ficar num limbo quase eterno? Com uma demanda quase impossível que lhe poderá garantir a passagem para uma espécie de paraíso? Este limbo parece, à primeira vista, um local agradável para existir. Sem fogos nem torturas às mãos de demónios, mas onde a monotonia da eternidade se torna o maior pesadelo imaginável. Detalhe – neste caso, o local será uma espécie de biblioteca de Babel contendo todos os livros possíveis de escrever com todas as combinações possíveis de caracteres. Mas na realidade, um inferno de biblioteca, dado que a grande maioria não possui frases inteligíveis.
Menções honrosas



As Quatro Mortes e a Ressurreição de Fiódor Mikhailovich, o mais recente livro de Zoran Zivkovic, pega na figura do escritor Fiódor Dostoiévski para apresentar quatro versões alternativas e as consequências para a literatura em cada uma das versões. As quatro versões encaixam-se em quatro perspectivas diferentes sobre a literatura e a importância do autor, num exercício narrativo limpo, conciso e objectivo.
Silver in the wood é um pequeno e extraordinário livro de Emily Tesh de leitura cativante mas sombria onde se cruzam elementos tradicionais de histórias fantásticas, com um estar mais actual e moderno. O cruzamento terá consequências imprevisíveis, e um final que não é propriamente feliz. É, sem dúvida uma das leituras favoritas do ano, mas não se encontra melhor posicionado por ser o primeiro de uma duologia. O segundo, Drowned country ,é interessante, mas muda substancialmente de tom e concretização, tendo-me desiludido.
How to become the dark lord and die trying não é, sem dúvida, o livro mais bem escrito deste conjunto. Tem algumas arestas por limar, tanto a nível de escrita como a nível de construção de mundo e fluxo narrativo. Ainda assim, é um dos livros mais divertidos que li nos últimos tempos, com um mundo engraçado e uma personagem que, ao tentar chefiar as hordas de monstros, se torna numa verdadeira líder, trazendo o melhor de cada um dos que a segue.



Every heart a doorway introduz-nos a um mundo fantástico mas sombrio onde algumas crianças retornaram de outros mundos, pouco realistas. Estes mundos, comummente designados de fantásticos, podem na verdade ser pesadelos aos quais as crianças se devem adaptar. Curiosamente, anos depois de neles viverem, o retorno à nossa realidade não as restabelece. Habituados a mutarem-se para encaixar nos respectivos mundos, várias aspiram a retornar. Cada volume funciona de forma isolada, contando uma história contida em si própria, apesar de partilharem o mesmo Universo ficcional. Este primeiro livro funciona como introdutório, decorrendo num colégio interno onde vivem várias destas crianças, incapazes de se adaptarem ao mundo onde nasceram.
A série Singing Hills Cycle de Nghi Vo tem ganho vários prémios ao longo dos anos, tendo-me recentemente despertado a curiosidade. Também nesta série cada volume funciona como uma história isolada que decorre no mesmo Universo Ficcional, existindo os monges de Singing Hills que têm como dever registar as várias versões das histórias de todas as culturas. The Empress of Salt and Fortune é uma história curta de leitura pausada, onde os detalhes se apresentam em passagens carregadas de significado. O segundo volume é mais movimentado, mas também altamente simbólico. Ambos demonstram histórias de choques de culturas, onde as subtilezas têm significados diferentes.
Não Ficção
As leituras de não ficção foram bastante diminutas este ano, mas destaca-se este The Carrier Bag Theory of Fiction. Trata-se de um pequeno livro de uma autora de referência onde se refazem alguns conceitos base da construção de histórias, afastando-se da narrativa centrada no herói, e explorando outros conceitos, onde se desenvolvem personagens menos perfeitas, mas mais ricas e cativantes.

