No ano de 2023 as leituras rondaram as 270 leituras, correspondendo cerca de 80% destas a banda desenhada. A lista total de leituras pode ser consultada no Goodreads. Destas, houve, claro, algumas que surpreenderam mais do que outras! Eis as melhores!
Obras Portuguesas



Neon, de Rita Alfaiate, foi uma das grandes surpresas do ano, quer a nível visual, quer a nível narrativo. A história leva-nos a um futuro pouco distante, onde se centra numa jovem que deambula numa cidade futurista e automatizada mas totalmente deserta. A premissa permite criar páginas fabulosas onde os cenários escuros são iluminados por focos neon que contrastam e conferem um ambiente cyberpunk.
Álvaro volta com um volume de tamanho e formato pouco típico – Porra… Voltei! A história parte de uma ideia simples mas eficaz. E se Jesus Cristo voltasse à Terra e tivesse oportunidade de ver a humanidade actual, e a Igreja que se baseou nos seus ensinamentos? Álvaro carrega a narrativa com sarcasmo e ironia, enquanto explora várias vertentes da sociedade que não se enquadram na lógica dos ensinamentos, demonstrando a hipocrisia e a falsidade de alguns crentes. É um livro politicamente incorrecto, destinado a adultos que gostem de humor negro e muito sarcasmo.
Outro dos grandes lançamentos nacionais é, também, de uma autora, neste caso Joana Mosi. Ainda não tive oportunidade de publicar um comentário a O Mangusto, mas é uma história que começa como uma obsessão quase banal ou semi cómica, para se desenvolver como uma narrativa mais introspectiva onde as tais obsessões têm uma base mais séria.
Menções honrosas



O Penteador, de Paulo J. Mendes, tinha sido das leituras portuguesas mais divertidas de sempre, com toques de rocambolesco e caricato, bem como referências familiares a vilas portuguesas de pequena dimensão. Elviro, do mesmo autor, apresenta-se na mesma linha, focando-se em relacionamentos, amizades e companheirismo, mas contendo uma narrativa menos limpa. É uma leitura divertida e fabulosa, bastante aconselhável.
Entre os pequenos livros publicados pela Kingpin Books encontramos este Há quem queira que a Luz se apague que apresenta, como personagens principais, Derradé e Álvaro, dois autores resistentes na publicação de banda desenhada de humor. Num futuro português onde se instala uma distopia contra o humor, o trabalho de Derradé leva-o a ser perseguido pelo regime. O resultado possui algumas passagens cómicas, mas demasiado curto e sem desenvolvimento.
A Fórmula da Felicidade ou The Formula! de Nuno Duarte e Osvaldo Medina é uma daquelas leituras que só tive oportunidade de ler recentemente, apesar de a ter debaixo de olho há algum tempo. A história tem cadência filmatográfica, conseguindo focar-se numa única personagem, mas construir uma narrativa completa e envolvente. Neste livro, um jovem consegue criar uma fórmula matemática que, lida por ele, confere felicidade automática a quem a ouve. Há quem se torne obcecado pela fórmula e há quem deseje tornar-se rico com ela.
Melhor Adaptação


The Great Gatsby é um daqueles clássicos de que ouço falar há décadas mas no qual nunca peguei. Esta adaptação para banda desenhada não é a única, nem sequer a primeira, mas destaca-se pela participação de Jorge Coelho, um desenhador português que fez um trabalho brutal. Para além das perspectivas fabulosas, encontramos páginas com padrões luxuosos e alusivos à época, estando a história bem adaptada e perceptível.
A outra grande adaptação lançada em mercado português foi Macbeth, Rei da Escócia. O clássico de Shakespeare apresenta uma história sombria onde não faltam feitiços e bruxas em lugares remotos, pactos com sangue, serpentes e mortes escabrosas. Todos estes elementos servem para produzir páginas visualmente surpreendentes, dentro do esperado estilo de terror.
Fantasia



Twig foi uma das melhores surpresas deste ano, ainda que as expectativas já fossem elevadas. A autoria é de Skottie Young, já aqui falado por séries como I Hate Fairyland (brutal, cómica, mirabolante) ou Middlewest. Em Twig o autor pega em vários clichés da fantasia (como a lógica do escolhido, as profecias pouco claras, as missões e os amigos que vão ajudando e se juntando à demanda) para criar uma história que, de alguma forma, consegue surpreender e fornecer novos caminhos e novas perspectivas a esses mesmos clichés. Ao contrário de I Hate Fairyland é uma história fofa e amorosa, simultaneamente simples e desafiadora.
A segunda escolha para a fantasia é uma obra lançada pela Ala dos Livros e que consegue cruzar realidade com elementos mágicos (e imaginativos) numa narrativa que se inicia quase como uma paródia mas que se transforma numa história de melancolia e confronto com as verdades de cada um. O Livro das Maravilhas é uma efabulação das aventuras de Marco Polo que apresenta alguns dos episódios sob uma nova luz, sem se afirmar como realidade ou ficção.
Eight Billion Genies também se transformou numa boa surpresa. E se, num dado momentos, todos os seres humanos passassem a ter um génio que lhes poderia conceder um único desejo? Os primeiros instantes são de caos. É que não há só os que desejam poderes e dinheiro. Há os que desejam o fim do planeta, a existência de dinossauros ou de outros monstros. Felizmente, num pequeno bar, o dono pede que o local seja imune a qualquer desejo. E é assim que um pequeno grupo de pessoas sobrevive incólume com a maioria dos seus poderes. Com o passar do tempo alguns terão de fazer o seu próprio percurso. A premissa permite um desenvolvimento original e páginas espectaculares.
Menção honrosa



Em 2022 uma das melhores leituras tinha sido Pele de Homem. Em 2023 destaco, do mesmo autor, Tenebrosa, livro que tive oportunidade de ler na edição espanhola. Não fosse a qualidade de várias obras no género fantástico que li em 2023, e este estaria decerto no topo. A narrativa leva-nos para uma realidade quase medieval, onde cabem monstros, feitiços e bruxas, mas consegue reverter os papéis de alguns destes elementos, e transpor algumas expectativas para uma história com estes elementos.
I Hate Fairyland está de volta! Mas se antes, acompanhávamos Gertrude como criança nos reinos encantados, agora que esteve no nosso mundo e desenvolveu o corpo esperado para a sua idade, o regresso irá permitir explorar abordagens que antes teriam sido impossíveis. Esperem a mesma violência, mas adicionem algumas referências sexuais.
Mind MGMT é, no mínimo, uma história estranha. A série apresenta-nos uma organização secreta que utilizará os poderes de várias pessoas para manipular a percepção da realidade – mudando acontecimentos, apagando memórias, fazendo desaparecer pessoas e factos. A perspectiva é a de uma escritora que procura as pistas para o próximo best-seller de investigação. Mas ela é bastante mais do que julga, e o enigma que pretende desvendar é, também, bastante mais profundo e perigoso. A série vai apresentando várias histórias paralelas, focando-se nas várias pessoas que participavam nesta organização, na forma como descobriram os seus poderes e como os usavam.
Western


Hoka Hey! foi uma das poucas obras que trouxe das minhas recorrentes viagens a Paris. Estava em destaque na livraria e não me arrependi por lhe ter pegado. Muito pelo contrário. A história é contada pela perspectiva de um jovem índio que, não conhecendo os pais, é educado por um homem branco que o mostra como uma raridade – um jovem que, apesar das suas origens, se comporta como um ocidental, sem perceber que é mais tratado como uma animal enjaulado do que uma pessoa com dignidade. As circunstâncias levá-lo-ão a conhecer um pouco mais das suas origens e a ter uma outra perspectiva em relação a querer ser médico.
Go West, lançado em Portugal pela Gradiva, destaca-se pela forma como desenvolve a história – foca-se num relógio que vai passando de mãos em mãos, sendo que, a cada passagem, o capítulo é desenvolvido por novos autores. Esta lógica deixou-me de pé atrás, mas de alguma forma funciona muito bem neste volume que tem uma qualidade média muito elevada nos desenhos.
Terror


Monstros não é um lançamento de 2023, mas foi uma leitura minha deste ano. Trata-se de uma leitura brutal que pega na premissa dos monstros de aspecto humano comparando-os com os de aspecto monstruoso mas coração bondoso ou inocente. A premissa não é nova, nem original, mas consegue construir uma história envolvente e chocante, cruzando nazis com o sobreviver psicologicamente a uma guerra.
The Night Eaters é a mais recente série da dupla Marjorie Liu e Sana Takeda, uma série mais leve que Monstress em termos de construção de mundo, mas com uma premissa de horror. A história centra-se numa família asiática que tenda adaptar-se a um país ocidental, expressando algumas características culturais da primeira comparação. Neste caso, para além das questões asiáticas, a família esconde capacidades sobrenaturais que vão originar episódios mais tensos. É uma boa leitura.
Não ficção



Neste secção temos três livros bastante diferentes. Em Busca do Tintin Perdido é um livro extraordinário. Os outros também são bons, mas este destaca-se por se tratar de uma narrativa autobiográfica, em que o autor explora, simultaneamente, episódios da sua própria vida, a relação com a banda desenhada e o fascínio que tem por alguns autores. O seu percurso não foi linear, sendo composto por saltos, contratempos, desilusões e investimento pessoal. Em termos visuais, todo este fascínio se traduz em espectaculares páginas, inspiradas nos mais diversos estilos dos grandes mestres da banda desenhada.
Em El Museo, de Jorge Carrion e Sagar, os autores reconstroem a experiência de um museu, dissertando sobre o que é um Museu, as suas componentes e evolução. O livro cruza história ilustrada com momentos de banda desenhada, explorando obras de arte e interpretações, usando-as para construir um ambiente estético. Não é uma obra uniforme e constante, mas que vai proporcionando diferentes experiências ao longo da leitura.
Book love, o último dos escolhidos desta secção, é um pequeno e adorável livro que apresenta uma personagem que adora livros e ler. O livro é composto por pequenos episódios em torno de alguma vertente da leitura, sejam as pilhas de livros por ler, seja o sentimento de acabar uma leitura que criou uma elevada empatia para com as personagens.
Séries



A Esperança Nunca Morre já vai em três volumes publicados em português mas só recentemente li os três de uma rajada. Trata-se de uma série que usa as personagens Spirou e Fantásio para nos levar à Bélgica no início da Segunda Guerra Mundial, retratando como o país se manteve, no início, fora do conflito, e depois, durante a invasão, como os locais arranjaram estratégias para sobreviver. Algumas das estratégias passam por assumir as ideias políticas dos invasores, enquanto outros tecem a resistência. É uma leitura com alguma tensão e momentos mais negros, ainda que use as personagens principais para dar um toque mais ligeiro.
Em Decálogo, sinto que chego tarde para a festa. A série foi publicada há alguns anos e encontrei-a recentemente a um preço irresistível (tipo 3.5€ por volume) em promoção. É uma série curiosa que se centra num manuscrito que vai passando de mãos em mãos ao longo dos séculos – um livro de conteúdo polémico que pode revolucionar a visão muçulmana, mas que, de alguma forma, provoca sempre destinos catastróficos em quem o possui.
O segundo volume de Malditos apresenta uma história bastante crítica aos episódios do Antigo Testamento, expondo a violência e a obsessão religiosas como doentias, corruptas e corrompíveis – uma visão visceral, dura e crua que é bem representada nesta série.
Outros (Não Mangá)




De alguma forma, das leituras de 2023, não existiam suficientes livros excelentes de ficção científica para construir uma secção só para este género. Destaco Segmentos, de aspecto clássico (proporcionado pelos desenhos de Gimenez) que apresenta uma história mais adulta e pouco condescendente para com o leitor. A história possui alguns elementos que podem chocar leitores mais sensíveis, com passagens politicamente pouco correctas e um humor negro peculiar (que, mesmo assim, a meu ver, poderia ser mais carregado).
Elise e os novos Partisans não é um livro fácil. Já comecei a escrever sobre ele, mas para ser justa para com a leitura tenho de ler um pouco mais sobre a história francesa. A narrativa começa por se focar nos finais dos anos 60, numa vertente biográfica, onde a autora apresenta o seu engajamento político, a forma como os estrangeiros eram tratados em Paris, e a luta da classe trabalhadora para a obtenção de direitos. Esta luta teve uma grande vertente clandestina e esta também se encontra retratada no livro.
Uma estrela de algodão preto aproveita uma premissa ficcional para se focar na forma como os afroamericanos eram tratados durante a Segunda Guerra Mundial, quer em terreno americano, quer em terreno de guerra. O resultado é uma obra excelente, mas de pesada leitura. É uma história que se centra no racismo na sociedade dos Estados Unidos da América, enquanto apresenta a perspectiva afro americana em vários episódios diferentes – perspectiva esta que é dolorosa de percepcionar e que nos confronta com uma realidade bastante diferente, mas verídica.
O último desta secção é um livro infantil que devo destacar. Adéle é uma série juvenil que pode e deve ser lida por adultos. A personagem principal é uma criança de humor negro, que destila sarcasmo e gosta de monstros ou vertentes mais horrorosas. Adéle tem tiragens inteligentes, mas irónicas e ácidas.
Mangá



Começo com as três séries de maior acção. One Piece é um clássico! A história assenta visivelmente numa fórmula narrativa que vai sendo mais complexa a cada iteracção. A personagem principal pretende ser o maior pirata, mas para tal deve reunir tripulação e barco. De episódio em episódio vai conseguindo que novas pessoas se juntem, enfrentando vilões (por vezes outros piratas), em momentos cómicos e confrontos épicos. Já estou no quarto volume (cada um destes possui mais de 550 páginas) e denoto algum cansaço, com ciclos e batalhas cada vez mais longos, mas é uma série divertida, carregada de elementos mirabolantes.
Solo Leveling possui, também, um ciclo de batalhas repetitivo, com a personagem principal a adquirir poderes especiais como guerreiro e a conseguir enfrentar monstros sucessivamente mais poderosos. Mas os ciclos de confrontos e batalhas está a ser balanceado por desafios cada vez mais enigmáticos e interessantes, com a personagem principal a ser envolvida em estranhas lutas políticas e de poder entre grupos de lutadores.
A terceira série surpreendeu pela positiva. The Promised Neverland tem um aspecto fofinho e delicado, mas a premissa choca com este aspecto. A narrativa centra-se num grupo de crianças que cresce no orfanato, num ambiente quase perfeito de brincadeira e progressão intelectual. A única adulta é uma personagem aparentemente complacente e bondosa. Mas, de repente, no meio de toda esta fofura, apercebemo-nos que o orfanato é uma quinta de crianças para que alienígenas de alimentem. Tal como o leitor, algumas crianças também o percebem e devem, agora, delinear um plano para escapar.



The Girl from the other side é o oposto The Promised Neverland em expectativas. O aspecto é mais sombrio, mostrando uma figura de aspecto monstruoso. A narrativa está envolta em mistério, mas dá a entender que alguns humanos foram contaminados e mudam de aspecto, isolando-se da restante humanidade. Existe, no entanto, uma criança que deveria ter sido contaminada, mas que, de alguma forma, mantém o seu aspecto humano. Apesar de todo o enigma, é uma história extremamente ternurenta.
Monster, por seu lado, apresenta um monstro de aspecto bem humano. A história centra-se num médico que, por razões éticas, ignorou uma instrução superior para dar prioridade a uma personalidade política, tratando ao invés, uma criança. Ainda que momento pareça ser decisivo para terminar com a sua carreira, de alguma forma, o chefe que o remetia para o anonimato aparece morto, e a criança que salvou desaparece.
Chegamos ao final com O Preço da Desonra, uma excelente leitura que apresenta um lado menos honrado dos samurais. É, dada a natureza da premissa, um conjunto de histórias sérias, carregadas de acção e combates, onde os finais são, quase sempre, deprimentes e expondo uma vertente menos romantizada sobre os guerreiros japoneses. A par com a exploração de uma vertente pouco usual, destaca-se pelo traço realista e detalhado que concretiza páginas brutais.
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