Assim foi: Fórum Fantástico 2017

As diferenças

O Fórum Fantástico cresceu, este ano, de forma bastante positiva! Por um lado notou-se a forte aposta em workshops, o que possibilitou integrar camadas mais jovens e manter um programa mais dinâmico. A par com a usual (e fantástica) impressão a 3D organizada pelo Artur Coelho, houve espaço para desenvolver a imaginação dos mais pequenos, construir Zepellins e armaduras, ou para aprender um pouco mais de ilustração com Ricardo Venâncio.

Por outro, é de realçar a maior ocupação do espaço da Biblioteca Orlando Ribeiro que deu nova vida ao espaço – era impossível não reparar na tenda que ocupava parte do pátio com uma pequena feira do livro, onde se viam exemplares de livros de ficção científica e fantasia, sem faltarem os da autoria de Mike Carey, o escritor convidado deste ano. Nesta pequena feira do livro exterior encontravam-se a Leituria e a Dr. Kartoon.

Mas não foi só com a feira do livro que houve uma maior ocupação do espaço. O bom tempo permitiu a existência de bancas de produtos diversos, com especial destaque para o Steampunk (ou não estivesse a decorrer a EuroSteamCon integrada no Fórum Fantástico), bem como de mesas e cadeiras no exterior que permitiram usufruir do bom tempo. O terraço, bem como outras salas da biblioteca foram ocupadas, permitindo a apresentação de jogos de tabuleiro (com participação da Morapiaf) e a exibição de pranchas de Ricardo Venâncio.

E as diferenças não acabaram por aqui – a existência de um bar aberto durante todo o evento facilitou a permanência no Fórum Fantástico pois em anos anteriores era usual ter-se de deixar o recinto para comer alguma coisa. O menu, fantástico, possuía várias alusões ao evento e a comida fornecida era de boa qualidade (pela Cacaoati).

Mike e Linda Carey

Mike Carey produziu mais de 200 comics, vários livros e guiões para cinema. Com a adaptação para cinema de The Girl with all the gifts tem-se tornado cada vez mais requisitado. Por sua vez, Linda Carey escreveu também alguns livros (alguns sob pseudónimo). O destaque para a imensa obra, principalmente a de Mike Carey, serve para contrastar com o espírito que ambos demonstraram, sem prepotências ou projecções de importância, atenciosos e simpáticos durante todo o evento.

Na sexta-feira Mike Carey, conjuntamente com Filipe Melo e José Hartvig de Freitas, falou da larga experiência na produção de comics, da forma como trabalha com diversos desenhadores e da sua própria evolução e adaptação. Destacou-se a produção da série Unwritten, ideia que surgiu em cooperação com Peter Gross, com o qual já se habituou a desenhar. Foi uma palestra interessante e bem disposta.

No Sábado decorreu a conversa com ambos, Mike e Linda Carey, moderada por Rogério Ribeiro, mais voltada para os restantes livros (fora do formato da banda desenhada) onde se falou intensivamente do The Girl with all the gifts, que foi escrito em simultâneo com a adaptação, para cinema, da mesma história. Ambos os autores demonstraram uma queda para pequenos elementos subversivos nas suas histórias.

As restantes palestras de sexta

E com esta nomenclatura não pretendia referir menor prestígio das restantes palestras, mas sim destacar as que envolveram o autor convidado.

15:30 – Sessão Oficial de Abertura do Fórum Fantástico 2017

O Fórum iniciou-se na sexta (para mim, que não pude ir aos worksops) com uma sessão de apresentação de João Morales e Rogério Ribeiro onde expuseram algumas das diferenças deste ano e destacaram algumas sessões e workshops.

16:00 – Sessão “A Ficção Científica: Espelho de ansiedades políticas e pessoais”, com Jorge Martins Rosa, Maria do Rosário Monteiro, Daniel Cardoso e Aline Ferreira

Nesta sessão referiram-se várias obras e respectivas projecções das ansiedades sociais, não só em relação à evolução tecnológica e respectiva perda dos papéis tradicionais (com especial referência à mulher grávida e aos úteros artificiais), como a novos modelos sociais.

16:45 – Sessão “O lugar do Fantástico na Arte Contemporânea”, com Carlos Vidal, Henrique Costa e Opiarte – Núcleo de Ilustração e BD da FBAUL

A sessão apresentou a Opiarte enquanto espaço que permite, a alguns artistas, explorarem a vertente fantástica e de ficção científica nos seus trabalhos, espaço que visou responder a uma necessidade sentida pelos alunos da faculdade. Durante a sessão mostraram-se trabalhos produzidos neste núcleo, alguns dos quais se destacam pela qualidade.

17:45 – Sessão “Narrativa em Videojogos”, com Nelson Zagalo, Ricardo Correia e João Campos

(Cheguei no final)

As restantes palestras de sábado

14:30 – Sessão “Identidades autorais”, com Ana Luz, Joel Gomes e Pedro Cipriano

Os autores aproveitaram o espaço para falar sobre o seu percurso enquanto escritores, desde influências a desenvolvimento de método (destacando-se a referência de Ana Luz ao conto O Teste de João Barreiros), mostrando os livros em que já participaram, bem como os projectos futuros em que se encontram envolvidos.

16:00 – Lançamento “Almanaque Steampunk” (Editorial Divergência)

Cada EuroSteamCon costuma ser acompanhada pela publicação de um Almanaque Steampunk. O deste ano foi produzido em tempo recordo com a colaboração da Editorial Divergência. Ainda não tive oportunidade de ler, mas a publicação é curiosa, bastante atractiva visualmente, com conteúdos diversos e que promete bastante diversão para o leitor.

17:45 – Sessão “Prémio Adamastor”, com João Barreiros e Luís Filipe Silva

O prémio Adamastor este ano foi atribuído a João Barreiros e Luís Filipe Silva, dois dos poucos autores de ficção científica portuguesa que se têm destacado na divulgação do género dentro e fora do país. De realçar as várias antologias que João Barreiros organizou recentemente, bem como as colecções que organizou enquanto editor. Por seu lado, Luís Filipe Silva tem participado em diversas Con’s onde fala da ficção especulativa portuguesa, divulgando o que se fez em Portugal há várias décadas e o que se continua fazendo.

18:00 – Sessão “Dormir com Lisboa”, com Fausta Cardoso Pereira

Premiado e publicado na Galiza pela Urco Editora, Dormir com Lisboa é um romance de ficção especulativa que decorre na capital portuguesa, partindo da premissa de desaparecimento injustificável de várias pessoas. A passagem lida por João Morales denota um humor peculiar, com caricaturas de personagens e situações insólitas.

18:30 – Lançamento “Apocryphus #2”, com Miguel Jorge

Este projecto de banda desenhada português apresentou, no primeiro volume, uma qualidade gráfica excepcional, com elevado cuidado no tipo de papel utilizado e uma selecção cuidada de autores. À semelhança do primeiro volume, também o segundo foi publicado no Fórum, com a presença de tantos autores que por pouco transbordavam do palco.

Restantes palestras de Domingo

Infelizmente, Domingo apenas pude assistir à palestra do João Morales, Novas Metamorfoses Musicais, para além de participar em As Escolhas do ano com João Barreiros e Artur Coelho (sobre a qual dedicarei uma entrada específica para publicar as escolhas de cada um, como é usual).

A sessão de João Morales demonstrou o usual bom humor, com óptimas escolhas musicais onde se cruzam estilos e épocas, novas conjugações de musicas conhecidas em que destaco as seguintes:

(Venus in Furs: Versão portuguesa em Uma Outra História)

No final, há a destacar que o Fórum Fantástico é um evento TOTALMENTE gratuito, onde, todos os anos, várias pessoas se organizam para proporcionar, ao público, três dias de extrema diversão geek!

Resumo de Leituras – Novembro (3)

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133 – O Papiro de César – R. Goscinny e A. Uderzo – Os nossos heróis gauleses voltaram em grande com uma aventura movimentada que aproveita várias personagens conhecidas para aumentar as interacções cómicas. Uma aventura que permite duas leituras, uma simples e outra simbólica de homenagem, que consegue ter novos elementos cómicos.

134 – The Mirror – Marlys Millhiser – Referenciado como uma boa história de viagens no tempo, é uma fantasia bastante fechada que se centra na troca de corpo entre a avó e a neta, dando realce sobretudo aos choques culturais e sociais de cada uma. Por vezes demasiado extenso na descrição de alguns episódios, consegue mesmo assim ter bons momentos. Esta demasiada extensão obrigo-me a parar a leitura por vezes. Engraçado sem chegar à categoria do bom.

135 – Bang!19 – Vários autores – Esta edição da revista traz bons artigos sobre diversos temas e de variados autores, explorando ficção científica e fantasia em cinema, música ou RPG’s para além da usual literatura. De conteúdo diverso, nota-se um maior investimento em conteúdo associado aos livros da própria editora. De leitura obrigatória.

136 – Universos Literários – Vários autores – Apresentando história alternativa e mundos fantásticos, possui algumas histórias que se aguentam sozinhas. A qualidade não é constante, mas mesmo assim encontrei contos acima da expectativa. O que falta nestas antologias? Uma pequena introdução referindo qual o objectivo ou razão para se reunirem estas histórias. A rever mais detalhadamente numa entrada futura.

Algumas considerações

Há já algum tempo que tenho vontade de discorrer sobre a evolução da relação literatura Vs internet, mais especificamente da forma como algumas editoras e autores (não) utilizam este meio de comunicação cada vez mais barato para publicitar novos livros e eventos associados.

Numa altura em que se utiliza, cada vez mais, motores de busca como a google, para encontrar informações, parece-me que algumas editoras se negam a encarar a realidade: não possuem uma página oficial, ou o que possuem não a utilizam. Procura-se uma sinopse, uma simples informação sobre o livro ou autor, e mais facilmente esta se encontra num site genérico como o da FNAC ou da Wook, que na página oficial da editora, que anda às moscas, vá-se lá saber porquê (talvez por não ser actualizado há vários meses ou possuir informação confusa ou de difícil acesso?).

Entramos aqui também noutro domínio – o da acessibilidade dos sites. Acho que todos gostamos de ver uma página com música e de design composto, mas a médio ou longo prazo, de que serve uma página de lento acesso, onde a informação é de difícil obtenção e para a qual é complicado gerar links ou retirar as imagens oficiais? Não estou a falar de plagiar informação ou de a utilizar para proveito próprio, mas sim para propagar a informação e fazer algo tão simples como mostrar a um amigo, ou dissertar num fórum e conseguir dizer “foi esta a obra que me fascinou”. Em ambas as situações estamos a falar de publicidade gratuita que pode originar mais vendas.

Voltemos então à actualização das páginas oficiais das editoras: parece-me absurdo tomar conhecimento de um novo livro primeiro através de um site genérico e não através do oficial da editora. Ainda mais absurdo se torna quando a informação sobre o livro desejado nunca aparece na página oficinal: um espaço que pode ser consultado a qualquer momento, e que não depende do humor do livreiro ou de uma taxa qualquer para permanecer nas prateleiras principais.

Mas se existem, aos pontapés exemplos de má utilização de uma ferramenta de publicidade barata, não tão limitada quanto um jornal ou a montra de uma livraria, existem já editoras portuguesas a utilizar em pleno o potencial desta ferramenta. Entre as páginas oficiais actualizadas podemos encontrar blogs oficiais das editoras relacionados com os dos próprios autores, eventos marcados no facebook, fóruns ou até passatempos e comentários / críticas em blogs independentes das editoras: as estratégias parecem aproximar-se daquilo que há já alguns anos se vê nos mercados inglês e americano. Todas estas utilizações contribuem para aumentar a expectativa e a curiosidade nos potenciais leitores, com a criação de laços às próprias editoras ou autores.

Por último, qual o papel dos blogs independentes no meio disto tudo? (questão dúbia dado estarmos num blogs sobre livros.) Antes de mais e tentando esquecer que estamos num, o que procuro quando navego entre blogs literários? É fácil: opiniões concisas e límpidas, factos concretos, notícias sobre futuros lançamentos. Independentemente da opinião positiva ou negativa (que há-de ter o seu peso), procuro dados sobre a obra que me permitam discernir se irei, ou não, gostar da obra em questão. Agora falando da minha própria experiência enquanto leitora, encerrado um livro percebo, por vezes, que o li na altura errada ou que não o consegui apreciar por razões que fazem parte da minha própria personalidade (experiência de vida ou complexidade emocional). Há que tentar (nem sempre se consegue), separar as águas, o que está no livro e o que está em mim.

Desta forma, existem alguns blogs cuja referência me pode levar directamente a adquirir um livro (como o Of Blog of the Fallen), não porque tenha o mesmo gosto literário de quem escreve, mas porque normalmente me consegue apresentar um resumo concreto do que é o livro. Existem, ainda, aqueles em que só depois de várias referências considerarei a aquisição, ou aqueles em que as referências me levam a procurar mais informações. Entra aqui, também, o papel dos passatempos, que ajudam a realçar uma determinada obra, ao criarem um investimento emocional no concorrente, um envolvimento que poderá ajudar na aquisição da obra.

Posta esta dissertação amadora baseada apenas na minha experiência, aproveito para realçar que continuo sem perceber como algumas editoras descuram o papel positivo da internet enquanto meio de comunicação, numa perspectiva que foge claramente à realidade que nos rodeia.

Black Man / Thirteen – Richard Morgan

Para quem já conhece Altered Carbon, Black man não será uma surpresa, mas uma confirmação do género de Richard Morgan.

Num Futuro pouco distante em que os avanços tecnológicos se encontram dentro do expectável, Marte é uma colónia para onde se enviam os indesejáveis e trabalhadores pagos a preço de ouro. Em laboratório foram desenvolvidas variantes genéticas de seres humanos, como Bonobo ou Thirteen. Bonobo é uma variante humana de mulheres submissas usadas como criadas sexuais. Por sua vez, com Thirteen pretendia-se criar uma estirpe de homens mais agressivos, mais hábeis em combate – uma espécie de homem pré-civilizado, e consequentemente com uma baixa capacidade de integração e com a mania da perseguição. Estes seriam os soldados solitários por excelência. Ainda que as variantes genéticas sejam desprezadas, temidas ou marginalizadas, os Thirteen são os únicos que estão proibidos de procriar e que foram enviados para Marte, quando mais deles não havia necessidade. É a cor escura dos Thirteen que origina o título da edição inglesa do livro Black Man, ainda que na América tenha sido lançado como Thirteen para não ferir susceptibilidades.

Carl é um dos poucos Thirteen que conseguiu voltar a Terra, ficando encarregue de capturar Thirteen fugitivos – trabalho violento, imprevisto e frio que o leva a ter de eliminar por vezes outros seres humanos. E é por isso que, fora da jurisdicação da sua empresa, é colocado numa prisão, sem julgamento.

Simultaneamente, aquando da aterragem de uma nave de Marte com destino à Terra, origina-se o pânico. Um Thirteen clandestino terá acordado semanas antes do término da viagem, sozinho e sem comida… se não considerasse como tal os restantes tripulantes adormecidos. O cenário de terror é descoberto, mas o tripulante canibal desaparece misteriosamente.

E é com vista a poderem perseguir este Thirteen que Carl é liberto pelos agentes da COLIN.

Black Man é um livro movimentado, carregado de acção e de bons momentos, semelhante a Altered Carbon. No entanto, a meu ver terá sido demasiado prolongado com reviravoltas desnecessárias, tornando o final aliviante (finalmente acabou). Richard Morgan tenta também incorporar alguma tensão sexual que acaba por se perder nas passagens melancólicas que parecem tentar justificar as acções das personagens. Para mim, são estes dois pontos que me levam a não considerar este como um dos melhores livros do género dos últimos tempos.

 

River of Gods – Ian McDonald

Em parte pelas sinopses publicas, em parte pelas diferentes mas concordantes opiniões sobre o livro, River of Gods era daqueles livros pelo qual sentia bastante curiosidade.

Num futuro não muito distante, num país de terceiro mundo, no meio do caos humano e tecnológico, desenvolvem-se entidades artificiais de grande inteligência (aeais) que devem ser destruídas. A Índia encontra-se dividida em vários estados que poderão entrar em guerra em qualquer momento. Existem diferenças políticas, mas as disparidades sociais são as mesmas.

A história desenrola-se perspectivando as várias personagens: um oficial responsável pela destruição das entidades artificiais, e a sua esposa solitária em casa, um casal de cientistas que seguiu caminhos opostos, um ser humano assexuado, um conselheiro político com inclinação sexual obscura, uma jornalista ambiciosa, ou uma rapariga em busca dos pais biológicos que revela estranhos poderes.

Cada personagem tem a sua vida própria, as suas ambições, medos e esperanças – a esposa procura integrar-se numa sociedade de nível superior, caprichosa e hipócrita; o ser humano que pensava escapar à complexa sexualidade tornando-se assexuado vê-se numa história de amor incompreensível; ou a jornalista ambiciosa envolve-se numa reportagem de calibre demasiado elevado. Todas as personagens se entrelaçam e fazem parte de uma história maior de grandes dimensões.

O aspecto tecnológico é interessante, sem nos alienar – até porque a acção decorre poucos anos no futuro. O autor não se perde em explicações científicas esmagadoras e apenas é esclarecido o estritamente necessário para o decorrer da acção.

Com tal quantidade de personagens e complexidade, o livro não podia deixar de ser um calhamaço impressionante – mas um calhamaço que desde as primeiras páginas induz à sua leitura compulsiva e que só não li mais rápido por não arranjar posição para o ler. Bem estruturado e fluído,o final é o suficiente para não nos deixar desiludidos – perceptível , mas não esplendoroso.

Sem dúvida um Must Read dentro do género.

Sun of Suns – Karl Schroeder

A atraente (a meu ver) capa é da responsabilidade de Stephan Martiniere, o mesmo artista responsável pelas capas espectaculares de Brasyl, Rainbow’s end ou River of Gods. Stephan Martiniere não se dedica somente a desenhar futuras capas, mas também participa na indústria cinematográfica em filmes como I Robot ou Star Wars (II e III).

O livro é da autoria de Karl Schroeder – conhecido por desenvolver algumas especulações sobre a nanotecnologia ou as viagens interestelares na sua ficção científica futurística.

Antes de Sun of Suns, escreveu três novelas – Ventus, Lady of Mazes e Permanence – distinguidas pela aplicação de um novo conceito – Thalience. Uma só palavra, duas definições possíveis, ambas relacionadas com a capacidade de uma entidade não humana ser independente das categorias humanas de pensamento e de não ser apenas um espelho destas. Este será um género de parâmetro de avaliação das entidades, independente da auto-consciência.

No mínimo, intrigante.

Ainda que não tenha lido os restantes de Karl Schroeder, Sun of Suns, parece afastar-se desta perspectiva.

A história passa-se num futuro restante, num balão cheio de ar, água e rochas flutuantes, grande o suficiente para constituir um Mundo de nome Virga. Os humanos que aqui habitam terão de construir os  próprios sóis, assim como cidades em torno destes. A estabilidade das povoações depende não só da energia como da gravidade exercidada por estes sóis que são ainda fonte de poder – as nações que os possuem utilizam-nos para controlar e subjugar as restantes.

As sociedades são peculiares e deixaram-me uma impressão medieval – não por esperarmos castelos, cavalos e canções à lareira, mas pela hierarquização social, e pela mentalidade retrógada demonstrada pelas camadas inferiores. Outra coisa estranha é o modo como o conhecimento se encontra distribuído – possuem algumas capacidades tecnologicamente avançadas a par com alguma primitividade. Tal é algo que me pareceu incongruente no início, mas que é depois explicado com o desenrolar da história e que poderá ser explorado nos volumes seguintes.

A personagem principal, Hayrden Griffin, terá ficado orfão aquando da tentativa falhada do seu povo se tornar uma nação independente através da construção de um sol. Tal falhanço ter-se-à devido a uma frota destrutiva enviada pelo povo dominante. Hayrden cresce e a morte do comandante desta frota torna-se o objectivo da sua vida.

Quando comecei a leitura, o facto de a história partir de um jovem revoltado em busca de vingança, não me pareceu muito original. Vários livros existem, romances, fantasia ou Scifi que partem da mesma premissa. Esta impressão confirma-se nas primeiras páginas, mas a partir do meio a acção torna-se algo imprevisível, e vemo-nos arrastados por coincidências mirabolantes ou encontros estrategicamente bem colocados – até ao final em aberto que surpreendeu positivamente. Será interessante ver se Karl Schroeder consegue desenrolar de forma inteligente o novelo que emaranhou e fazer algo diferente.

O ponto forte é definitivamente o Mundo singular que poderá conter possibilidades diferentes. A história não é memorável, nem espectacular, mas deu vontade de pegar nos restantes livros da série, e ver se Sun of Suns funciona somente como introdução e se apanham as pontas soltas, ou se o tom se mantém e parte para uma trilogia de pouca relevância.

Aparências científicas

Podem ler-se nos jornais notícias sobre o aumento do investimento na ciência. Ouve-se falar de novas parcerias, novas instituições, novos ramos de investigação. Ouve-se, le-se. Ver é mais difícil. Infelizmente a maioria das posições parecem ser mais para dar a sensação de um avanço. Novos institutos, novos fundos ou novas parcerias. É tudo muito bonito. Pergunto-me, e então o que já existe?

Aumentam os fundos, sim senhora, mas com o desviar do orçamento para novos projectos (sonantes sem dúvida) baixa muitas vezes o investimento nos laboratórios que se encontram já a produzir resultados.

Se alturas houve já em que abriam anualmente dois concursos por ano para bolsas de doutoramento, o único do ano passado abriu tarde, prolongou-se para além do esperado, e os resultados saíram falhando mais uma vez as datas previstas (para além da barracada que houve em torno das listagens). O resultado dos recursos, por sua vez, só agora começa a ser conhecido. Nisto, esperou-se uma eternidade e em que situação ficam os investigadores que não têm outro modo de sustento? Isto só falando nas bolsas. Avaliação de projectos, essa então… é melhor nem escrever mais nada.

Na realidade, não temos muitos cientistas portugueses. Diria que estamos abaixo da média europeia (esse monstro comparativo que nos assombra). A andar assim não teremos muitos mais. Não sei porquê.

Depois das ovelhas… é a vez das galinhas…

Após a primeira clonagem mundialmente conhecida, as ovelhas tornaram-se num dos animais mais referenciados quando o tema decaía na biotecnologia. Mas, por quanto tempo ocuparão o podium? not for long se olharmos para as novas técnicas desenvolvidas e que dizeram recentemente notícia na BBC News

Pelo mesmo instituto chega-nos uma nova invenção, que não pretende clonar galinhas, mas levá-las a produzir ovos contra o cancro!

The Roslin Institute, near Edinburgh, says it has produced five generations of birds that can produce useful levels of life-saving proteins in egg whites.

E nem será necessário aumentar os níveis de colesterol, já que a dita proteína se encontra na parte branca do ovo.

“The idea of producing the proteins involved in treatments of flocks of laying hens means they can produce in bulk, they can produce cheaply and indeed the raw material for this production system is quite literally chicken feed.”(…)

Some of the birds have been engineered to lay eggs that contain miR24, a type of antibody with potential for treating malignant melanoma, or skin cancer. Others produce human interferon b-1a, which can be used to stop viruses replicating in cells.

E porque será que eu … mesmo acreditando tanto na biotecnologia, ponho tantas reservas quanto a estes métodos que parecem saídos de um livro de Ficção Científica, apesar de desacreditar na maioria dos argumentos postulados por leigos no assunto?

Simplesmente… acho que não sabemos o suficiente dos mecanismos e da complexidade dos seres vivos, para termos manias divinas…

Mais evidências do benefício do vinho

É commumente aceite e referenciado o consumo do vinho para diminuir alguns dos males que afligem a nossa saúde. Há quem refira propriedades anti-oxidantes, mas a verdade é que tanto médicos como alguns cientistas, aconselham a presença deste produto na nossa alimentação.

A relação entre a nossa dieta e a nossa esperança média de vida ou a qualidade desta, continuam a ser amplamente estudados, utilizando várias espécies modelo.

Mas o que este estudo tem de interessante é a influência de uma substância constituinte do vinho, o Resveratrol, do impacto de uma dieta altamente calórica. O artigo foi publicado na Nature, e pode ser lido numa forma menos científica no NYtimes.

Para analisar os efeitos, utilizaram-se vários modelos biológicos conhecidos – ratos, C. elegans, leveduras e até moscas. As conclusões parecem ser concordantes.
Ratos mantidos sob dieta caloricamente rica, aos quais se administrou Resveratrol, demonstraram não só a manutenção de uma melhor forma física e uma maior esperança médica de vida, como uma menor percentagem no desenvolvimento da diabetes.

Another group of mice was fed the identical high-fat diet but with a large daily dose of resveratrol (far larger than a human could get from drinking wine). The resveratrol did not stop them from putting on weight and growing as tubby as the other fat-eating mice. But it averted the high levels of glucose and insulin in the bloodstream, which are warning signs of diabetes, and it kept the mice’s livers at normal size.

Even more striking, the substance sharply extended the mice’s lifetimes. Those fed resveratrol along with the high- fat diet died many months later than the mice on high fat alone, and at the same rate as mice on a standard healthy diet. They had all the pleasures of gluttony but paid none of the price.

São resultados interessantes, que poderão explicar porque na Europa menor percentagem da população desenvolve as doenças da tecnologia sob uma dieta semelhante.

Por enquanto, os cientistas envolvidos no estudo começaram a consumir Resveratrol sob a forma de comprimidos, mas nem a aplicabilidade em humanos nem as consequências de elevada concentração de Resveratrol foram ainda estudadas.

Paródia Evolutiva Humana – Elfos ou anões?

Bem, e o que sai quando um economista (que lecciona Teoria Política e faz parte de uma coisa estranha chamada Evolutionary Moral Psychology Group) resolve opinar sobre evolução na espécie humana? – Uma notícia na BBC News que deve ser algo como Monty Python para cientistas (ou conhecedores da teoria da evolução)… Infelizmente, o artigo pretende ter um teor sério e credível.

Mas tanto palreio sobre a teoria… afinal em que consiste?
Primeiro que tudo, supõe que a raça humana se ramificaria em duas partes. Mas a divisão não é a parte aberratória – em que consiste, isso sim é cómico.

Evolutionary theorist Oliver Curry of the London School of Economics expects a genetic upper class and a dim-witted underclass to emerge.

Basicamente pressupõe a formação da classe de escravos burros feios e estúpidos, verdadeiros anões; e de uma classe de elite, constituída por indivíduos saudáveis, de longevidade elevada, altos, esbeltos, férteis e de aspecto jovem.

Physical appearance, driven by indicators of health, youth and fertility, will improve, he says, while men will exhibit symmetrical facial features, look athletic, and have squarer jaws, deeper voices and bigger penises.

Women, on the other hand, will develop lighter, smooth, hairless skin, large clear eyes, pert breasts, glossy hair, and even features, he adds. Racial differences will be ironed out by interbreeding, producing a uniform race of coffee-coloured people.

Só algumas coisas

1. Nós não somos cães. Não só temos genes escondidos (muitas pessoas morenas têm gene para olhos azuis, mas o gene dos olhos castanhos sobrepõe-se), como normalmente as pessoas não escolhem os parceiros com o objectivo de apurar determinada característica genética. Além disso… os séculos de cruzamento entre elites resultaram em acumulação de doenças nas várias famílias reais europeias… e não na criação de uma classe perfeita

2. Diz-se que a Simetria Facial representa saúde e a ausência de doenças deformatórias na infância, mas com a diminuição das doenças, com o aumento dos tratamentos para tudo, e com as várias técnicas plásticas, provavelmente até serão bonitos e tal… agora o que tem isso a ver com os genes ou com a evolução da espécie? Simplesmente carregam os genes para todas as deficiências e mais algumas, mas tal não é visível.

3. Bigger Penises??? algum fetiche ou desejo do autor?

4. bem, é so a mim que parece haver incongruência no tom de pele ? “lighter, smooth, hairless skin”…. “coffee-coloured people”

5. hairless skin – no blog de um cientista na Science vêm dois interessantes argumentos. A) existe actualmente algum tipo de selecção negativa quanto a isto? as senhoras com mais pêlos rapam-nos … por isso… os homens não vêm se elas são peludas ou não… B) supostamente o número de pêlos que temos corresponde ao dos primatas nossos primos … diferença é que os temos vários finos, transparentes ou raquíticos….

6. pert breasts? outro comentário engraçado retirado do tal blog…. falta os homens começarem a adquirir vários tentáculos.

7. Que raio de diferenças raciais? segundo vários antropólogos, geniticistas e por aí fora, a variabilidade genética existente na espécie humana não é suficiente para definir raças…

8. Já agora, a coloração da pele parece que difere quanto ao local onde nascemos. Supostamente se as crianças nascerem em locais com pouco sol, desenvolvem uma tonalidade mais clara por não necessitarem da melanina produzida….

Oh wellll……. e depois ainda publica isto na BBC News…. Faz lembrar as notícias nos jornais que são chorrilhos de disparates…..

O Perigo dos Modelos Matemáticos

Os modelos matemáticos são muito utilizados hoje em dia – para prever resultados, para explicar fenómenos; e em praticamente todas as áreas da ciência – química, física, biologia e por aí fora.

Mas será que os modelos matemáticos ao serem abstractos, podem fazer com que a ciência se debruce sobre campos irreais ou não percepcionados pelo Homem? Sobre o perigo dos modelos matemáticos, saiu um interessante artigo na Science

Mathematics is at root a formal description of orderliness, and since the universe is orderly (at least on scales of space-time and mass-energy, which are within our power to observe), it should come as no surprise that the real world is well modeled mathematically. The mistake comes in turning this relationship on its head and expecting that every sequela of a mathematical model enjoys some real-world counterpart.

Lá porque um modelo se aplica à realidade conhecida, as suas outras resoluções possíveis não têm necessariamente de dilenear o que não se explorou.

E a dissertação na Science continua, relacionando a crença cega nos modelos com a visão antropomórfica e consequentemente com a especulação teológica que daí advém.

Com as novas teorias, alguns resultados são obtidos com base no que seria necessário para se originar vida, e não por observação. Isto traz alguns problemas, pois se nem todos os pressupostos estiverem correctos, apenas leva a um acumular sucessivo de erros.

Aqui fica mais um excerto deste interessante artigo

“We no longer have any evidence that our little piece of the universe is representative of the whole thing,” Susskind argues. And if the universe is not everywhere the same, then the properties of nature that physics has tried to specify would differ from place to place. “Once we agree that it’s diverse, then some features of it are environmental,” he says. “We have to figure out which ones.”

Mas falando em Teologia e em Ciência, surgiu agora um livro que parece interessante, do mesmo autor de Gene Egoísta

Richard Dawkins, who holds the interesting title of “Charles Simonyi professor of the public understanding of science” at Oxford University, is a master of scientific exposition and synthesis. When it comes to his own specialty, evolutionary biology, there is none better. But the purpose of this book, his latest of many, is not to explain science. It is rather, as he tells us, “to raise consciousness,” which is quite another thing.

Mais sobre o livro pode ser lido no NYTIMES

Wireless USB

Pode ler-se zdnetasia 

UWB technology can deliver data rates at up to 480 megabits per second at around 3 meters, with speeds dropping off as the range grows to a limit of about 10 meters. Real-world speeds will probably be a little slower, but this is as fast as the wired version of USB 2.0 and much faster than current Wi-Fi networks are capable of transmitting data.

Hum…. ! e já agora, vai gastar as fortunas em pilhas que gastam os actuais ratos wireless?

 Pictures taken on a digital camera could be immediately downloaded to a PC with the push of a button. The first time the devices notice each other, the PC would ask the user if it should connect to that particular camera, hard drive or smart phone.

Bem, isto já me parece mais interessante – mas se a autorização apenas tiver de provir do utilizador do pc… será que poderei começar a roubar as fotos dos telemóveis dos vizinhos?

Avacalhanços à parte, com a tecnologia que temos semi-disponível porque me parece que o avanço tecnológico está a ser lento ? estará a ser modelado para fazer render o peixe nos mercados? ou estaremos numa fase estacionário de aperfeiçoamento do que já temos ?

Evolução Tecnológica

As tecnologias não só evoluem como se tornam sucessivamente incompatíveis. São os novos sistemas digitais, as novas televisões… e a indecisão em comprar reina porque não sabemos o que surgirá meses depois.

Se os plasmas impressionam pela qualidade e nitidez de imagem, como serão as TVs a laser?

If you look at any screen today, the color content is roughly about 30-35 per cent of what the eye can see,” he said. “But for the very first time with a laser TV we’ll be able to see 90 per cent of what the eye can see. All of a sudden what you see is a lifelike image on display.”‘

Mas não só no ramo da comunicação existem extraordinárias revelações.

Esta semana encontra-se em pré-publicação um artigo na Nanomedicine da Elsevier segundo o qual uma nova substância poderá revoluccionar a saúde. De rápida polimerização, a substância bio-degradável permitirá estancar hemorrogias em escassos segundos, sem qualquer inconveniente encontrado até à data.

Até estar o artigo acessível, poderemos ler um pequeno resumo na New Scientist

Swab a clear liquid onto a gaping wound and watch the bleeding stop in seconds. An international team of researchers has accomplished just that in animals, using a solution of protein molecules that self-organise on the nanoscale into a biodegradable gel that stops bleeding.

Aplicações estudam-se não só para feridas como em complicadas cirurgias à vista ou em hemorrogias cerebrais.

Google Book Search

Enquanto umas editoras continuam com medo das espreitadelas não pagas (não vá aperceberem-se que o interesse auspiciado nas contracapas não corresponde ao livro); outras elevam aos céus as novas possibilidades de busca do google

The director of the Oxford University Press said, ‘Google Book Search has helped us turn searchers into consumers.’ It seems to work in favor of the smaller publishers

Será este mais um passo para dizer adeus às elevadas limitações das actuais leis de copyright?

E o Nobel da Química vai para …..

Kornberg, um cientista americano e biólogo molecular, que estuda o RNAi, uma molécula cujo estudo poderá permitir silenciar genes sem os mutar ou retirar da célula – uma nova e importante ferramenta em biologia molecular.

Não deixa de ser de todo engraçado que o pai tenha ganho igualmente o prémio Nobel, pelas descobertas relativas à expressão de genes – em como a informação do DNA leva à produção de uma proteína.

Pergunta final importante – Química?? Já criavam um prémio para Biologia ou Bioquímica…

Se a alergia não muda, muda-se o gato

É sabido que a proporção de pessoas alérgicas tem tido tendência a aumentar nos últimos anos.

Há quem refira a falta falta de selecção negativa (já que actualmente são raras as mortes por alergias)…

Alguns cientistas têm avançado a hipótese segundo a qual o crescimento em meios demasiado estéreis levaria o nosso sistema imunitário a responder perante o próprio corpo ou perante partículas inofensivas que constituem o nosso ambiente  ou a nossa alimentação.

Tal levaria não só a alergias como a doenças auto-imunes !
Quanto às alergias, se não deixamos de as ter… porque não modificar o que nos causa a alergia?

Seguindo este raciocínio, uma firma americana tem cruzado gatos que produzem menor quantidade de substância a que normalmente se é alérgico.

O resultado?

The cats will not cause the red eyes, sneezing and even asthma that some cat allergy sufferers experience, except in the most acute cases. Despite costing $3,950 (£2,104), there is already a waiting list to get one. Allerca first started taking orders for genetically engineered hypoallergenic cats back in 2004.